Frei Luís Felipe Marques (OFMConv)
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A beleza da Liturgia: a liturgia é a beleza?
A Igreja evangeliza e se evangeliza com a beleza da liturgia (II) Tendo procurado responder a pergunta, no artigo anterior, “que coisa é a beleza?”, podemos agora passar a ver em que consiste a beleza da liturgia. Sendo que a Liturgia é opus Dei, ação de Deus, nessa, a beleza-bondade é certamente presente, uma beleza-bondade que se manifesta com os olhos da fé. A liturgia é aquilo que Deus faz ao homem e não o que o homem faz para Deus (cf. Bento XVI). Então, a liturgia é beleza porque o agente primeiro é Deus. Com isso, a liturgia é muito mais um evento a acolher do que uma coisa a fazer ou uma obrigação a cumprir. Compreender a liturgia como mistério, significa, antes de tudo, que não somos nós que fazemos a liturgia, mas é ela que faz de nós crentes. Ela nos dá muito mais do que pedimos, nela encontramos mais do que procuramos. Nisto se dá a perfeita circularidade e a plena sinergia (G. Boselli). O Cristo Jesus é o revelador da beleza do Pai (cf. Jo 1,18), pelas suas palavras e gestos, e na liturgia, a ação da Igreja, pode ser somente sacramento da ação de Deus, de Cristo e do serviço de Deus. Quanto mais a liturgia for capaz de manifestar a ação do Senhor, de dar espaço ao Senhor, à sua presença viva e eficaz, mais ela será entendida como sinal-primeiro de evangelização, de encontro com o próprio Senhor. Se existe uma estética litúrgica, conceito sempre menos compreendido dentro da liturgia, esta se funda na cristologia da arte celebrativa que, atualizando a ação do Senhor, se reveste da beleza pertencente, de modo ontológico, ao agir de Deus. Os ritos e as orações são ações celebrativas que revelam a ação de Cristo. O sentido estético, o belo na liturgia, não depende em primeiro lugar da arte, mas da compreensão do Mistério Pascal. A arte, para colaborar com a liturgia, tem necessidade de ser “tocada” e transfigurada pelo Mistério Pascal. A verdadeira arte e beleza é o gesto sublime do amor salvífico de Cristo. Na liturgia não se faz arte pela arte e a arte não é um espetáculo, mas é arte quando faz aparecer, quando revela, através da nobre simplicidade, a beleza do conteúdo, a luz e o amor do evento que se celebra através da memória. Uma liturgia bela não pode ser definida como beleza funcional, mas precisa ser compreendida como liturgia gravida desta beleza que faz aparecer a graça de Deus (cf. Tt 2,11). Uma liturgia marcada pela beleza não está interessada por decorações supérfluas, ornamentações desarmônicas e desnecessárias, rendas e penduricalhos, excesso de símbolos. Uma liturgia marcada pela beleza não se nutre do fausto e da suntuosidade. Uma liturgia marcada pela beleza se predispõe daquilo que o Senhor tem necessidade para manifestar-se como ressuscitado e presente na assembleia que celebra, no presbítero que preside, nas diversas ações e no espaço nobre e simples (cf. SC, ns.34 e 124). Com isso, a beleza da liturgia não é uma questão estética de forma, mas uma questão teológica de conteúdo: a beleza da liturgia é a beleza da pessoa de Cristo e do seu dom pascal oferecido na comunidade celebrante. O convite a evangelizar com a beleza da liturgia não representa o caminho estético da sociedade, mas um apelo a reconhecer qual a vocação que a liturgia quer exprimir e realizar, mesmo com os limites humanos. Assim, para que a beleza da liturgia não seja mundana e realize o seu fim, é necessário um vivo sentido da fé, que fuja da vanglória e da exibição de si mesmo; que não se interesse por algum efeito psicológico ou social, é pura gratuidade; que não se distancie do povo santo de Deus, é livre caridade. Para concluir, na própria estrutura celebrativa secular, podemos visualizar todos estes detalhes: a liturgia converte, orientando, isto é, exposta à atenção de nós a Deus, das nossas misérias à sua misericórdia (ritos iniciais), das nossas razões à sua Palavra (liturgia da palavra), das nossas lamentações à invocação (oração universal e liturgia das horas), da crônica dos nossos insucessos à memória da ação de Deus (liturgia do sacramento). Continua... Autor: Frei Luis Felipe C. Marques, OFMConv. Série "A Beleza da Liturgia": Para refletir sobre a beleza da liturgia, nesta série de artigos, o Frei Luis Felipe (OFMConv) buscou compreender como esta evangeliza o homem e a mulher moderna a partir de 4 perguntas: que coisa é a beleza? A liturgia é beleza? Qual a beleza na liturgia? Como a beleza da liturgia evangeliza a Igreja? Esta foi a segunda reflexão. Clique aqui e leia os outros artigos da série. -
A beleza da Liturgia: como a beleza da liturgia evangeliza a Igreja?
