Frei Almir Guimarães (OFM)

  • Francisco, para onde queres nos levar?
    O cardeal argentino Jorge Bergoglio ao aceder ao serviço de pastor da Igreja universal, escolheu ser chamado de Francisco, Papa Francisco. Ele mesmo explica as razões de sua escolha. Antes de começar a escrever o texto da sua Carta encíclica sobre o cuidado da casa comum, Laudato Si’, afirma “Tomei o nome de Francisco por guia e inspiração, no momento da minha eleição para Bispo de Roma. Acho que Francisco é o exemplo por excelência do cuidado pelo que é frágil e por uma ecologia integral, vivida com alegria e autenticidade. É o santo padroeiro de todos os que estudam e trabalham no campo da ecologia, amado também por muitos que não são cristãos. Manifestou uma atenção particular pela criação de Deus e pelos mais pobres e abandonados. Amava e era amado por sua alegria, a sua dedicação generosa, o seu coração universal. Era um místico e um peregrino que vivia com simplicidade e em uma maravilhosa harmonia com Deus, com os outro, com a natureza e consigo mesmo. Nele se nota até que ponto são inseparáveis a preocupação pela natureza, a justiça para com os pobres, o empenhamento na sociedade e a paz interior” (n.10).   Borbulham anseios e fervilham perguntas na mente e no coração de um rapaz e de uma moça de ontem, de hoje e de sempre. Somos todos colocados diante do mistério da vida, do empreendimento da existência. Há questões que atravessam nosso espírito. Que bom que assim o seja. Somos seres livres e construímos nosso caminho. Quem sou eu? De onde em venho? Para onde vou? O que posso fazer desses dias que são os meus? Por que essa ânsia de comunhão, homem, mulher, de comunhão com tantos outros? Por que tudo isso? E esse meu irrequieto coração! Nunca está satisfeito. Que projeto esboçar para meu amanhã? Quem vai me dar sua mão? A quem eu daria minha vida? O que me faz viver? Jovens? Esboços do amanhã? Inventores do novo? Correm de um lado para o outro, antenados, sempre antenados. Frequentam as baladas da noite. Alguns gostam de escalar montanhas, nadar em rios límpidos, aspirar o ar puro dos canteiros de flores. Há os que são tatuados, usam brincos e piercings. Alguns voltam para casa, nas madrugadas, sem terem quebrado uma certa harmonia do coração. Não se deixam contaminar. Parece que são imunizados. Enquanto o sono não chega pensam nos caminhos que poderiam percorrer, em estradas que parecem abertas, em sonhos que podem transformar-se em realidade. O que eles vivem com os outros nessas noites vazias não pode ser vida. Há perguntas. Questões que pululam. O que posso fazer de minha vida? O que poderá me fazer viver? Como poderei ser uma pessoa significativa? O cortês e reto Francisco de Pietro Bernardone também tinha perguntas que lhe atravessam a mente. Há uma oração atribuída ao Poverello que se situa nesses momentos abençoados de busca, “Grande e magnífico Deus, iluminai as trevas de minha alma, dai-me uma fé íntegra, uma esperança firme e uma caridade perfeita. Concedei, meu Deus, que eu vos conheça muito para poder agir de acordo com a vossa santíssima vontade”. Os jovens de coração reto trazem em seu interior esta pergunta: Senhor, o que queres de mim? Pessoas de coração reto e espírito generoso são candidatas a viver uma vida de maior dedicação ao Evangelho que, na prática, se chama Jesus vivo e presente em nosso meio. Francisco era um jovem, como tantos outros jovens. Não era alguém vulgar. “Nada