V Simpósio Franciscano
Frei Marcelo Borges, OFMConv.
O Cântico das Criaturas (ou Cântico do Irmão Sol) é uma das mais célebres preciosidades textuais do carisma franciscano. Em oitocentos anos, suas inspirações permanecem a motivar diálogos teológicos, filosóficos, poéticos, literários, linguísticos, éticos e muitos outros. O tema proposto visa avistar este hino sob a perspectiva da espiritualidade. Neste ínterim, consideramos oportuno retirar as sandálias, pois estamos diante de um solo sagrado.
Introdução
Ao propor espiritualidade em nossos dias, podemos nos deparar com duas reações cada vez mais comuns e distintas, embora com semelhante perigo: por um lado, podemos ter que lidar com uma rejeição à proposta de espiritualidade por ela ser considerada etérea demais, fora do mundo demais, “avoada e sem os pés no chão”. O frenético ambiente comercial, visual, tecnológico, profissional e relacional no qual pautamos muitas de nossas relações considera tudo aquilo que não oferece produtividade, resultados imediatos, lucro ou compensação, como algo de menos valor. Assim, se em demasia valorizamos o que é passageiro e raso, aquilo que tende às profundidades do ser humano, com mais ou menos intensidade, tem sido repelido. A sociedade do descartável não tem afinidade pelo que tende a ser duradouro.
Por outro lado, também crítica e enquanto uma consequência direta desta comercialização das relações, outra reação frente a uma proposta de espiritualidade é trazê-la para o campo das inúmeras ofertas de satisfação pessoal que facilmente encontramos por aí. A hiperpopularização de propostas que prometem sucesso, realização pessoal, enriquecimento e controle de emoções, e que tomam como merchan discursos de espiritualidade, revela-nos que, no fundo de tudo, as águas rasas nas quais conduzimos as nossas embarcações não tem nos levado tão adiante quanto pensamos. Esta busca desenfreada por propostas espiritualistas revela que a sede do homem não se satisfaz com qualquer modalidade de “recompensa”. Queremos mais, insatisfeitos com o que não nos preenche em totalidade.
Seja em qual for destas temeridades nas quais nos arriscamos ao tratar de espiritualidade, ou ainda em muitas outras, elas expressam que a sede natural do homem por profundidade permanece a incomodá-lo enquanto ele não a avista. Ou lutamos a ferro e fogo por esta busca, ou nos acostumamos a levar uma vida medianamente suportável. Na primeira opção, é preciso coragem. Nadar contra a corrente é exercício que custa, graça cara. Por vezes, custa a vida. Aliás, por isso mesmo, a espiritualidade forja santos.
Dentro da perspectiva da espiritualidade cristã e franciscana, tema desta nossa reflexão, este incômodo que portamos no mais profundo de nosso ser tem um nome: a sede de Deus pela humanidade[1]. Mais intensa, mais segura e mais real do que qualquer busca humana, a espiritualidade cristã e franciscana se sustenta nesta constatação: antes de qualquer iniciativa nossa, Deus se antecipa em nos querer com Ele. Acima de qualquer outra verdade obtida da Revelação, é a proximidade da relação entre Deus e homem que Francisco experencia em sua vida, desde os primeiros momentos do que chamamos de sua conversão, e que tece os caminhos da espiritualidade que vemos expressa no Cântico das Criaturas.
Esta verdade, a qual podemos nos referir por Encarnação[2], por si só, traz consigo as seguranças para os riscos que mencionamos anteriormente: primeiro, porque esta espiritualidade está alicerçada no que há de mais concreto para a nossa fé: na plenitude dos tempos Deus veio habitar em nosso meio. “A mais louca pretensão cristã não está do lado das afirmações metafísicas: ela é simplesmente a fé na ressurreição do corpo” (Mendonça, 2016, p. 28). Esta habitação permanece acontecendo hoje, neste solo, neste ar, na concretude e na realidade de nossos dias. É espiritualidade para este mundo e para esta vida, ainda que com olhar adiante. Segundo, porque busca recuperar, trabalhar e vivenciar aquilo que de mais profundo Deus deixou em nós: a sua própria presença. Neste horizonte, não há espaço para ser raso.