A Igreja evangeliza e se evangeliza com a beleza da liturgia (IV) Depois de termos visto que coisa entendemos com a palavra beleza e de termos aprofundado como essa se manifesta na liturgia e como entra em relação com a ação litúrgica, agora nos perguntamos “em que modo a beleza da liturgia evangeliza a Igreja?” Antes de tudo é preciso entender que a liturgia realiza uma função de iniciação, comunica alguma coisa da presença de Deus aos homens e às mulheres do nosso tempo. O liturgista Goffredo Boselli, em “O sentido espiritual da Liturgia” (2014), diz que isso “significa atestar que a liturgia é, em si mesma, mistagogia, ou seja, é capaz de ser epifania do mistério, de modo que a Liturgia inicia ao Mistério celebrando-o”. Na liturgia existe um duplo movimento: aquele de sístole e aquele de diástole, para que os símbolos litúrgicos possam ser eloquentes e a Palavra que ressoa na liturgia atingir a muitos, por diversas razões, estamos em contato com a própria Palavra, cuja a corrida do coração do homem é conhecida somente por Deus (cf. E. Bianchi, Nuovi stili di evangelizzazione, 2012). De fato é Cristo que fala quando se proclama as Escrituras que contém a Palavra de Deus (cf. SC, 7); não somente, é o próprio Senhor que opera, age, cria o evento da salvação, faz com que a Palavra proclamada e acolhida se realize na vida de quem escuta (cf. Lc 4, 21). Quantas vezes é propriamente a Palavra que ressoa na ação litúrgica a atingir homens e mulheres não cristãos e distantes da Igreja, mas que estão presentes em celebrações de Batismo, matrimônios, funerais... homens e mulheres que o único contato com a liturgia é a própria liturgia que participam. Assim, sendo que nas celebrações da Igreja quem opera é Cristo mesmo, a liturgia “ganha” de qualquer outra forma de evangelização e formação. Nela e por ela, mais do que “falar sobre” Deus e suas coisas, é Ele mesmo quem fala e por sua Palavra, se revela e se dá. Além da Palavra proclamada e escutada pela assembleia, também a semântica dos sacramentos pode tornar eloquente para aqueles que dele participam: é a experiência de comunhão com Deus, que envolve todos os sentidos do corpo. O corpo que, na liturgia, é lugar por excelência da comunhão com Deus, sendo destinado a tornar-se morada de Deus, pois é o lugar que experimentamos a graça e a força de salvação que ele nos doa. Nesse sentido, a Liturgia não é composta de ideias a serem comunicadas, mas de uma presença a ser percebida, experimentada e expressa. A Liturgia não é, primeiramente, pensamento, é corporeidade. O corpo antecede a mente, na verdade, a forma, como dirá Bonaccorso (cf. Il culto nello Spirito come culto incarnato, 2011). É o jogo estético da sensorialidade humana que manifesta o conhecimento de Deus e da comunidade. O corpo é imerso na água do batismo; o corpo é ungido com o santo crisma; o corpo recebe o corpo e sangue de Cristo e é transformado em corpo de Cristo; a crismação e a unção que habilita a missão e que acompanha o crente no êxodo pascal; o fogo e a luz, sinais da páscoa de Cristo, são sinais que, utilizados com a seriedade própria da ars celebrandi, podem iniciar e educar a fé. Sim, porque – como já dissemos – o sentido profundo da beleza desses gestos e da Palavra na ação litúrgica é somente um: revelar, manifestar o amor do Senhor Jesus Cristo de forma simples, sóbria e digna. Desse modo, quem participa da liturgia experimenta no próprio corpo a beleza desse amor. Compreende-se assim como a beleza cristã é um evento, não um dado fixo e imutável. Essa é originada do dom de Deus em Cristo Jesus, leva-nos a comunhão entre os homens e com todas as criaturas, suscita como resposta a gratuidade, gera no coração humano a humildade. A eucaristia, que é o coração da comunidade cristã, memória da doação de Deus em Cristo Jesus a humanidade (cf. Jo 3,16), é magistério de beleza no momento mesmo que é magistério de caridade. Devemos ser convencidos que em cada liturgia, em particular, na celebração eucarística, é presente o mistério de Cristo que age para reunir e unir no Pai os filhos de Deus dispersos. Disso brota a evangelização, porque quando a assembleia celebra, não celebra a si mesma. Ao centro da ação litúrgica não está nem a assembleia e nem o ministro, mas o Mistério Pascal, que realiza entre os homens, a favor de toda a humanidade e do cosmo inteiro, a presença que acolhe, evangeliza e educa. Se não crermos nisso, a evangelização será propaganda e a liturgia espetáculo religioso que faz “surtar” o participante. Sendo assim, o detalhe está em perceber que os ritos não se fundam sobre a “ressonância emotiva” próprias das subjetividades, mas numa prescrição que lhe confere objetividade e autenticidade (cf. ZANQUI, In presenza di spirito: rito Cristiano e tempo dell’anima, 2011). Um estudioso da liturgia no brasil, padre Marcio Pimentel, afirma que “essa característica da Liturgia faz dela excelente instrumento evangelizador. E esse potencial das celebrações tem sua fonte e poder no fato de não somente fazer circular conteúdos religiosos, teológicos e éticos, mas, sobretudo, por sua capacidade de gerar presença. A evangelização, em última análise é isso: dotar o mundo com uma presença que alegra. A presença do Verbo de Deus, princípio e fim de tudo; qualificador primordial de todas as realidades criadas. Por Ela tudo se sustêm”. Por fim, concluindo nossa série sobre a beleza, respondemos a última questão, afirmando que a liturgia evangeliza a Igreja na medida que nos insere no mundo de Deus, na sua presença atualizada, e qualifica a história como sacramental do Cristo morto e ressuscitado, o vivente, caminhante e atuante no meio do seu povo. Autor: Frei Luis Felipe C. Marques (OFMConv.). Série "A Beleza da Liturgia": Para refletir sobre a beleza da liturgia, nesta série de artigos, o Frei Luis Felipe (OFMConv) buscou compreender como esta evangeliza o homem e a mulher moderna a partir de 4 perguntas: que coisa é a beleza? A liturgia é beleza? Qual a beleza na liturgia? Como a beleza da liturgia evangeliza a Igreja? Esta foi a última reflexão. Clique aqui e leia os outros artigos da série. -
A beleza da Liturgia: qual a beleza na liturgia?