seria mais falso do que imaginar o jovem Bernardone como um libertino vulgar. Não o imaginamos nem corrompido nem corruptor, e se teve fraquezas não na forma de vilanias. O provável é que tenha colhido os frutos que se punham ao seu alcance, sem jactância e escândalo para os outros, sem envilecer a ninguém nem envilecer-se a si próprio. Os que o conheceram mais de perto atestam que ele sempre se referia às mulheres com respeito e que em sua presença houvesse alguma conversa licenciosa, fazia-se de surdo e não respondia” (Omer Englebert, Vida de São Francisco de Assis, p.43). Um rapaz reto, de bons princípios, consciente de suas qualidades, cortês… aspirando as estrelas. Ainda Omer Englebert: “É claro que Francisco não limitava suas ambições a medir panos na casa paterna e a festejar em companhia de amigos galanteadores, que se alimentavam às suas custas” (Idem, ibidem). Na medida em que vai caminhando e deixando as perguntas amadurecerem e sentindo a proximidade do Mistério se faz uma iluminação. “Tudo o que se pode dizer é que Francisco agora é um homem que encontrou o amor e que se sente iluminado pelo alto. E como tal agirá doravante, consentindo em passar de visionário aos olhos dos cegos que andam nas trevas e cumprindo atos tidos como loucos por parte dos que nunca amaram. Pode-se acrescentar que nele sobreviverão, no que têm de melhor, seus entusiasmos e ambições juvenis. Como um artista que não muda de estilo ao mudar de inspiração, ele não perderá a originalidade nem tampouco sua nobreza. Ele tinha sonhado ser cavaleiro e cavaleiro permanecerá até a morte” (Englebert, op cit., p. 51). Aos poucos, ele vai deixando o Altíssimo e o Cristo invadirem sua vida. Será alguém revestido de grande e bela simplicidade. Compreenderá que será preciso amar o irmão com amor de mãe. Na convivência recusará sobrepor-se a quem quer que seja. Haverá de trabalhar, e muito, mas nunca perderá o espírito da santa oração. Será um andarilho, estará sempre a caminho, nunca instalado, nunca acabado, mas com imensa saudade do eremitério. Ao longo de toda sua vida estará sempre “limpando as gavetas”, ou seja desapropriando-se de tudo, tornando-se uma pessoa profundamente livre. Haverá de extasiar-se diante de uma flor que abre, da água fresca e mesmo no momento que a seu encontro vem a irmã morte. Sem pretensões soberbas, com seu jeito de viver reformou a Igreja. Nele o sonho de Deus se tornou realidade. Georges Duby, na sua obra Le temps des cathédrales afirma “De parceria com Cristo, Francisco foi o grande herói da história cristã. Pode-se afirmar, sem exagero, que o que hoje resta do cristianismo vivo provém diretamente dele”.   Omer Englebert diz que Francisco encontrou o amor. Por isso, encanta a todos. Os jovens que sentem necessidade de buscar as estrelas, que não se contentam com uma vida medíocre, que não querem ser católicos sem mais, sentem necessidade de amar. Querem gastar o tempo de suas vidas com os outros, saindo à sua procura, fazendo experiência de uma profunda doação de suas vidas. Francisco encontrou o amor feito carne, feito presépio, feito cruz, feito pão, feito irmão. Chorando dirá que o amor precisa ser amado. Ao longo de seu viver estabelecerá uma comunhão de vida com o Senhor marcada por um intenso querer bem. Por meio dele quererá que o Cristo pobre e crucificado seja amado.   Via: Franciscanos. Autor: Frei Almir Guimarães (OFM).
  • O que se diz a respeito de Francisco?
