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01 Novembro 2018

A beleza da Liturgia: a liturgia é a beleza?

Escrito por  OFMConv-Notícias

A Igreja evangeliza e se evangeliza com a beleza da liturgia (II)

 

Tendo procurado responder a pergunta, no artigo anterior, “que coisa é a beleza?”, podemos agora passar a ver em que consiste a beleza da liturgia. Sendo que a Liturgia é opus Dei, ação de Deus, nessa, a beleza-bondade é certamente presente, uma beleza-bondade que se manifesta com os olhos da fé. A liturgia é aquilo que Deus faz ao homem e não o que o homem faz para Deus (cf. Bento XVI). Então, a liturgia é beleza porque o agente primeiro é Deus.

Com isso, a liturgia é muito mais um evento a acolher do que uma coisa a fazer ou uma obrigação a cumprir. Compreender a liturgia como mistério, significa, antes de tudo, que não somos nós que fazemos a liturgia, mas é ela que faz de nós crentes. Ela nos dá muito mais do que pedimos, nela encontramos mais do que procuramos. Nisto se dá a perfeita circularidade e a plena sinergia (G. Boselli).

O Cristo Jesus é o revelador da beleza do Pai (cf. Jo 1,18), pelas suas palavras e gestos, e na liturgia, a ação da Igreja, pode ser somente sacramento da ação de Deus, de Cristo e do serviço de Deus. Quanto mais a liturgia for capaz de manifestar a ação do Senhor, de dar espaço ao Senhor, à sua presença viva e eficaz, mais ela será entendida como sinal-primeiro de evangelização, de encontro com o próprio Senhor.

Se existe uma estética litúrgica, conceito sempre menos compreendido dentro da liturgia, esta se funda na cristologia da arte celebrativa que, atualizando a ação do Senhor, se reveste da beleza pertencente, de modo ontológico, ao agir de Deus. Os ritos e as orações são ações celebrativas que revelam a ação de Cristo. O sentido estético, o belo na liturgia, não depende em primeiro lugar da arte, mas da compreensão do Mistério Pascal. A arte, para colaborar com a liturgia, tem necessidade de ser “tocada” e transfigurada pelo Mistério Pascal. A verdadeira arte e beleza é o gesto sublime do amor salvífico de Cristo.

Na liturgia não se faz arte pela arte e a arte não é um espetáculo, mas é arte quando faz aparecer, quando revela, através da nobre simplicidade, a beleza do conteúdo, a luz e o amor do evento que se celebra através da memória.

Uma liturgia bela não pode ser definida como beleza funcional, mas precisa ser compreendida como liturgia gravida desta beleza que faz aparecer a graça de Deus (cf. Tt 2,11). Uma liturgia marcada pela beleza não está interessada por decorações supérfluas, ornamentações desarmônicas e desnecessárias, rendas e penduricalhos, excesso de símbolos. Uma liturgia marcada pela beleza não se nutre do fausto e da suntuosidade. Uma liturgia marcada pela beleza se predispõe daquilo que o Senhor tem necessidade para manifestar-se como ressuscitado e presente na assembleia que celebra, no presbítero que preside, nas diversas ações e no espaço nobre e simples (cf. SC, ns.34 e 124).

Com isso, a beleza da liturgia não é uma questão estética de forma, mas uma questão teológica de conteúdo: a beleza da liturgia é a beleza da pessoa de Cristo e do seu dom pascal oferecido na comunidade celebrante. O convite a evangelizar com a beleza da liturgia não representa o caminho estético da sociedade, mas um apelo a reconhecer qual a vocação que a liturgia quer exprimir e realizar, mesmo com os limites humanos.

Assim, para que a beleza da liturgia não seja mundana e realize o seu fim, é necessário um vivo sentido da fé, que fuja da vanglória e da exibição de si mesmo; que não se interesse por algum efeito psicológico ou social, é pura gratuidade; que não se distancie do povo santo de Deus, é livre caridade.

Para concluir, na própria estrutura celebrativa secular, podemos visualizar todos estes detalhes: a liturgia converte, orientando, isto é, exposta à atenção de nós a Deus, das nossas misérias à sua misericórdia (ritos iniciais), das nossas razões à sua Palavra (liturgia da palavra), das nossas lamentações à invocação (oração universal e liturgia das horas), da crônica dos nossos insucessos à memória da ação de Deus (liturgia do sacramento).  

Continua...

 

Autor: Frei Luis Felipe C. Marques, OFMConv.

Série "A Beleza da Liturgia": Para refletir sobre a beleza da liturgia, nesta série de artigos, o Frei Luis Felipe (OFMConv) buscou compreender como esta evangeliza o homem e a mulher moderna a partir de 4 perguntas: que coisa é a beleza? A liturgia é beleza? Qual a beleza na liturgia? Como a beleza da liturgia evangeliza a Igreja?

Esta foi a segunda reflexão. Clique aqui e leia os outros artigos da série.

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