O que é este “sopro vital”? É nada menos que o hálito de Deus, o seu Espírito que agora passa a estar ativo em cada vivente, percebido como fonte mesma da existência e codificado nos sentidos e manifestações vitais da pessoa humana. Com a criação (isto é, desde o princípio dos princípios) ficou estabelecida uma fascinante e inquebrável aliança: aquela que une espiritualidade divina e vitalidade terrestre. Pois onde experimentaremos melhor, a partir de agora, o Espírito de Deus senão no extremo da carne tornada vida? Onde contataremos com o seu sopro senão a partir do barro? Onde nos abriremos à sua tangível passagem senão através dos sentidos? (MENDONÇA, 2016, p. 11)
Deste modo, a espiritualidade presente no Cântico das Criaturas reforça com beleza e com teologia aquilo que a fé cristã tem de tão precioso para os nossos dias: se abrirmos os olhos, podemos ver Deus entre nós. Esta Boa-Notícia[3] enraíza os nossos pés no chão e ergue os nossos braços aos céus. Assim, da mesma maneira que nos oferece um horizonte para além do que o nosso olhar possa alcançar, para o que há de mais pleno e profundo na vida humana, também produz frutos abundantes nas realidades mais simples e cotidianas nas quais vivemos. A espiritualidade franciscana impulsiona ao amanhã e transforma o hoje, e é esta transcendência e esta proposta de transformação que queremos abordar ao falar desta preciosidade espiritual que é o Cântico das Criaturas.
A Espiritualidade do Cântico das Criaturas
Durante a abertura do oitavo centenário da celebração de composição deste Cântico[4], o Frei Carlos Trovarelli, 120º Ministro Geral da Ordem Franciscana Conventual, concedeu uma entrevista e, questionado sobre qual mensagem poderia dar aos frades e amantes da espiritualidade franciscana por esta ocasião, disse: “Que não esqueçamos que somos contemplativos”. Esta exortação nos animou a tecer a reflexão que se iniciou na introdução de nosso tema.
Inspirado por esta palavra, considero que uma das principais expressões que o Cântico de Francisco reverbera para a herança franciscana é a de que este carisma tem raiz contemplativa. Por vezes, imersos nas correrias e nas demandas pastorais, eclesiais, vocacionais, humanas e tantas outras que abraçamos, esquecemos desta raiz: “(...) numa época em que estamos superconectados, tornase cada vez mais difícil fazer a experiência do silêncio e da solidão” (Papa Leão XIV). Diante das belas designações e dos fortes testemunhos que temos na Igreja sobre o que é a contemplação, para nosso estudo, ouso simplificar a sua significatividade com o exemplo do autor do Cântico.
De fato, é fundamental na compreensão da mensagem deste hino, considerá-lo fruto de uma intensa, demorada e cativante experiência de Francisco com o Senhor Jesus Cristo, pela qual ele chega neste momento de sua vida, em 1225. Não é, portanto, uma composição isolada de uma história, de um encontro, de uma vida e de uma espiritualidade amadurecidas e forjadas pelo relacionamento muito próximo entre ele, o poverello, e Deus. O Cântico canta, assim, um itinerário espiritual.
As fontes franciscanas relatam-nos sobre o contexto de sua composição[5]. Francisco está em São Damião, imerso em sofrimentos físicos e interiores. Dentre estes, os seus olhos estão intensamente feridos pela doença, ao ponto de a luz do sol ou do fogo lhe causar grande incômodo. Está praticamente cego. Como em tantas outras vezes, o célebre paradoxo do Evangelho o acompanha neste momento de sua história: quando os olhos do corpo de Francisco se apagaram, foi então que se abriram os olhos de sua alma, através dos quais um novo horizonte se abriu e o encantou. Tal qual São Paulo, as escamas em seus olhos foram curadas, e quando não mais corporalmente ele podia ver o que lhe envolvia, foi então que ele pode realmente tudo ver.