    Alguns depoimentos sobre Francisco e aquilo que o fazia viver. Poucos depoimentos que nos ajudam a ir completando o perfil de Francisco. Humanista e humorista: Francisco ao longo de sua vida foi um fenômeno de massa, certamente por seu estilo evangélico, mas também porque era um gênio em termos de comunicação. Captava imediatamente as necessidades e expectativas de quem dele viesse se acercar. Tinha um inato sentido para o espetáculo. Era um artista. Nos tempos de sua juventude cantava pelas ruas e participava das serestas com seus amigos. Depois de sua conversão costumava expressar-se na pregação com movimentos corporais e gestos semelhantes aos dos trovadores e jograis. Se em sua juventude havia sonhado ser cavaleiro, servindo-se da linguagem cavalheiresca da época, depois de sua conversão continuava empregando um vocabulário de palavras e imagens muito diversas da linguagem religiosa habitual. Falava de seus frades como cavaleiros da Távola Redonda, da pobreza como uma noiva. Às vezes pregava com a linguagem de cantigas de amor em voga na época, transformando-as, dando-lhe um sentido religioso.  Conseguiu superar a dicotomia entre sagrado e profano, laical e clerical, linguagem profana e linguagem eclesiástica. Certa vez, ante suas admiradoras do sexo feminino, improvisou uma pregação feita apenas de gestos. Sua conversão ao Evangelho não tirou dele este aspecto jovial e festivo. Ao contrário, chegou mesmo a potenciá-lo. Para ele, Deus era uma festa e dançava quando dele se aproximava ou d’Ele falava.  Sua própria vida era permanentemente uma celebração litúrgica pelos campos e nas cidades.  Para ele, a natureza era o templo visível da divindade onde ele celebrava espontaneamente a liturgia cósmica. Inventou um estilo novo de encarnar o Evangelho unindo intimamente a coerência da mensagem de Jesus com seu jeito jovial e festivo. A santidade com a poesia. O humanismo com o humorismo. A religião com a estética. Conseguiu revestir o cristianismo de alegria.  Seu estilo de vida tão original foi bem captado pelas multidões que sempre sabem descobrir o essencial da vida. (José Antonio Merino, Encarte de Vida Nueva n. 2263) Francisco e o Papa Francisco: Tomei o nome de Francisco por guia e inspiração no momento da minha eleição para bispo de Roma. Acho que Francisco é o exemplo por excelência do cuidado pelo que é frágil e por uma ecologia integral, vivida com alegria e autenticidade. É o santo padroeiro de todos os que estudam e trabalham no campo da ecologia, amado também por muitos que não são cristãos. Manifestou uma atenção particular pela criação de Deus e pelos mais pobres e abandonados. Amava e era amado por sua alegria, a sua dedicação generosa, o seu coração universal. Era um místico e um peregrino que vivia com simplicidade em uma maravilhosa harmonia com Deus, com os outros, com a natureza e com si mesmo. Nele se nota até que ponto são inseparáveis a preocupação pela natureza, a justiça para com os pobres, o empenhamento na sociedade e a paz interior. (Laudato Si’”, 10).   Não era isso que fazia Francisco viver? Em torno dos estigmas: Estigmas, sinais de um desejo de privação de toda posse:  Aquele que tem as mãos estigmatizadas não pode mais assenhorear-se do mundo como antes. Aquele cujos pés estão estigmatizados não pode mais caminhar pela terra como conquistador e dominador. Aquele tem o lado atingido não pode mais ocultar seus dons na caixa torácica, nem mesmo seus ressentimentos e remorsos.  O pássaro da liberdade encontra uma fresta para se lançar livremente por montes e vales. O homem que assim se reconhece, atingido em sua carne, nada tem de próprio, distribui os bens. A natureza é reencontrada em inédito esplendor. A fraternidade originária esconde o ardor divino que o provoca. Estigmas, forma de pregação - Os estigmas constituem uma forma de pregação quando os lábios emudecem.  Os estigmas constituem um foco para a palavra do silêncio, aquela que se submete a todas as criaturas para melhor ser atendida. Os estigmas são os lábios e pálpebras da carne que revelam e contemplam as profundezas no momento em que tudo se cala, onde o ambiente manda que se cale, onde acontece a cegueira e não um mero mal enxergar. Quando o contencioso com os frades se torna mais forte, que o destino da Fraternidade franciscana parece incerto, quando o Evangelho corre o risco de ser uma utopia ou simplesmente um ingênuo sonho, Francisco toma a decisão de subir o Alverne e viver intensa solidão. Finalmente, no silêncio do intercâmbio misterioso, acontece um face a face, a partilha de sofrimento do amigo com o Amigo. Nada podemos dizer. Simplesmente meditar em nosso coração.   Via: Franciscanos. Autor: Frei Almir Guimarães (OFM). Fontes: Bernard  Forthomme, Par excès d’amour. Les stigmates de François d’Assise, Ed. Franciscaines, Paris  2004, p  28-29