A Igreja evangeliza e se evangeliza com a beleza da liturgia (III) No nosso itinerário já vimos que “a beleza da liturgia é a beleza da pessoa de Cristo e do seu dom pascal oferecido na comunidade celebrante”. Quando não conseguimos mais ver a beleza da pessoa de Jesus na comunidade celebrante e nos sinais simbólicos da sua presença (cf. SC, n.7), evidenciamos algumas coisas na ação litúrgica que favorece a falta de beleza, ou seja, queremos enganar os nossos olhos. Falta bom gosto no espaço litúrgico (excesso de toalhas e rendas, exagero de castiçais e velas, altares carregados, multiplicação de cruzes, explosão dos ornamentos florais – “muitas flores matam as flores”...), pouca atenção à música e ao canto, esquecimento do desenvolvimento e da harmonia ritual. Muita decoração, pouca santidade! Estes são alguns “poucos” exemplos da pobreza do sentido estético que aflige o rito celebrado. Ainda, ao mesmo tempo, temos um retorno nostálgico a liturgia pré-conciliar por parecer mais bela e piedosa esteticamente. Vemos “turistas litúrgicos” que procuram celebrações que correspondem ao seu gosto pessoal, vem fabricada diante dos nossos olhos a perfeita imagem de um cristianismo muito difundido, que recorre a Deus como um potente curador, um mágico – quiçá – um feiticeiro. Um cristianismo não-cristão com espiritualidade pagã e mundana. A beleza da liturgia não pode estar ligada aos prazeres subjetivos, a verbalizações sentimentais, a devocionalismos meritórios da parte do indivíduo. Uma beleza somente estética não deixa o homem sair de si para elevar-se em direção ao “Totalmente Outro” e aos outros que celebram juntos. Interrogado sobre sua experiência de liturgia, Paul Ricoeur respondeu: “Agradeço a liturgia que me arrancou da subjetividade, ofereceu-me, não minhas palavras, não meus gestos, mas aqueles da comunidade. Sou feliz por esta objetivação dos meus próprios sentimentos; inserindo-me numa expressão cultural sou arrancado da efusão sentimental; entro na forma que me forma; fazendo meu o texto litúrgico torno-me eu mesmo texto que reza e canta” (cf. P. Ricoeur, “Epilogo”, in: Boselli, G. Por uma liturgia mais humana e hospitaleira, 2016). O caminho a ser percorrido é que a sacramentalidade da liturgia é um ato do Cristo sacerdote (cf. SC, n.7) e, antes ainda, sacramentalidade da própria Igreja, assembleia celebrante (cf. LG, n.1). O sacramento é o gesto eclesial de Jesus em direção ao homem e, assim, o encontro com Cristo toma forma de sinal visível. É um gesto concreto. O gesto litúrgico é visualização do gesto salvífico de Cristo, que se perpetua através da ação da Igreja. Desse modo, é o próprio ato de Cristo que precisa ser visto para atingir a beleza teológica da liturgia. A estética litúrgica funda-se na cristologia do gesto de Jesus. Este atributo da beleza, vista não enquanto mero esteticismo, mas como modalidade com que a verdade do amor de Deus em Cristo nos alcança, fascina e arrebata, fazendo-nos sair de nós mesmos e atraindo-nos assim para a nossa verdadeira vocação: o amor. A verdadeira beleza é o amor de Deus que nos foi definitivamente revelado no mistério pascal. [...] A beleza da liturgia pertence a este mistério; é expressão excelsa da glória de Deus e, de certa forma, constitui o céu que desce à terra. O memorial do sacrifício redentor traz em si mesmo os traços daquela beleza de Jesus testemunhada por Pedro, Tiago e João, quando o Mestre, a caminho de Jerusalém, quis transfigurar-Se diante deles (Mc 9, 2). Concluindo, a beleza não é um fator decorativo da ação litúrgica, mas seu elemento constitutivo, enquanto atributo do próprio Deus e da sua revelação (Sacramentum Caritatis, n. 35). A liturgia é bela na medida em que é epifania da graça salvífica de Cristo. A beleza da liturgia não consiste, então, na ostentação, mas na transparência dos gestos do Senhor. Não na exibição de um rito pomposo, mas na sóbria celebração do sacramento. Busque-se mais a nobre beleza que a mera suntuosidade (cf. SC, n.124). Os gestos humanos são enriquecidos em gestos concretos: plenos de amor, salvação e eficácia, conservando o caráter simples e ordinário. Gesto e palavra encontram na liturgia uma correspondência recíproca que confere uma eloquência particular de corporeidade (cf. F. Cassingena-Trévedy, La bellezza della liturgia, 2003). A liturgia é reveladora do belo. Na liturgia, com Cristo, descende todo o céu na terra, e toda terra sobe ao céu, unidos aos anjos e santos, em uma só voz (cf. SC, n.8). O cristão vive e celebra esta visão. Este é um contemplativo que, exercitando seu sacerdócio, torna-se mediador e comunicador da beleza divina no gesto ritual. Sobretudo, quando faz o tempo e o espaço do mundo contemplar aquele que é fora de todo o tempo e de todo o espaço. Esta contemplação da ressurreição que se realiza na celebração litúrgica e, em modo único, no encontro sacramental com o Cristo na Eucaristia, comunica a beleza que se revelará a todos na Parusia: “Anunciamos a vossa morte, proclamamos a vossa ressurreição. Vinde, Senhor Jesus!”. Com isso, a beleza de uma celebração litúrgica não depende da beleza arquitetônica, dos ícones, decorações, cantos, vestes sacras, mas da capacidade de deixar ver o gesto amoroso de Deus em Jesus (cf. Piero Marini, Liturgia e bellezza, 2005). A liturgia é ato salvífico de Cristo e da Igreja. Não depende essencialmente do intelecto, mas baseia-se na encarnação, no gesto salvífico de Cristo e na beleza da sua divino-humanidade. Os gestos litúrgicos atualizam os belos gestos de Cristo que, já por si mesmos, manifestam uma beleza por serem gestos de Cristo para o homem. A liturgia é o lugar do amor doado e acolhido. Tudo isto é visto, de modo admirável, no acolhimento da Palavra e na celebração da assembleia cristã. Com esta compreensão “a Igreja evangeliza e se evangeliza”. Continua... Autor: Frei Luis Felipe C. Marques (OFMConv.). Série "A Beleza da Liturgia": Para refletir sobre a beleza da liturgia, nesta série de artigos, o Frei Luis Felipe (OFMConv) buscou compreender como esta evangeliza o homem e a mulher moderna a partir de 4 perguntas: que coisa é a beleza? A liturgia é beleza? Qual a beleza na liturgia? Como a beleza da liturgia evangeliza a Igreja? Esta foi a terceira reflexão. Clique aqui e leia os outros artigos da série. -
A beleza da Liturgia: que coisa é a beleza?