Uma informação que temos pelas fontes é a de que Francisco faz uma súplica a Deus, neste momento da composição, por uma consolação, em um momento de grande sofrimento físico e interior. A resposta de Deus ao lhe conceder este novo olhar, é, pois, uma graça, um dom e uma dádiva. Francisco bateu à porta; Deus a abriu. Porém, uma graça conquistada à duras penas. Como dito, espiritualidade é coisa de gente corajosa. Ao longo de toda a sua vida desde o seu encontro com a Paixão do Senhor, Francisco exercitou este novo olhar no discipulado[6]. Ele seguiu alguém, e este Alguém, agora, concede-lhe a graça da identificação.
Assim como as mãos, os pés e o lado de Francisco estavam profundamente identificados a Cristo pelas chagas recebidas no Monte Alverne, em 1224, sinais profundos do grau de discipulado e de identificação que ele havia chegado ao seu Amado, agora são os seus olhos que se identificam como os mesmos de seu Senhor. Diríamos, então, que a espiritualidade do Cântico das Criaturas expressa que Francisco passou a enxergar todas as coisas como Cristo enxerga; com o olhar de Deus. Jesus, nos evangelhos, olha o leproso e, enquanto todos veem doença, Ele vê saúde; olha a adúltera e, enquanto todos veem apedrejamento, Ele vê vida nova; olha o perfume derramado e, enquanto todos veem desperdício, Ele vê doação; olha duas moedas e, enquanto todos veem pobreza, Ele vê entrega total. Jesus transcende o olhar, e quer que seus discípulos também passem a avistar assim, com olhar grande, com olhar de Deus. Somente com este olhar podemos, por exemplo, transcender ao que os sentidos dizem ser pão e vinho, para avistar Corpo e Sangue do Senhor.
O leproso havia já se tornado doçura para Francisco, desde que ele se propôs a vencer as suas próprias amarguras. O lobo feroz já havia sido amansado, para a surpresa de todos os que viam nele violência. O sultão já o havia abraçado em acolhida, enquanto todos esperavam o golpe das espadas. Já havia a mudança da sensibilidade dos olhos para enxergar além. Agora, no Cântico, é possível notar uma plenificação desta conversão: amarguras e doçuras, em Deus, encontram sentido. Este é, a meu ver, um primeiro ensinamento da espiritualidade do Cântico, assim como nos sugere o exemplo de Francisco de Assis e a exortação do Francisco de nossos dias: não esquecer que o nosso carisma nos conduz a ter o olhar profundo, para a realidade, para as doçuras e as amarguras, e nesta profundidade, ser capaz de encontrar Deus e sua sábia providência. Isso é contemplação.
É com estes olhos que Francisco, ao olhar para a água, vê humildade, transparência e castidade. Ao olhar para o fogo (o mesmo que lhe cauteriza os olhos), vê beleza, fortaleza e robusteza. Personificadas com este olhar, as criaturas pedagogicamente nos ensinam a louvar o Criador. Em outras palavras, ele vê que toda a criação está sustentada pelo mesmo fio da existência, que é aquele com o qual Deus mesmo preenche sua obra, desde que quando criou e viu que tudo era muito bom (cf. Gn 1, 31). A bondade do Criador interliga sua obra criativa.
Se o mundo todo está prenhe desta revelação, e por mais que ainda esteja ansiosamente aguardando a revelação dos filhos de Deus, como que em dores de parto (cf. Rm 8, 19), a identificação dos olhares – olhar com o espírito – nos permite enxergar este mesmo fio, e louvar e agradecer por esta presença[7]. Mais ainda o ser humano; em nossa criação, recebemos o sopro do próprio Criador. Desde então, recuperar aquilo que este sopro pode nos fazer é a tarefa da espiritualidade. E para isso, temos um modelo máximo: Jesus Cristo de Nazaré, e a partir dele, em todos aqueles que com Ele se identificaram em discipulado. Esta é a graça que Francisco recebe, após muito trabalho de seguimento[8].