  • Simplicidade e espiritualidade
    “Que bom saber que Deus anda nos procurando. Será que abrimos-lhe caminhos e sendas?” Um dos escritores mais profícuos e profundos de nossos tempos e que reflete inteligente e criticamente sobre o ser gente e ser cristão é Christian Bobin. Dele é o seguinte pensamento: “Eliminei muitas coisas inúteis de minha vida e Deus se aproximou para ver o que se passava”.  Os que eliminam coisas supérfluas são aqueles que abrem as portas para a chegada do Senhor. Coisas inúteis em geral são coisas complicadas.  Vamos tentar fazer um breve elogio da simplicidade. Simples é aquilo que se opõe a complexo, sofisticado, complicado, aquilo que é formado de um só elemento, o que nosso espírito não tem dificuldade de captar e apreender, tanto no campo prático como no nível das ideias. André Comte-Sponville, filósofo, assim escreve sobre o tema: “Ser simples é ser natural, sem duplicidade, sem cálculo, sem composição (…). Quase se poderia dizer que simplicidade é esquecimento de si. Nesse sentido a simplicidade é uma virtude, não o contrário de egoísmo como a generosidade, mas o oposto de narcisismo, de presunção, da autossuficiência (…) Por isso é fácil compreender os simples, amá-los, viver com eles”. Atentemos para o binômio simplicidade e espiritualidade. Jesus gostava de dizer que seu Pai costumava revelar seus mistérios aos simples e humildes. Estamos diante de uma visão da simplicidade como despojamento. Voltemos a Comte-Sponville referindo-se à contemplação ligada à simplicidade: “É a atitude da consciência quando ela se limita a considerar a coisa como ela é, sem querer possuí-la, utilizá-la, julgá-la”. Thomas Merton diz que “a contemplação não é visão, porque ela vê sem ver e conhece sem compreender”. No campo da espiritualidade, simplicidade é o movimento de ir para além das palavras, dos conceitos e dos raciocínios.  E agora Simone Weil a nos ajudar: “Quando se ouve Bach ou uma melodia gregoriana, todas as faculdades da alma se orientam para ou se calam para apreender esta coisa perfeitamente bela, cada uma à sua maneira. A inteligência entre outras: nada tem a ver com afirmar ou negar, mas de tudo se alimenta. A fé não deveria ser uma adesão desse tipo? Os mistérios da fé são degradados na medida em que são objetos de afirmação ou negação, quando na verdade precisam ser objeto de contemplação”. Cuidado para não simplificar demais as coisas! Pode haver sério risco nesse campo. Simples sim, mas não simplório. Defender a simplicidade sem mais pode significar a recusa de refletir, de ver a realidade como ela é, deixando de fazer as necessárias distinções.  Pode ser que elogiemos a simplicidade para acobertar nossa preguiça de pesquisar, de buscar, de discernir. Uma inadequada busca de simplicidade leva a certo empobrecimento do mundo. Virtus in medio, sempre. O evangelho é anunciado por aqueles que vivem com simplicidade.  “Esta sociedade precisa descobrir que precisamos voltar a uma vida simples e sóbria. Não basta aumentar a produção e alcançar um nível superior de vida. Não é suficiente ganhar sempre mais, comprar cada vez mais coisas, desfrutar de maior bem-estar. Esta sociedade precisa como nunca do impacto de homens e mulheres que saibam viver com poucas coisas. Crentes capazes de mostrar que a felicidade não está em acumular bens. Seguidores de Jesus que nos lembram  que não somos ricos quando possuímos muitas coisas, mas quando sabemos desfrutá-las com simplicidade e compartilhá-las com generosidade. Os que vivem uma vida simples e uma solidariedade generosa  são os que melhor pregam hoje a conversão de que mais necessita a nossa sociedade”  (Pagola, O caminho aberto por Jesus, Marcos, p.  133-134). Christian Bobin deve ter ficado feliz quando Deus veio saber o que se passava com ele quando simplificava sua vida… Quem sabe preparava o caminho para a comunhão com o Senhor…   Via: Franciscanos. Autor: Frei Almir Guimarães (OFM).