A Igreja evangeliza e se evangeliza com a beleza da liturgia (I) Afirma o Papa Francisco: “No meio da exigência diária de fazer avançar o bem, a evangelização jubilosa torna-se beleza na liturgia. A Igreja evangeliza e se evangeliza com a beleza da liturgia, que é também celebração da atividade evangelizadora e fonte dum renovado impulso para se dar” (A alegria do Evangelho, n. 24). Esta belíssima frase de papa francisco, escrita na sua Exortação Apostólica Evangelii Gaudium (2013), considerada pelos estudiosos como a chave de leitura para o seu pontificado, nos dá a possibilidade de refletir sobre a relação entre a beleza e liturgia que se faz visível na evangelização alegre. É o que pretendemos fazer, não só com este artigo, mas com a possibilidade de um itinerário a percorrer. A humanidade pode viver sem a ciência, pode viver sem o pão, mas sem a beleza não poderá viver, porque não haveria nada a fazer no mundo. Todo o segredo está aqui, toda a história é aqui, é a beleza que salvará o mundo (Dostoevskij). Somos tentados muitas vezes a acreditar que a sensualidade nos afasta de Deus, mas o que de fato nos afasta de Deus é a abstração, diz Nicolás Gòmez. A beleza, encontro que surpreende, é a experiência dos sentidos que reconhecem o “sentido” dos sentidos. Desse modo, como pontapé inicial gostaria de tentar definir a beleza. Tarefa nada fácil. Exatamente, porque alguns traços da beleza acabam por ser pessoais. Talvez o que eu ache belo, belíssimo, surpreendente de beleza, para o outro não passa de algo simples, natural e normal. Por isso, a beleza é vista como gosto pessoal, “subjetiva”, como se diz, é belo aquilo que eu gosto. Mas, na realidade, é a beleza verdadeira, “objetiva”, que salva o mundo, renova a vida, dá luz, calor, justa perspectiva para o homem iludido e confuso, voltado para si mesmo. É a beleza do outro que revela a minha beleza, assim, não existe beleza sem relação. Para diminuir tal conceito, vamos começar por pensar qual a beleza que a liturgia pede e, por fim, tentar ver como a beleza da liturgia evangeliza o homem e a mulher de hoje. Assim, percorreremos um caminho de tentar responder 4 perguntas: que coisa é a beleza? A liturgia é beleza? Qual a beleza na liturgia? Como a beleza da liturgia evangeliza a Igreja? Que coisa é a beleza? Tal pergunta é importante e nos leva a fazer uma distinção fundamental: tem uma beleza que é cantada e proclamada pela fé, a beleza de Deus, que pode ser experimentada e vista, graças a ação do Espírito Santo, por quem sabe exercitar o sentido da fé; e, por outra parte, tem uma beleza das criaturas, experiência humana, feito pelo homem com os seus mais nobres sentidos corporais. Toda a criação é plena de beleza. É a beleza do céu, da natureza, das manifestações cósmicas. E Deus viu que o que tinha feito “era coisa bela e boa” (Gn 1,4.10.12.18.21.25). É a beleza da criatura (muitas vezes ambígua, pois pode tornar-se beleza do ídolo que seduz e leva a tentação) que revela a beleza do criador. Assim, a beleza pode ser considerada como uma via, via pulchritudinis (“o caminho da beleza”, em tradução livre), através do qual podemos procurar e encontrar a Deus. Também podemos reconhecer que a beleza é um sujeito e não simplesmente um atributo. O homem de fé pode entender que a beleza é Deus mesmo: “Esplêndido e magnífico és tu, ó Deus!” (Salmo 76,5). Uma beleza que pode ser confessada na fé. O Messias é considerado pelo salmista como o “mais belo entre os filhos dos homens” (Sl 45,3). A beleza do Senhor é uma beleza que transcende o visível das criaturas, é a beleza que só o amor é capaz de narrar e fazer contemplar. No Tabor, os evangelistas usam uma linguagem particular, simbólica, que lembra as manifestações de Deus no Antigo Testamento. É o olhar dos discípulos que muda, a percepção, a experiência de fé. Agora eles veem com o coração, entendem com a alma, veem a beleza de Deus. Beleza que está em nossos olhos, não somente nas coisas. Posso ver uma “coisa” bela, mas não acha-la bela. Como é bom ver a beleza de Deus! A transparência do rosto sorridente do Pai! Ao terem a certeza da presença divina, os discípulos viram o belo. O belo é o esplendor do verdadeiro (Platão). É bom estarmos aqui, replicam os apóstolos. Uma beleza que supera todos os outros belezas que ilumina e redimensiona nossa alegria em Deus. Adquire profundidade e esperança de imortalidade. O belo é a prova experimental que a encarnação é possível (cf. Simone Weil). Assim, o cristianismo é “estética teológica”, não uma entre as religiões, muito menos uma ética-moral, mas uma verdadeira estética (cf. Balthasar). A carne de Jesus é o fundamento da estética teológica, da beleza que salva. De fato, o homem procura pela beleza, mas para compreender a beleza que revela a Deus e as suas ações, exige do homem uma educação da inteligência, um caminho de procura e discernimento, ascese, jamais concluído, uma caminho fadigoso do sentido verdadeiro da beleza. Mais o aspecto sensível toca pela sua beleza, mais o homem é tentado a não escutar a própria interioridade, sendo prisioneiro da exterioridade, que dá ao esteticismo um valor fundamental, capaz de destronar a verdade e a bondade. E assim, o consumismo do belo é marcado pelo privado da subjetividade e pela ausência da sacramentalidade. É preciso concentrar-se naquilo que “é mais belo, maior, mais atraente e ao mesmo tempo, mais necessário” (EG, n.35). O coração do Evangelho, recorda papa Francisco, resplandece a “beleza do amor salvífico de Deus manifestado em Jesus Cristo morto e ressuscitado” (EG, n.36). Pergunta ainda o papa emérito Bento XVI: “que coisa é a beleza, que os escritores, poetas, músicos, artistas contemplam e traduzem em linguagem, senão o reflexo do esplendor do Verbo eterno feito carne?” A beleza da liturgia, então, parece não ser uma questão estética de “formas”, mas um questão teológica de conteúdo: a beleza da liturgia é a beleza da pessoa de Jesus e do seu dom pascal oferecido em cada celebração. Continua... Autor: Frei Luis Felipe C. Marques, OFMConv. Série "A Beleza da Liturgia": Para refletir sobre a beleza da liturgia, nesta série de artigos, o Frei Luis Felipe (OFMConv) buscou compreender como esta evangeliza o homem e a mulher moderna a partir de 4 perguntas: que coisa é a beleza? A liturgia é beleza? Qual a beleza na liturgia? Como a beleza da liturgia evangeliza a Igreja?Clique aqui e leia todos os artigos da série. -
