Frei Almir Guimarães (OFMCap)

  • Clara de Assis: formação para a transparência
    Uma vida para Deus A vida consagrada expressa-se teologicamente  na  ordem do sinal:  manifesta, indica que o Reino de Deus está entre nós.  Isto tem um peso profético muito forte no ser e no fazer, na vida pessoal e fraterna, no estilo de vida concreto e cotidiano. Tudo deve “conduzir, lembrar, assinalar, indicar”. Porém para “conduzir” ao Reino é necessário uma transparência, “que seja um sinal claro” e estrutural, necessário uma contínua purificação de nossas convicções, de nossas imagens de consagrados, de pessoas que pertencem ao  Senhor  “como testemunhas  da luminosa presença do Senhor em meio a nós”  (Bento XVI).  Vida que é revelação: revela o amor do Pai pelos homens, manifesta uma vida  totalmente orientada para o Reino, uma vida serena e reconciliada consigo mesmo e com os outros. Somos chamados a liberar esta imagem que habita em nós para fazê-la brilhar em nós e ao nosso redor, remetendo-a a Ele, ao Deus da vida. Isto supõe uma visão unificada de nossa vida.   Fidelidade é também mudar Se de uma parte ocorre “habitar” serenamente a própria corporeidade, os próprios gestos, a própria palavra, as próprias ações, de outra é necessário tornar transparentes e significativas as estruturas nas quais a vida consagrada está inserida no cotidiano.  É importante não viver para as estruturas, mas torná-las sinais vivos, eloquentes e provocativos para encaminhar, nós e os outros, na direção do Evangelho.  Elas, essas estruturas, devem estar a serviço de valores, e não vice-versa. Quão fácil é transformar a vida religiosa numa moldura vazia, fazer das estruturas a razão de nossa vida esquecendo, inclusive, o mandamento do amor. Quão difícil é adaptar ou criar novas estruturas  mais eloquentes, mais significativas, mais transparentes, sobretudo nesse mundo que muda com tanta rapidez, num mundo habituado à imagem dos sinais! Ser fiel não significa repetir, mas responder a Deus que pede em cada estação, em cada etapa uma resposta nova! O verdadeiro consagrado é fiel a Deus e ao homem de seu tempo:  é um apaixonado por Deus e pelo homem.  A fidelidade ao carisma não significa imutabilidade rígida e estrutural, mas requer a capacidade de tornar vivas e eloquentes todas as estruturas e mediações tanto para nós como para os outros.  Portanto,  formar-se e viver a transparência  exige um empenho sério que possa convergir para uma única paixão a nossa experiência espiritual.   Via: Franciscanos. Autor: Frei Almir Guimarães.
  • Irmão e Irmã: o encontro de Francisco com uma mulher feita de amor
    Agosto nos traz sempre de novo a figura de uma mulher de Assis, Clara, companheira de Francisco e que será relembrada, segundo o calendário franciscano, no dia 11 deste mês. Eis algumas reflexões sobre ele e ela e aquilo que eles continuam a nos dizer. Com toda certeza, Francisco e Clara, da cidade de Assis não podem ser separados. Os dois nasceram para um mundo novo a partir de uma comum inspiração: ambos arrebatados por Cristo pequeno, amoroso, bondade. Christian Bobin, fecundo escritor francês, poeta em cada linha que escreve, foi vigorosamente aplaudido com o seu “Le Très Bas”, uma ode de amor a Francisco de Assis. Traduzimos uma página da peça estelar de Bobin em que escreve sobre os laços que uniam Francisco e Clara. Em sua imitação ingênua e quase obcecada das Escrituras, Francisco de Assis não podia evitar este encontro com uma mulher feita de amor, sua irmã, seu dublê. Nada dizer a respeito dela senão que os dois se completam como duas colunas que sustentam os arcos de uma abóboda, passando de um para o outro todos os matizes do amor, todas as cores do sonho. A respeito dela pouco se pode acrescentar além do que se diz com essa simples palavra Clara. Seu nome revela o que ela é e o que dela emana: Clara. Clareira, caminho claro, clarividente, relâmpago, limpidez. Todas estas palavras impregnam seu nome, todas essas luzes dela proveem; mocinha de dezesseis anos que os pais se preocupam em dar-lhe casamento, mocinha igual aquelas que encontramos em tantas canções francesas, pássaro rebelde que não quer aprender a música que lhe ensinam, pardal que prefere saltitar pelos caminhos batidos pela chuva, do que se colocar sob as folhas de uma única árvore, de “alta linhagem”. Que queres fazer mais tarde? Muitas vezes fazemos esta pergunta a crianças que não sabem o que quer dizer “mais tarde”, que conhecem apenas o presente e no presente a presença maravilhosa do todo. Com quem você quer se casar mais tarde? pergunta-se àquela cuja beleza inquieta e preocupa. Que o casamento venha, pois, ser um coroamento de uma tal beleza. Mas aquele que ela deseja desposar não está presente e nem estará. Não está perto nem alhures. Está na alturas e no mais baixo, longe e perto… ele é e não é. Como nas histórias das antigas cantigas, a moça deixa a casa dos pais no meio da noite, passa por um porta camuflada, atravancada por pedaços de lenha, afasta galho por galho com suas mãos, sai correndo sob a noite estrelada até aquele havia projetado o rapto, o rei do coração, o príncipe da fuga, Francisco Assis. Eles amam do mesmo amor, são feitos para se entenderem, ébrios do mesmo vinho. Ela troca sua veste cintilante por uma indumentária de gente simples, feita de lã e ei-los anos a fio separados e juntos, ele prendendo nas redes de sua voz os pássaros do céus, os animais dos campos e os homens das cidades e ela atraindo para as redes de Deus moças cada vez mais numerosas, cada vez mais bonitas.   