Outro aspecto importante relacionado à espiritualidade do Cântico, e também profundamente cristológico, faz referência à relação Criação-EncarnaçãoRedenção. Para Francisco e seu carisma, a redenção que Cristo realiza na Cruz tem eco cosmológico e tudo alcança: o sacrifício pascal de Cristo restaura e renova todas as coisas, e inaugura uma nova criação. Ele é, pois, o novo Adão (cf. 1Cor 15, 45-49). O Domingo da Ressurreição ilumina com nova luz todas as coisas: “(...) pois nele aprouve Deus fazer habitar toda a Plenitude e reconciliar por ele e para ele todos os seres, os da terra e os dos céus, realizando a paz pelo sangue da sua cruz.” (Colossenses 1, 20)[9]. É esta verdade evangélica que canta o Cântico; um autêntico hino de reconciliação.
Este novo olhar, muito distante de nos fazer fugir do mundo, ou pior, de nos fazer considerar-nos melhores e superiores a ele, faz-nos ainda mais profundamente mergulhar em nossas realidades mais corriqueiras e simples. Se Deus escolheu os caminhos da minoridade e da pobreza para se revelar a nós e para vir nos encontrar, é neste mesmo caminho que nós O encontraremos – sendo menores e pobres. Neste encontro reside a semente de transformação pessoal e, por consequência, da realidade10. É verdade para Francisco que Deus continua vindo ao nosso encontro todos os dias, de maneiras tão surpreendentes que, caso não estejamos com o olhar apurado, deixaremos que Ele passe despercebido[10].
Irmão Leão, escreve: não há milagres. O que há é reconciliação. Amei os lobos e os lobos foram carinhosos comigo. Amei as árvores e as árvores me deram sombra. Amei as estrelas e elas me deram resplendor. Fui cortês com o fogo e o fogo correspondeu a minha cortesia. Não há milagres. Ou melhor, tudo é milagre. Continua escrevendo, Irmão Leão: o paraíso está no coração; o inferno também está no coração. Quando o coração está vazio de Deus, o ser humano atravessa a criação como mudo, surdo, cego e morto; até a Palavra de Deus fica vazia de Deus. Quando o coração do ser humano se enche de Deus, o mundo inteiro fica povoado de Deus. Levantas uma pedra e aparece Deus. Olhas para as estrelas e te encontras com Deus. O Senhor sorri nas flores, murmura na brisa, pergunta no vento, responde na tempestade, canta nos rios... todas as criaturas falam de Deus, quando o coração está cheio de Deus. (LARRAÑAGA, 2012, p. 461).
Para isso, assumir o olhar de Deus como nosso olhar configura de um modo renovado e evangélico todas as nossas relações, com Deus, com o próximo e com o mundo inteiro. Reconhecer a paternidade universal de toda a criação tem por consequência reconhecer e abraçar a fraternidade universal que interliga todas as coisas. O conteúdo espiritual do Cântico, ao abrir o nosso olhar, abre-nos a esta outra dimensão: tudo é irmão, até a morte corporal. As escamas nos olhos são barreiras, são muros: ser curado delas constrói pontes. Se, pois, a espiritualidade deste hino nos convoca a ter a sensibilidade de reconhecer o Senhor próximo, e a nos identificarmos com o seu olhar, ele também nos revela o modo franciscano de se relacionar com quem nos cerca: “os irmãos de todos, os inimigos de ninguém, os companheiros dos últimos” (CANTALAMESSA, 2023, p. 132).
O sol é irmão. Água, terra e céu são irmãos. Quem ofende é irmão. Francisco canta uma percepção: em seu proprium, tudo porta a marca da bondade do Sumo Bem. Por isso, louva-O. As criaturas, em sua identidade e dignidade, louvam o Divino Autor, e a primeira das atitudes do discípulo é a de louvor. Eis, pois, o nosso tema: o Cântico como uma “exultação no Espírito”. Desde o Antigo Testamento a revelação nos ensina: diante da presença de Deus, inclusive daquela que não esperamos e nos surpreende (mistério), a postura é a de louvar. Assim, o Cântico nos traz conteúdos teológicos, filosóficos, poéticos, linguísticos, exortações éticas, mas ele é, sobretudo, uma oração daquele que fez de si mesmo a própria oração (cf. 2Cel 95). Neste sentido, além de nos ensinar verdades teológicas e doutrinais, ou de nos conduzir a uma ou outra atitude ética[11], o Cântico quer primeiro nos conduzir ao louvor, à exultação, ao canto e à oração. É a tentativa de Francisco de nos inserir no hino de louvor da criação inteira.