Foi celebrado ontem (03) o trânsito de São Francisco de Assis na Cripta do Santuário dedicado ao Pai Seráfico
Foi celebrado ontem (03), por volta das 19h, na Cripta do Santuário São Francisco de Assis, em Brasília (DF), o Trânsito de Nosso Pai Seráfico. A celebração foi um momento de muita reflexão sobre a passagem do fundador da Ordem para os braços da Irmã Morte. Os fiéis e as fiéis acompanharam emocionados o rito que foi realizado pelos frades da Casa de Formação São Francisco de Assis. Todos e todas seguiram em procissão ao Santuário, onde a celebração seria encerrada. Em seguida, ainda no Santuário, o Frei Luís Felipe Marques (OFMConv), presidiu a celebração da Santa Missa. Em sua homilia, Frei Luís relembrou a morte de Francisco, “Não foi um momento triste porque ele o fez em perfeita Santidade”. Co-presidiram a Eucaristia os freis Bernardo Vitório (OFMConv), Rafael Normando (OFMConv) e Rogério Filho (OFMConv). Continuando a homilia, o Frei Luís também explanou sobre o legado do Seráfico Pai, “Mesmo que tenha morrido há mais de 800 anos, Francisco era jovem. Mais jovem até do que nós que, mesmo vivendo atualmente, há muito tempo já caducamos o evangelho”, elucidou o religioso destacando o caminho da santidade franciscana, “É preciso sair do mundo para abraçar o Evangelho”. Finalizando a sua reflexão, o frade explicitou a complexidade espiritual de Francisco, “Não foi um homem original porque a sua originalidade veio da Palavra. Não foi um homem extraordinário porque viveu do ordinário”. O Trânsito de São Francisco faz memória à tarde da mesma data do ano de 1226, quando a febre aumentou e reduziram-se as forças do Pobrezinho que, ao ver que a chama enfraquecia dentro de si, pediu aos primeiros frades que cantassem o salmo 141, que fala do desejo de deixar as aflições e ir para junto de Deus. Francisco, havia ido de encontro ao Pai. Os irmãos foram, aos poucos cessando o canto, até pararem totalmente. Entre lágrimas, recitaram o Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo como a conclusão do Salmo. O silêncio pairou sobre a cabana. Até o som do lado de fora deu uma pausa. A natureza havia emudecido. Saiba mais sobre o Trânsito aqui. Conheça a biografia do Santo clicando aqui. Compreenda o significado de alguns pontos da vida de São Francisco na Série Vocação Franciscana. Confira aqui. -
Frades da Teologia renovaram hoje (29), os votos temporários
Foi celebrada hoje (29), na Capela São Francisco de Assis, em Brasília (DF), a Renovação dos Votos Temporários dos frades da teologia da Casa de Formação dedicada ao Seráfico Pai. A celebração aconteceu durante a Santa Missa presidida pelo provincial, Frei Marcelo Veronez (OFMConv.). Co-presidiram a Missa o Frei Ronaldo Gomes (OFMConv.), custódio da Custódia Provincial Imaculada Conceição do Brasil, Frei Luís Felipe Marques (OFMConv.), reitor da Casa de Formação, e o Frei José Nasareno (OFMConv.), vigário do Santuário São Francisco de Assis. Durante sua homilia, o Frei Marcelo falou sobre a importância da data de hoje para o franciscanismo, a Solenidade de Todos os Santos e Santas da Ordem Seráfica (entenda mais clicando aqui). Assim, o provincial relembrou que cada um destes e cada uma destas Veneráveis Servas de Deus, assim como os frades presentes, professaram os seus votos à Ordem e à Igreja. E, nesta profissão, dedicaram-se, diariamente, a viver o Evangelho Encarnado assim como o Pobrezinho de Assis. Continuando a elucidar sobre os votos, Frei Marcelo explicou também sobre a Castidade, esta que é uma atitude a ser revitalizada durante toda a vida do religioso. Comentou ainda sobre como o frade não deve ter nada de próprio, livrando-se das ligações terrenas e assim agindo de acordo com a pobreza franciscana. Entretanto, o voto mais difícil, segundo o celebrante, trata-se da obediência. Pois neste, tem-se a junção do frade que a nada deve se apegar com o franciscano que compreende que sua Missão é viver e anunciar o Evangelho. “Os cristãos leigos e leigas professam a sua Fé quando rezam o Credo. Já nós, religiosos, devemos professar os exemplos do Evangelho”, concluiu Frei Marcelo. Provincial ao centro com os frades que professaram os votos temporários. Professaram os votos temporários os seguintes frades: Waltier Aparecido (OFMConv.), Marcos Veríssimo (OFMConv.), Josimar Mendes (OFMConv.), Moisés Araújo (OFMConv.), Jorge Elias (OFMConv.), Antônio dos Santos (OFMConv.), Marcelo Borges (OFMConv.), Luís Ventura (OFMConv.), Alex Rios (OFMConv.), Rodrigo Oliveira (OFMConv.), Rafael Dias (OFMConv.), Altair Santos (OFMConv.) e Flávio Xavier (OFMConv.). Saiba mais sobre a Profissão dos Votos clicando aqui. -
Na última quarta-feira (28), foi realizada a cerimônia de formatura no ISB e celebrada a Santa Missa de encerramento das atividades acadêmicas