Dois caçadores clandestinos. Dois nômades nas invisíveis propriedades de Deus. Separados como antigamente acontecia nas escolas. Os meninos de um lado e as meninas do outro. Ela, do lado das meninas; ele, do lado dos meninos. Separados nas aparências e nos lugares. Reunidos pelos intermináveis diálogos das almas, por esse encantamento de ter encontrado um interlocutor privilegiado, aquele ou aquela que compreende tudo, mesmo os silêncios, mesmo o que não se saberia dizer para si mesmo no silêncio, o irmão, a irmã sem os quais o tempo passado na terra não seria mais do que tempo, nada de outra coisa. A legenda que sempre diz a verdade para além das provas históricas, que está no sangue das almas, diz que um dia em que Francisco visitava Clara e suas irmãs em seu convento, irrompeu um incêndio, visto de vários lugares da redondeza. A população de Assis que acorreu para apagá-lo, não viu chama alguma, fogo nenhum, apenas Francisco e Clara em torno de uma frugalíssima refeição e uma imensa claridade entre os dois, que não arrefecia.   Santa Clara e São Francisco, dois irmãos que decidiram seguir juntos a radicalidade do batismo.   Ele morrerá antes dela. Isso não tem a menor importância. O amor desde sua vinda, desde seu primeiro frêmito, aboliu os antigos decretos do tempo, suprimiu as distinções de antes e de depois mantendo apenas o hoje eterno dos vivos, o hoje amoroso do amor.   Fontes: Franciscanos via Christian Bobin, “Le Très-Bas”, Gallimard, p. 101-104. Autor: Frei Almir Guimarães.
  • Quando Ele chega, as coisas podem mudar…
    Uma vez por mês, na primeira sexta-feira, temos o costume de contemplar e homenagear “Jesus Cristo do peito aberto”. Sempre diante de nossos olhos a cena: um soldado toca o lado do Mestre morto e cava-se uma fonte de amor sem limites. Água, sangue e amor que se dá até o fim. Somos convidados, sempre de novo, a nos abeirar das cenas evangélicas onde encontramos a cantiga do amor desde o presépio do Menino das Palhas até o dilaceramento cruel do alto do Gólgota e chegando até o jardim da Páscoa. Sempre ele, aquele que chega, e quando ele chega as coisas podem mudar… Penso sempre no Ressuscitado presente hoje no mundo e na Igreja. Mas naquele tempo… Zaqueu estava tranquilo. Havia se conformado com a vida que levava ou que as circunstâncias o levaram a viver. Um cobrador de impostos meio ou muito incorreto. Poderia ter sido considerado um modelo de todos os infratores da Lava Jato. Jesus passa. Para. Olha para a árvore. Manifesta desejo de fazer com ele uma refeição. O corrupto cobrador de impostos desce de onde estava, corre e aguarda Jesus em sua casa e sua vida muda. Não sabe o que fazer para reparar sua feiura interior. Aquele cego, pobre cego de nascença. Outros cegos da Palestina. Muitos foram curados por Jesus, que sempre se abeirou da fragilidade. Sofrem, sentem-se colocados de lado. Os evangelhos dizem que, muitos deles, uma vez curados passaram a ser discípulos do Mestre que abre os olhos aos cegos. Queriam ver o mundo. Passam a vê-lo com o olhar desse homem que os havia curado. A bondade do Coração de Jesus ou de Jesus do coração imenso como o universo continua agindo. Basta que as pessoas abram-lhe o coração. Penso aqui nesse rapaz sem família, menino bom, mas que entrou na noite das drogas. Um padre da cidade mantém uma casa para dependentes. Para lá é levado. O moço entra em si. Chora, sofre. Vai à capela. Olha o crucificado, escuta uma palavra do Evangelho e Jesus chega em sua vida e as coisas mudam… Penso nesse homem bom, colega de seus colegas, colegas nem sempre de boa cepa… Aos poucos deixa se influenciar e participa de desvios de dinheiro que nunca poderão ser descobertos. Num momento de desespero interior, quando a mãe está doente para morrer, é tocado. Pega o que foi “retirando” e deixa na portaria de uma casa de velhos indigentes. Diz simplesmente que é uma encomenda que mandaram para esses fantasmas humanos na casa de velhos… E tudo mudou… Tenho certeza que Jesus continua hoje chegando perto de tantos que sofrem desesperadamente em seu próprio coração tão diferente do imenso Coração do Senhor. Quando os raios do amor do peito aberto de Jesus atingem as pessoas, as coisas podem mudar…   Fonte: Franciscanos. Autor: Frei Almir Guimarães (OFMCap).