Portanto, ao falar de espiritualidade no Cântico das Criaturas, podemos falar de duas outras expressões: interioridade, conquistada pela luz interior que purifica o nosso olhar para enxergar com os olhos de Deus; e alteridade, para que nos orientemos seja a quem for com este novo olhar. Não por acaso, o Crucificado que tomou o coração de Francisco até as fibras de seu coração, pelo qual ele chorou e viveu, é o Crucificado de São Damião: aquele que está de olhos abertos. Que não esqueçamos, irmãos, que somos contemplativos.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BÍBLIA. Português. Bíblia de Jerusalém. Tradução de Euclides Martins, Samuel Martins, Estêvão Bettencourt, Gilberto Gorgulho, Theodoro Maurer, Jorge Mota, Benjamim Carreira, Ney Brasil, Isaac Nicolau, Luiz Inácio, Ivo Storniolo, Calisto Vendrame, José Vidigal, Domingos Zamagna e Joaquim Zamith. São Paulo: Paulus, 2002.
CANTALAMESSA, Raniero. Francisco de Assis – O gênio religioso e o santo. Trad. Silvana Cobucci. São Paulo: Edições Loyola, 2023.
Dicionário Franciscano. Trad. FFB. 2ª Ed. Petrópolis: Vozes; Cefepal, 1999.
Fontes Franciscanas. Santo André: O Mensageiro de Santo Antônio, 2005.
LARRAÑAGA, Inácio. O Irmão de Assis. São Paulo: Paulinas, 2012.
LEITE, Frei Leonardo. Uma imersão no Cântico das Criaturas – Origem e atualidade do louvor de São Francisco de Assis. Teresina: Editora e Livraria Nova Aliança, 2025.
MENDONÇA, José Tolentino. A mística do instante: o tempo e a promessa. São Paulo: Paulinas, 2016.
PASQUALE, Gianluigi. Francisco – O arauto de Deus. São Paulo: Paulinas, 2016.
Textos e Anotações pessoais de diversos momentos da minha formação, de diversos autores e mestres de vida e de espiritualidade.
[1]Em pelo menos dois episódios, Jesus manifesta o que é esta sede de Deus: “Dá-me de beber!” (Jo 4, 7) e “Tenho sede!” (Jo 19, 28), na Cruz, possuem reverberações teológicas profundas a respeito do anseio de Deus por cada um de nós, anseio que se expressa desde a criação. A simbologia bíblica é rica em acenar para este fato. Em Gênesis, imediatamente após o relato do pecado da desobediência de Adão e Eva, o autor afirma que eles “(...) se esconderam da presença de Iahweh Deus, entre as árvores do jardim” (Gn 3, 8), logo ao ouvirem o seu passo. Em contrapartida, Iahweh, mesmo ciente da desobediência, chama o homem (cf. Gn 3, 9). A pergunta que faz – Onde estás? – reverberará por toda a história, à medida que toda a revelação não é outra coisa senão a autoexpressão do amor de Deus que procura (continua a procurar) o ser humano (ainda que na ocorrência do pecado), procura esta que, por Amor, levou Deus a dar a sua vida por nós. Sede de Amor.
[2] Aqui, falamos não somente do dado teológico da Encarnação do Verbo, ocorrida em um tempo e em um lugar específicos, nas condições as quais os evangelhos nos relatam. Encarnação, neste sentido franciscano que queremos fazer alusão, é toda e qualquer presença e permanência de Deus em nosso meio, como Deus-Emanuel, que participa e caminha com a sua criação dos modos mais próximos e surpreendentes possíveis. Deus que continua a caminhar ao nosso lado em cada dia, em cada sofrimento, em cada instante, através da oração, da Eucaristia, dos pobres, de sua palavra, de sua presença interior em nós, de sua criação, etc.
[3] Ευαγγέλιο, em grego (euangélion).