Na última quarta-feira (28), foi realizada no auditório do Instituto São Boaventura (ISB), em Brasília (DF), a cerimônia de formatura de 6 frades e 1 leigo do curso de teologia, mais 4 pré-noviços do curso de filosofia. Na ocasião também foi realizada a profissão de Fé do Frei Luís Felipe Marques (OFMConv.) que tomou posse como novo diretor do Instituto São Boaventura. A celebração da Santa Missa de encerramento das atividades acadêmicas foi uma ação de graças por todo esse ano de 2018. O Coral do Frei Mayko Ataliba (OFMConv), professor de música do ISB, acompanhado de alguns pré-noviços da Casa de Formação Santa Maria dos Anjos, se apresentou neste dia, dando vida à uma antiga tradição. A Eucaristia foi presidida pelo Frei Ronaldo Gomes (OFMConv.) e concelebrada pelos Freis Felipe, Givaldo Domingos (OFMConv.) e Marcos Pereira (OFMConv.). O Frei Ronaldo, custódio da Custódia Provincial Imaculada Conceição, do Rio de Janeiro, esteve presente representando a Pontifícia Faculdade São Boaventura de Roma, à qual o ISB é afiliado. Ao final da celebração, o Frei Luís Felipe, novo reitor do ISB, dirigiu agradecimentos pela presença do Frei Ronaldo e, dirigindo-se aos formandos, comentou que a experiência dos estudos deve levar o filósofo e o teólogo a manifestar a presença de Deus no meio de cada um de nós, “de um Deus encarnado e vivo, precisa sempre de um movimento de abertura, renunciando aos preconceitos e às visões curtas da sociedade e do mundo”, concluiu o novo reitor, destacando ainda aos formandos que estes precisam servir a comunidade eclesial com disposição e coragem, mas sem medo. Formaram-se em Teologia os seguintes frades: Geraldo Leite da Silva Junior (OFMConv.), Wagner da Silva Faustino (OFMConv.), Beneval Soares Bomfim (OFMConv.), Paulo Arante Rodrigues (OFMConv.), Marcus Orlando Figueredo Pinto (OFMConv.) e Maykon Anderson de Oliveira Silva (OFMConv.). Concluíram a graduação em Filosofia os pré-noviços: André Moreira Lima, André Salomão Mendes, Diogo Kennedy Lima e Gederson Aparecido Nunes. Veja mais fotos na galeria! -
Pós-Noviços participam da 32ª edição do Curso de Inverno de Franciscanismo
Chegou o período do ano em que os frades da Casa de Formação de Pós-Noviciado “São Francisco de Assis”, em Brasília, participam do Curso de Inverno de Franciscanismo. O curso é um período formativo realizado geralmente no recesso entre o primeiro e o segundo semestre do ano, em julho. Já é tradição que participem do curso alguns confrades que venham de outras regiões do país e, neste ano, seis formandos da Província São Francisco de Assis (SP) estão no curso. Este é um momento que contribui para o amadurecimento do carisma franciscano dos jovens que são incentivados a discernir sobre seu testemunho e missão enquanto menores conventuais. A 32ª edição do Curso de Inverno aconteceu entre os dias 08 e 19 de junho e, durante este período, foram trabalhadas temáticas que revisitassem a história franciscana, bem como seus principais teólogos, mas também que trouxessem debates importantes para o contexto atual. Neste enfoque, os primeiros dias do curso foram voltados para o Simpósio Franciscano que celebrou os 800 anos do Encontro entre São Francisco e o Sultão do Egito (veja a cobertura do simpósio clicando aqui). Em seguida, o Frei Elio Rojas (OFMConv.), apresentou a todos uma conjuntura sobre “São Boaventura e a minoridade franciscana”. O Frei Elio Rojas (OFMConv.) falou sobre "São Boaventura e a minoridade franciscana". Em sua conferência, o frade argentino falou como São Boaventura introduziu o termo “minoridade”, o qual São Francisco nunca havia falado sobre. “Viver a minoridade é colocar-se no último dos últimos, mais abaixo que o último. É viver a kenosis, esvaziar-se totalmente e fazer-se pobre para abraçar a pobreza dos outros”, como explicou Frei Elio. Clique aqui para assistir à sua entrevista. Já o Frei Sinivaldo Tavares (OFM) trouxe a debate a temática “Duns Scotus e o Cristocentrismo franciscano”. Durante os três dias, o frade tratou de como é a relação entre os franciscanos e a fraternidade universal, algo que é citado muitas vezes por Scotus ao elucidar que existem vestígios de Cristo em toda a Criação. Para contextualizar a discussão, Frei Sinivaldo apontou os cuidados que devemos ter com a Casa Comum, referenciando-se aos recentes apelos do Papa Francisco. “Os laços que temos em comum estão em todos os seres e eles têm a ver com a presença de Cristo que dá sentido e que explicita a relação de cumplicidade tácita que torna possível a vida. Nós, humanos, somos mais dependentes ainda desta relação”, afirmou ele. Clique aqui para assistir à sua entrevista. O Frei Sinivaldo tratou sobre "Duns Scotus e o Cristocentrismo franciscano", destacando os cuidados com a Casa Comum. Concluindo o curso, o Frei Mauro Aristides (OFMCap) conferenciou sobre “Leitura Franciscana da Bíblia”, no qual ele destacou a Palavra de Deus na vida de São Francisco. “Uma abordagem curta, mas fundamental já que o Pobrezinho foi um homem querido em todas as nações. Ele fez-se pobre para ajudar os pobres, mas também para dar um grande testemunho de Cristo”, explicou ele. No último dia do curso, foi celebrada uma Santa Missa em ação de graças pelo encontro realizado. O Frei Luís Felipe Marques (OFMConv.) presidiu a Eucaristia que foi concelebrada pelos Freis Mayko Ataliba (OFMConv.) e Carlos Alberto de Queiroz, da Província São Francisco. Os frades Marcos Veríssimo (OFMConv.) e Thiago Natulini (OFMConv.) concluíram o último ano de curso, já que neste ano ambos se formam em Teologia. O Frei Mauro ressaltou o Testemunho de São Francisco em sua conferência sobre a "Leitura franciscana da Bíblia". Confira mais fotos na galeria! -
Santa Missa em ação de graças ao aniversário natalício do Frei Luís Felipe Marques (OFMConv.)
