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17 Junho 2019

O que dizem os números?

Escrito por  Frei Emanuel Afonso OFMConv

“Olhar com gratidão o passado, viver com paixão o presente e abraçar com esperança o futuro” (Papa Francisco)

 

O que dizem os números? Por mais ambígua que possa parecer esta expressão, precisamos tomá-la a serio para fazer uma leitura não tanto numérico-sociológica, mas talvez uma provocação em linha de um “estranhamento” profético em sentido histórico-salvífico, enquanto uma Ordem religiosa que traz consigo a memoria das origens não como saudade integrista, mas como linfa abundante que deve perpassar sua historia até o fim dos tempos.

 

Esta introdução serve de certo modo para guiar qualquer reflexão que possa surgir daqui para frente. A pergunta sobre os números nos leva a uma tomada de posição, ao nosso ver, diante de duas possibilidades: parar diante do dado numérico puro e simples ou ir além deles, tentando colher aquilo que eles podem nos dizer.

 

Em relação a Ordem dos Frades Menores Conventuais, o que dizem os números? Se ficarmos apenas com os dados, segundo as informações oficiais da Ordem, somos mais de três mil frades espalhados em quase todo o mundo (de noviços a bispos pertencentes a Ordem, somam-se 3.995 frades). Sim, simplesmente são estes os números. E como dizem que eles não mentem, parece que até aí tudo bem, mas será?

 

Então talvez fosse melhor dar um passo além deles e para isso seria oportuno tomar como referência a segunda frase do titulo, que é do Papa Francisco; uma frase sempre presente em seus discursos, mas de modo documental aparece na Carta Apostólica com a qual ele proclama o Ano da Vida Consagrada em 21 de novembro de 2014.

 

Enquanto Ordem e Província, como podemos olhar com gratidão o passado? Nos alegra e rejubila o coração em citar “apenas” os nomes dos nossos fundadores, São Francisco e Santa Clara, bem como a constelação luminosíssima daqueles e daquelas da primeira hora, mas por outro lado vem em nossa ajuda o próprio São Francisco quando chamava a atenção dos frades para não se limitarem ao reconhecimento das virtudes dos santos, mas procurar imitá-las e ao mesmo tempo cada um fazer seu próprio caminho de santidade; tanto é assim como nos recorda frei Tomás de Celano,  Francisco mesmo recomenda aos frades começar de novo, por que mesmo se alguém, inclusive ele, tivesse considerado ter feito tudo até aquele momento pouco ou nada teria feito (cf. 1Cel 103).

 

Portanto, estamos falando de um homem que viu a sua Ordem chegar a um exercito de mais 40 mil frades na Europa medieval, e até onde eles podiam chegar com a pregação evangélica da penitência. Mas ao invés de se envaidecer com o sucesso numérico, Francisco prefere considerar que diante da iniciativa de Deus, na nossa liberdade tudo deve ser feito com alegria e gratidão, mas ao mesmo tempo tudo será sempre insuficiente, porque o importante é Aquele que faz crescer e não quem planta ou colhe (cf. 1Cor 3,7).

 

Assim, entre luzes e sombras, fracassos e vitorias a Ordem cresceu, mas também diminuiu como nos conta a história. Motivos nem sempre muito interessantes de serem recordados, porém inegáveis como fatos. Por isso, diante das virtudes e contradições de um grupo humano, chamado a viver uma vocação de radical conformação à santidade de Cristo, que continuou acreditando ser possível viver conectado à fonte, como olhar tudo isso de modo agradecido hoje?

 

Penso que para isso o próprio Papa Francisco nos ajuda com a segunda proposta, de viver com paixão o presente, sem integrismos e saudosismos de quando éramos um grande e influente grupo, mas talvez colher no passado de modo agradecido a seiva que tocou e alimentou os irmãos da primeira hora e mais uma vez agradecidos, começar a fazer a nossa parte como nos pede São Francisco; e assim impulsionados por este toque fontal sermos homens de religião significativos nos nossos dias, porque como diz o papa:

 

Viver com paixão o presente significa tornar-se “peritos em comunhão”, ou seja, “testemunhas e artífices daquele ‘projeto de comunhão’ que está no vértice da história do homem segundo Deus”. Numa sociedade marcada pelo conflito, a convivência difícil entre culturas diversas, a prepotência sobre os mais fracos, as desigualdades, somos chamados a oferecer um modelo concreto de comunidade que, mediante o reconhecimento da dignidade de cada pessoa e a partilha do dom que cada um é portador, permita viver relações fraternas[1].

 

Neste sentido, a memória agradecida, o presente apaixonado deve nos conduzir a uma relação de esperança com o futuro. Mas em que sentido? O papa novamente aponta caminhos, sempre na perspectiva de não cairmos na facilidade das respostas prontas, saídas preconcebidas ou ao apelo do “sempre foi assim”, mas a intuição parece apontar para a “escuta atenta daquilo que o Espírito diz hoje à Igreja, a implementar de maneira cada vez mais profunda os aspectos constitutivos da nossa vida consagrada”[2].