[4] Em 11 de janeiro de 2025, em Assis.
[5] Por exemplo, na Compilação de Assis 83, p. 764.
[6] “O Francisco da perfeita alegria, o arauto de Deus, que fala com o lobo, que canta embevecido a beleza das criaturas. Estes são frutos desabrochados nos ramos, no ápice de sua ascensão, sem que ele nem sequer se desse conta disso. Primeiro, no subsolo, houve um drama: Francisco chorou a vida inteira. Ficou cego – todas as fontes o atestam – de tanto chorar. (...)Porque nós somos feitos assim: gostamos da liberdade de Francisco, mas não do caminho pelo qual ele chegou a essa liberdade.” (CANTALAMESSA, 2023, p. 48-49, grifo nosso).
[7] Em São Boaventura, esta presença chama-se vestigio Dei, através do qual, pelas criaturas, é possível constatar as pegadas daquele que as criou. Os termos filosóficos e teológicos de alteridade, identidade e diferença são essenciais para driblar todo risco de panteísmo.
[8] Em uma entrevista, perguntaram ao Papa Francisco o que mais Francisco tinha a dizer aos nossos dias. Eis sua resposta: “O que testemunha a nós hoje? Antes de tudo, que ser cristão é uma relação vital com a pessoa de Jesus, é revestir-se dele, é assemelhar-se a ele. (...) Esse é o começo de tudo, é a experiência da graça que transforma: descobrir ser amado sem merecer.” (Francisco in PASQUALE, 2016, p. 15-16). Concordamos com o Santo Padre. No centro de todo testemunho e ensinamento de Francisco e de nossa espiritualidade, estão: a relação vital com Jesus; revestir-se e assemelhar-se dele (discipulado de identificação). E para começar este seguimento, a graça inicial: o reconhecimento do quanto o Amor (nos) ama. Sem isso é muito difícil caminhar nas veredas do Evangelho. Descobrir-se amado é o que o torna fardo suave e jugo leve, em meio às suas exigências, sacrifícios, dores e dificuldades. E esta é a reconstrução que Francisco realiza na Igreja, como um pedido do próprio Deus.
[9] E Francisco: “E assim suplico a todos vós Irmãos, beijando-vos os pés e com aquela caridade que posso, que manifesteis toda a reverência e toda a honra o quanto puderdes, ao santíssimo corpo e sangue do Senhor Nosso Jesus Cristo, no qual, todas as coisas que existem nos Céus e na Terra foram pacificadas e reconciliadas com o Deus Onipotente” (Carta a toda a Ordem, p. 101). Aqui, uma outra relação importante: Criação-Encarnação-Redenção-Eucaristia. A escolha surpreendente e benevolente de Deus em se manter presente real e vivamente nas espécies consagradas do pão e do vinho, isto é, na mais comum das criaturas, é prova clara de que esta criação é genuinamente boa. 10 “Francisco é talvez, depois do próprio Jesus, a prova mais evidente de que é renovando o homem no íntimo que se renovam também a sociedade e as estruturas. Nenhum homem da Idade Média se propôs menos que Francisco a mudar a sociedade e nenhum homem da Idade Média de fato mudou a sociedade mais que Francisco.” (CANTALAMESSA, 2023, p. 61).
[10] Como em um leproso qualquer no meio do caminho, como em uma simples igreja em ruínas, como em uma esporádica leitura bíblica em uma celebração.
[11] Sabemos que o contexto epocal de Francisco não está preocupado com a crise ambiental, pelo menos não na dimensão e na gravidade da crise na qual nos encontramos contemporaneamente, o que reforça ainda mais a atualidade e a fecundidade deste hino de nosso Pai Seráfico. Sem a palpável constatação de que, se não mudarmos, nosso tempo aqui é breve, Francisco já entoou o lugar que a criação ocupa em nossa fé. Seria ainda mais urgente constatar este papel salvífico da criação diante da crise severa que nos ameaça. Neste discernimento, o Papa Francisco, uma das vozes do poverello de nossos dias, atualizou a mensagem em sua encíclica Laudato Si, neste ano também em jubileu.