Na manhã desta quarta-feira, 12, foi celebrada uma Santa Missa em ação de graças ao aniversário natalício do Frei Luís Felipe Marques (OFMConv.). A Eucaristia foi presidida pelo aniversariante e concelebrada pelo Ministro Provincial, Frei Marcelo Veronez (OFMConv.) e pelos frades Mayko Ataliba (OFMConv.) e Beneval Soares (OFMConv.). Durante a homilia, o Frei Mayko falou sobre a importância da fraternidade e do cuidado com os irmãos referindo-se ao serviço à vocação realizado pelo formador Frei Luís. “A amizade e o Amor ao próximo foram os caminhos ensinados por Cristo e que, posteriormente, foram cultivados por São Francisco”, expressou ele. A Capela São Francisco de Assis, da Casa de Formação de Pós Noviciado de mesmo nome, estava cheia de irmãos e irmãs em Cristo que ansiavam celebrar o Corpo do Deus Filho e também parabenizar o frade aniversariante pela graça de mais um ano vivido em prol da divulgação do carisma franciscano. Estiveram presentes os formandos da casa, os pré-noviços da Província, os frades da região, as irmãs clarissas e os fiéis próximos ao trabalho da Ordem. Logo após a Santa Missa, todos e todas encontraram-se no refeitório do Pós-Noviciado. Em um momento de união e alegria fraterna, compartilharam o almoço e o dom da vida do irmão. Confira mais fotos na galeria abaixo! -
UFRATER: diretores de obras franciscanas se reuniram hoje (13) com o provincial e ecônomo
Aconteceu hoje, 13, uma reunião com os frades diretores de obras na União Franciscana de Educação e Cultura (UFRATER). Estiveram presentes junto ao Provincial e ao Ecônomo, Frei Marcelo Veronez e Frei Hoslan Guedes, o Frei Henrique Mendonça (OFMConv), diretor do Colégio Santo Antônio (CSA), na Cidade Ocidental (GO), Frei Israel Sobrinho (OFMConv), diretor do Centro Educacional São José (CESJ), em Águas Lindas (GO) e o Frei Luís Felipe Marques (OFMConv), reitor do Instituto São Boaventura (ISB), em Brasília (DF). Na ocasião, os frades se encontraram para compartilhar a situação em que estão as obras da UFRATER. Foi abordada, de maneira discursiva, a forma sobre como vêm sendo realizado o trabalho nestes locais e, ainda, foi feita também, uma avaliação da perspectiva de como serão tomadas as futuras decisões. Toda esta análise foi baseada em uma retrospectiva dos pontos fortes e daqueles que precisam ser revisados e melhorados no trabalho franciscano. A reunião também foi um momento para o Provincial dar as boas-vindas ao Frei Felipe, recém nomeado reitor do ISB, e também ao Frei Hoslan que, além de Ecônomo Provincial, foi nomeado tesoureiro das três instituições administradas pela UFRATER. Saiba mais sobre a UFRATER, clique aqui. -
Virei amanhã! As antífonas maiores do tempo do Advento
As comunidades eclesiais, ao longo do ano litúrgico, fazem memória dos mistérios da salvação e, com isso, somos repletos da graça santificante de Deus (cf. SC, n.102). O ano litúrgico é, de fato, um “pedagogo” que conduz nossas comunidades para “beber do manancial da salvação” (Is 12,3). Assim, estamos no início de um ano litúrgico e a liturgia chama esse precioso tempo de Advento. O termo “Advento” (adventus, em latim) significa “vinda”, “chegada”. É uma palavra de origem pagã que indicava a vinda anual de uma divindade ao templo. Passando o termo para o uso cristão, o usamos para nomear este primeiro momento do ano litúrgico. É um tempo de preparação para as solenidades do Natal do Senhor, memória da sua primeira vinda (Advento histórico) e feliz expectativa da segunda vinda (Advento escatológico) na realização completa do plano salvífico de Deus. A memória de um passado que, no presente, nos leva a contemplar a glória do futuro. O advento é o tempo muito caro, tempo nosso, tempo da sentinela… que deseja acordar o Senhor que parece dormir. O advento é, portanto, o tempo de desejo, aspirações, esperanças e expectativas. Com isso, pedagogicamente, o tempo do advento pode ser dividido em duas partes. A primeira parte que vai das vésperas do primeiro domingo até 16 de dezembro, fazemos memória, enquanto esperamos vigilantes, da segunda vinda. Assim, rezamos no prefácio do Advento (I): “revestido da nossa fragilidade, ele veio a primeira vez para realizar seu eterno plano de amor e abrir-nos o caminho da salvação. Revestido de sua glória, ele virá uma segunda vez para conceder-nos em plenitude os bens prometidos que hoje, vigilantes, esperamos”. A segunda parte, de 17 a 24 de dezembro, visa de modo mais direto a preparação do Natal do Senhor (cf. NALC, 42), como rezamos no prefácio previsto para esses dias: “predito por todos os profetas, esperado com amor de mãe pela virgem Maria, Jesus foi anunciado e mostrado presente no mundo por são João Batista. O próprio Senhor nos dá a alegria de entrarmos agora no mistério do seu Natal, para que sua chegada nos encontre vigilantes na oração e celebrando os seus louvores”. Nesta segunda parte, que são os últimos dias do advento, nas vésperas, as antífonas do Magnificat são especiais; são sete e nos ajudam a aproximarmo-nos do mistério da encarnação do Filho de Deus com admiração, estupor e fé. Segundo Pierre Journel, conhecido liturgista francês, “a liturgia do advento chega ao seu auge com as grandes antífonas”. Todas