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21 Setembro 2018

Francisco, para onde queres nos levar?

Escrito por  OFMConv-Notícias

O cardeal argentino Jorge Bergoglio ao aceder ao serviço de pastor da Igreja universal, escolheu ser chamado de Francisco, Papa Francisco. Ele mesmo explica as razões de sua escolha. Antes de começar a escrever o texto da sua Carta encíclica sobre o cuidado da casa comum, Laudato Si’, afirma “Tomei o nome de Francisco por guia e inspiração, no momento da minha eleição para Bispo de Roma. Acho que Francisco é o exemplo por excelência do cuidado pelo que é frágil e por uma ecologia integral, vivida com alegria e autenticidade. É o santo padroeiro de todos os que estudam e trabalham no campo da ecologia, amado também por muitos que não são cristãos. Manifestou uma atenção particular pela criação de Deus e pelos mais pobres e abandonados. Amava e era amado por sua alegria, a sua dedicação generosa, o seu coração universal. Era um místico e um peregrino que vivia com simplicidade e em uma maravilhosa harmonia com Deus, com os outro, com a natureza e consigo mesmo. Nele se nota até que ponto são inseparáveis a preocupação pela natureza, a justiça para com os pobres, o empenhamento na sociedade e a paz interior” (n.10).

 

Borbulham anseios e fervilham perguntas na mente e no coração de um rapaz e de uma moça de ontem, de hoje e de sempre. Somos todos colocados diante do mistério da vida, do empreendimento da existência. Há questões que atravessam nosso espírito. Que bom que assim o seja. Somos seres livres e construímos nosso caminho. Quem sou eu? De onde em venho? Para onde vou? O que posso fazer desses dias que são os meus? Por que essa ânsia de comunhão, homem, mulher, de comunhão com tantos outros? Por que tudo isso? E esse meu irrequieto coração! Nunca está satisfeito. Que projeto esboçar para meu amanhã? Quem vai me dar sua mão? A quem eu daria minha vida? O que me faz viver?

Jovens? Esboços do amanhã? Inventores do novo? Correm de um lado para o outro, antenados, sempre antenados. Frequentam as baladas da noite. Alguns gostam de escalar montanhas, nadar em rios límpidos, aspirar o ar puro dos canteiros de flores. Há os que são tatuados, usam brincos e piercings. Alguns voltam para casa, nas madrugadas, sem terem quebrado uma certa harmonia do coração. Não se deixam contaminar. Parece que são imunizados. Enquanto o sono não chega pensam nos caminhos que poderiam percorrer, em estradas que parecem abertas, em sonhos que podem transformar-se em realidade. O que eles vivem com os outros nessas noites vazias não pode ser vida. Há perguntas. Questões que pululam. O que posso fazer de minha vida? O que poderá me fazer viver? Como poderei ser uma pessoa significativa? O cortês e reto Francisco de Pietro Bernardone também tinha perguntas que lhe atravessam a mente.

Há uma oração atribuída ao Poverello que se situa nesses momentos abençoados de busca, “Grande e magnífico Deus, iluminai as trevas de minha alma, dai-me uma fé íntegra, uma esperança firme e uma caridade perfeita. Concedei, meu Deus, que eu vos conheça muito para poder agir de acordo com a vossa santíssima vontade”. Os jovens de coração reto trazem em seu interior esta pergunta: Senhor, o que queres de mim?

Pessoas de coração reto e espírito generoso são candidatas a viver uma vida de maior dedicação ao Evangelho que, na prática, se chama Jesus vivo e presente em nosso meio. Francisco era um jovem, como tantos outros jovens. Não era alguém vulgar. “Nada seria mais falso do que imaginar o jovem Bernardone como um libertino vulgar. Não o imaginamos nem corrompido nem corruptor, e se teve fraquezas não na forma de vilanias. O provável é que tenha colhido os frutos que se punham ao seu alcance, sem jactância e escândalo para os outros, sem envilecer a ninguém nem envilecer-se a si próprio. Os que o conheceram mais de perto atestam que ele sempre se referia às mulheres com respeito e que em sua presença houvesse alguma conversa licenciosa, fazia-se de surdo e não respondia” (Omer Englebert, Vida de São Francisco de Assis, p.43).

Um rapaz reto, de bons princípios, consciente de suas qualidades, cortês… aspirando as estrelas. Ainda Omer Englebert: “É claro que Francisco não limitava suas ambições a medir panos na casa paterna e a festejar em companhia de amigos galanteadores, que se alimentavam às suas custas” (Idem, ibidem).

Na medida em que vai caminhando e deixando as perguntas amadurecerem e sentindo a proximidade do Mistério se faz uma iluminação. “Tudo o que se pode dizer é que Francisco agora é um homem que encontrou o amor e que se sente iluminado pelo alto. E como tal agirá doravante, consentindo em passar de visionário aos olhos dos cegos que andam nas trevas e cumprindo atos tidos como loucos por parte dos que nunca amaram. Pode-se acrescentar que nele sobreviverão, no que têm de melhor, seus entusiasmos e ambições juvenis. Como um artista que não muda de estilo ao mudar de inspiração, ele não perderá a originalidade nem tampouco sua nobreza. Ele tinha sonhado ser cavaleiro e cavaleiro permanecerá até a morte” (Englebert, op cit., p. 51).

Aos poucos, ele vai deixando o Altíssimo e o Cristo invadirem sua vida. Será alguém revestido de grande e bela simplicidade. Compreenderá que será preciso amar o irmão com amor de mãe. Na convivência recusará sobrepor-se a quem quer que seja. Haverá de trabalhar, e muito, mas nunca perderá o espírito da santa oração. Será um andarilho, estará sempre a caminho, nunca instalado, nunca acabado, mas com imensa saudade do eremitério. Ao longo de toda sua vida estará sempre “limpando as gavetas”, ou seja desapropriando-se de tudo, tornando-se uma pessoa profundamente livre. Haverá de extasiar-se diante de uma flor que abre, da água fresca e mesmo no momento que a seu encontro vem a irmã morte. Sem pretensões soberbas, com seu jeito de viver reformou a Igreja. Nele o sonho de Deus se tornou realidade. Georges Duby, na sua obra Le temps des cathédrales afirma “De parceria com Cristo, Francisco foi o grande herói da história cristã. Pode-se afirmar, sem exagero, que o que hoje resta do cristianismo vivo provém diretamente dele”.

 

Omer Englebert diz que Francisco encontrou o amor. Por isso, encanta a todos. Os jovens que sentem necessidade de buscar as estrelas, que não se contentam com uma vida medíocre, que não querem ser católicos sem mais, sentem necessidade de amar. Querem gastar o tempo de suas vidas com os outros, saindo à sua procura, fazendo experiência de uma profunda doação de suas vidas.

Francisco encontrou o amor feito carne, feito presépio, feito cruz, feito pão, feito irmão. Chorando dirá que o amor precisa ser amado. Ao longo de seu viver estabelecerá uma comunhão de vida com o Senhor marcada por um intenso querer bem. Por meio dele quererá que o Cristo pobre e crucificado seja amado.

 

Via: Franciscanos. Autor: Frei Almir Guimarães (OFM).

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