 

O papa aponta para um caminho que não seja aquele das estratégias e dos planos infalíveis para atrair (proselitismo), etc; mas ir além disso. O convite é para não cair na “tentação dos números e da eficiência, e menos ainda à tentação de confiar nas vossas próprias forças. Com atenta vigilância, perscrutai os horizontes da vossa vida e do momento atual”[3].

 

Todo este discurso para dizer que não se trata de um louvor aos números ou à depreciação dos mesmos, como se isso fosse sinal de sucesso ou fracasso da vida religiosa. Mas se o numero não é sinal de sucesso ou insucesso da vida religiosa, o que poderia ser então? Novamente o papa nos aponta pistas, e nos parece que ele não está depreciando e muito menos apostando as “fichas” da vida religiosa em ter um grande número (sucesso) ou pequeno número (fracasso), ainda que nossa lógica acompanhe desta maneira.

 

Mas a intuição do papa vai em outra direção, e penso que para isto devemos retornar a expressão de São Francisco já no final de sua vida com a hermenêutica do testemunho. “Comecemos irmãos”, convida Francisco; comecemos quando a tentação de viver longe da inspiração fontal for maior que a fadiga de viver conectado à fonte juntamente com os irmãos que Deus concedeu, os irmãos reais e não os ideais e até virtuais.

 

A necessidade de recomeçar sempre, mesmo quando o progresso humano, psicológico e espiritual parecer ter sido concluído, ali se deve considerar que “pouco ou nada fizemos”; na entranhada consciência de que na vida de fé estamos a caminho, nada está fechado, concluído de uma vez por todas, tudo é um começar de novo, cada vez de novo, sempre de novo.

 

E assim, ao nosso compreender, precisamos passar das estratégias das promoções vocacionais, sempre mais arrojadas, com toques “cinematográficos”, com riquezas de imagens e da propaganda acirrada nos meios de comunicação e nas redes sociais, para uma “promoção vocacional” que seja feita sem propósito de atrair (proselitismo), mas com a consciência que devemos viver tocados pela inspiração fontal encarnada nos nossos dias, através do TESTEMUNHO vivo de que somos homens felizes, que nada nos falta, que na vida religiosa franciscana temos tudo, temos “o Espirito do Senhor e seu santo modo de operar” (cf. RB 10,8), afim de “observar o santo Evangelho de nosso Senhor Jesus Cristo, vivendo em obediência, sem próprio e em castidade” (cf. RB 1,1), e aqui está o “sucesso” da vida religiosa franciscana.   

 

Tomás de Celano recorda exatamente o aspecto testemunhal quando o primeiro companheiro de Francisco, o frei Bernardo (cf. 1Cel 27,1-4; 28,1-7) veio até ele para sondar seu estilo de vida, e não o fez certamente motivado por uma propaganda, o que nos nossos são úteis; não quero aqui desmerecer o trabalho feito pela promoção vocacional em qualquer lugar da Ordem através dos meios mais avançados e próximos da juventude, mas considerar que o frei Bernardo veio até Francisco movido pelo testemunho daquele irmão penitente, pois o aspecto exterior de Francisco não era interessante, mas por trás da aparência tinha algo extraordinário que ele queria descobrir.

 

Por isso no afã dos números corre-se sempre o risco de não apresentar a inspiração fontal que nos tocou a todos desde o Fundador ao ultimo frade que virá como o que realmente interessa, mas de concluir e confundir tal inspiração com os resultados obtidos por meio de um ótimo desempenho da promoção vocacional através de métodos e estratégias, e isso seria confiar em demasia na própria eficiência e encerrar a ação do Espirito aos planos e projetos, e muitas vezes nos fixamos neste âmbito numérico.

 

Para tanto, devemos sim continuar nossa promoção vocacional, inclusive utilizando-se dos meios mais eficazes, e ao mesmo tempo sem a preocupação de sermos ou não uma grande Ordem numericamente, pois a grandeza numérica é consequência do anterior – a inspiração fontal.

 

Devemos continuar sim, com a certeza de que fomos tocados pelo Espirito do Senhor, que este toque fontal nos leva a testemunhar como meros instrumentos um estilo de vida evangélico do jeito de São Francisco, e a exemplo dele, “lendo os sinais dos tempos”, como também nos recorda o papa Francisco, sermos frades significativos para o mundo de hoje onde o Evangelho e a Igreja necessitarem de nós como irmãos menores.

 

[1]FRANCISCO, Carta Apostólica às pessoas consagradas, nº 2, in: http://w2.vatican.va/content/francesco/pt/apost_letters/documents/papafrancesco_lettera-ap_20141121_lettera-consacrati.html - acesso em 14/06/19.

[2] Ibidem, nº 2.

[3] Ibidem, nº 3.

Frei Emanuel Afonso da Silva (OFMConv.)

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