iniciam com uma exclamação de admiração, em latim ou em português, “Ó”. Por isso, as chamamos de antífonas do “Ó” ou antífonas maiores. Inclusive, em alguns lugares esses dias foram considerados como a “semana do Ó” indicando uma devoção particular a Nossa Senhora do Ó. Parece-nos que eram já cantadas no século VIII, na Gália. Porém, Amalário, bispo de Metz e Trier, no século XI, afirmava que foram compostas em Roma e levadas à Gália. Assim, alguns autores, as atribuem ao Papa Gregório Magno, que morreu em 604. A beleza e a profundidade teológica destas antífonas querem revelar a personalidade D’Aquele que vem, esperança de Israel e de toda a humanidade. Apropriando-se das antigas imagens bíblicas, estas antífonas enumeram os títulos divinos do Verbo encarnado, os títulos messiânicos do Antigo Testamento: Ele é a “sabedoria que sai da boca do altíssimo” (cf. Sab 7, 28-30; 8,1), o “Senhor” (em hebraico Adonai e em grego Kyrios), a “raiz de Israel” (cf. Is 11,1-2.10; Ap 22,16; Rm 15,12), a “chave de Davi” (cf. Is 22, 20-22; Ap 3,7), o “astro que surge (oriente), esplendor da luz eterna, sol de justiça” (cf. Is 9,1; 42,6; Ml 3,19-20; Lc 1,78-79), o “rei das nações, esperado por todos, pedra angular que une os povos” (cf. Is 28, 16; Sal 118,22; Zc 14,9; Ap 15,3-4), o “Emanuel” (cf. Is 7,14; Mt 1,22), a “esperança e salvação de todos”. Antes, tais antífonas eram cantadas somente nas vésperas. Agora, o missal de Paulo VI as colocou como versículos da aclamação ao evangelho dos mesmos dias. Aclamar com estes títulos bíblicos o Cristo que nos fala no evangelho, ajudará a fixar o olhar naquilo que estamos celebrando no Advento e Natal, o “Deus conosco” que vem para salvar-nos, tirar-nos da escuridão e libertar-nos do mal. Em seu conjunto, tempos atrás, alguém descobriu que as antífonas formam um acróstico: se tomarmos a primeira letra de cada antífona em ordem inversa no original em latim (Emmanuel, Rex, Oriens, Clavis, Radix, Adonai e Sapientia), forma-se a expressão latina “ERO CRAS”, isto é, “estarei amanhã”, ou “virei amanhã”. E R O C R A S M E R L A D A M X I A D O P A E V I N I N N I X A E U S S I N E T L I A 17 dezembro O Sapientia Ó Sabedoria, que saístes da boca do Altíssimo, e atingis os confins de todo o universo e com força e suavidade governais o mundo inteiro: oh vinde ensinar-nos o caminho da prudência! 18 dezembro O Adonai Ó Adonai, guia da casa de Israel, que aparecestes a Moisés na sarça ardente e lhe destes vossa lei sobre o Sinai: vinde salvar-nos com o braço poderoso! 19 dezembro O Radix Iesse Ó Raiz de Jessé, ó estandarte, levantado em sinal para as nações! Ante vós se calarão os reis da terra, e as nações implorarão misericórdia: Vinde salvar-nos! Libertai-nos sem demora! 20 dezembro O Clavis David Ó Chave de Davi, Cetro da casa de Israel, que abris e ninguém fecha, que fechais e ninguém abre: vinde logo e libertai o homem prisioneiro, que nas trevas e na sombra da morte está sentado. 21 dezembro O Oriens Ó Sol nascente justiceiro, resplendor da luz eterna: oh, vinde e iluminai os que jazem entre as trevas e, na sombra do pecado e da morte, estão sentados! 22 dezembro O Rex Gentíum Ó Rei das nações, Desejado dos povos; Ó Pedra angular, que os opostos unis: Ó, vinde e salvai este homem tão frágil, que um dia criastes do barro da terra. 23 dezembro Ó Emmanuel Ó Emanuel: Deus-conosco, nosso Rei Legislador, Esperança das nações e dos povos Salvador: Vinde enfim para salvar-nos, ó Senhor e nosso Deus! Assim, a Igreja contempla o mistério de um Deus que vem à nossa história e acreditando com esperança nessa vinda, com insistência repete nesses dias, na conclusão das antífonas: Vem! Vinde! Uma ação simbólica em forma de pedido para que a vinda de Deus na nossa vida tenha força sacramental e sacramentalizadora. Com isso, o advento é um contínuo convite a nutrir-se da espera viva do retorno do Esposo, Cristo, por quem a Esposa, a Igreja, grita: “Vem, Senhor Jesus” (Ap 22,20), invocação que atravessa todo esse período do ano litúrgico e que a liturgia das horas coloca frequentemente nos nossos lábios: “Vem, Senhor, Jesus”; “Vem, Senhor, não demores”; “Vem, Senhor, fica conosco”; “Vem, Senhor, e salva-nos”; “Venha o teu reino, Senhor” (cf. Matias Augé, L’anno litúrgico, p. 210). Essas antífonas resumem os sinais, as esperanças, as necessidades da humanidade de Israel pela boca dos profetas, mas também dos cristãos e dos homens de hoje: justiça, liberdade, orientação, alegria, unidade, paz e sabedoria… Expressar a Deus esses desejos é a sacramentalidade do tempo do advento. Portanto, tais antífonas não deveriam passar despercebidas nesses dias, sobretudo, para aqueles que não têm o hábito de celebrar a liturgia das horas. Devemo-nos aproveitar delas, pois a teologia e a espiritualidade presentes ajudam a aumentar a nossa fé, justamente porque aquilo que a Igreja ora é aquilo que a Igreja acredita. Rezar ou cantar tais antífonas pode nos ajudar a entrar melhor no clima do Natal e a dar entonação cristológica e eclesiológica à festa que se aproxima. Fonte: Centro de Liturgia. Autor: Frei Luis Felipe C. Marques (OFMConv.). Mestre em Teologia Sacramental. Membro do Centro de Liturgia Dom Clemente Isnard.