Frei Vitório Mazzuco (OFM)

  • A identidade franciscana é uma identidade penitencial
    Diz a Legenda dos Três Companheiros “Todos aqueles que os viam se admiravam muitíssimo, pelo fato que, no hábito e na vida, eram diferentes de todos e pareciam quase homens selvagens. Onde quer que eles entrassem, a saber cidade ou aldeia, vila ou casa, anunciavam a paz, animando a todos para que temessem e amassem o criador do céu e da terra e observassem os seus mandamentos. Alguns os ouviam de bom grado, outros, pelo contrário, zombavam deles; quase todos os fatigavam com perguntas, dizendo alguns: “De onde sois?”; outros perguntavam qual era a Ordem deles. Embora lhes fosse trabalhoso responder a tantas perguntas, eles, no entanto, lhes confessavam com simplicidade que eram homens penitentes oriundos da cidade de Assis” (3Comp 37, 4-8). A identidade franciscana é uma identidade penitencial. Todos podemos dizer como os primeiros frades: somos penitentes e viemos de Assis! O Movimento Penitencial inspirou os passos de Francisco de Assis e seus Companheiros primitivos. Penitência não tem conotação de purgação, mas de reconstrução. Há uma dimensão reformadora. Os penitentes não eram contra a ortodoxia, queriam apenas retomar um caminho apostólico mais genuíno, mais próximo da Igreja primitiva. Não era retrocesso, mas um processo de regar uma raiz para que produzisse novos frutos. É um fenômeno laical que não queria criar um confronto com a hierarquia eclesiástica, mas sim viver de modo original a originalidade do Evangelho. É verdade que, quando o novo e o autêntico se revelam, incomodam bastante e, por isso mesmo, por não ser aceito e compreendido, o movimento penitencial experimentou a marca da heresia. Assumiram a pregação, mas não transformaram o Evangelho apenas em sermões, mas em ação para tornar nova a humanidade. Andaram pelos caminhos do campo e chegaram aos centros urbanos levando a Palavra, tornando viva uma religiosidade popular, uma novidade espiritual para um tempo que conhecia apenas coro e púlpito. Mostraram uma grande sensibilidade para a dimensão fraterna da convivência humana. Sair do claustro para o mundo é uma aproximação social. Se a Vida e a Regra é viver o Evangelho, a vida baseada na Regra tem que ser vivida onde o povo está; o testemunho cristão é público, nas ruas e no coração das pessoas. A pregação é religiosa e ética, e todos podem ver a força das virtudes dos frades primitivos na chama da Palavra que neles é espírito, pregação e vida, amor e devoção. Esmola pedida e esmola recebida é esmola partilhada. A dimensão penitencial é uma evangelização sem paredes. Andar por todos os lugares e reunir-se em Capítulos para partilhar maravilhas do que é abandonar-se a Providência. Vestir-se na simplicidade é mostrar-se sem duplicidade. Abraçar a humildade é evitar o poder que esvazia a autoridade. Ser penitente é ser um convertido. A conversão é mudar de caminho, mudar o rumo para encontrar a melhor direção. É um rito de passagem de uma vida anterior para um novo modo de vida. Isto não se dá sem rupturas e sem ascese: é preciso disciplina para abraçar o compromisso de viver um novo modo de ser e de estar no mundo. O convertido sabia estar no eremo, sabia estar nas frestas do lugar solitário e daí sair para ser comunitário, ir para os costumeiros lugares do mundo. Onde estivesse era desapegado, de coração puro e vivendo apenas do estritamente necessário.   Fonte: Carisma Franciscano. Série: Raízes de um Movimento Penitencial. Autor: Frei Vitorio Mazzuco
  • Clara de Assis e de um mundo sem fronteiras
    Clara de Assis não é uma sombra de Francisco de Assis, mas é a sua própria luz. Marca de uma presença e uma personalidade forte que construiu no século XIII uma revolução a partir do Evangelho e nos ensina que Evangelizar é tornar nova a humanidade. É uma mulher de personalidade, muito decidida e corajosa. Mulher de silêncio, contemplação, oração, ação e carinho. Suavidade sem agressividade. Beleza sem alarde. Pobreza com riqueza de amor. Humildade com serviço. Amor enclausurado na liberdade de entregar-se ao Amado. Clara de Assis foi uma mulher muito equilibrada em meio às tensões de seu tempo. Diz Frei José Carlos Pedroso, OFMCap: “Seus aspectos lunares femininos, jogam fortemente com seus aspectos solares masculinos. E suas atitudes demonstram que tinha muita consciência disso. Sabia onde queria chegar e sempre chegou onde queria, sem se afobar e nem destruir nada. Sabia enfrentar os maiores problemas, desmontando-os; valorizava as pequenas coisas sem se perder nelas. Foi bebendo aos pouquinhos a água mais limpa das torrentes que encontrou”. Clara de Assis encontrou o Amor do Esposo Jesus, encontrou o Evangelho vivente Francisco de Assis, encontrou a oração e meditação, encontrou o silêncio que fala de um modo transparente, encontrou a fraternidade amorosa do mosteiro, encontrou modos de gentileza e firmeza. Dos muros de Assis tornou-se um baluarte do modo francisclariano de viver derrubando os muros que atravancam a vida. Clara de Assis, a partir de seu escondimento, viveu entre visões e intuições, entre amor a Deus e a todas as criaturas. Padroeira dos que se ajoelham e contemplam e padroeira da televisão. Clara de Assis e de um mundo sem fronteiras.   Confira outros artigos do Frei Vitório sobre Santa Clara de Assis: O Amor é a única riqueza necessária das primeiras clarissas e Clara de Assis e seus passos rumo à Grande Opção: A decisão espiritual é sempre uma iluminação.   Fonte: Carisma Franciscano. Autor: Frei Vitorio Mazzuco (OFM).
  • Que história é esta de chamar a morte de irmã?
    No Cântico das Criaturas existe o famoso verso de Francisco de Assis, “Louvado sejas, meu Senhor, pela Irmã nossa, a morte corporal, da qual nenhum homem vivente pode escapar”; ou como relata Tomás de Celano, “Convidava também todas as criaturas ao louvor de Deus e, por meio das palavras que outrora compusera, ele próprio exortava ao amor de Deus. Exortava ao louvor até a própria morte, terrível e odiosa para todos, indo alegre ao encontro dela, convidava-a a sua hospitalidade; disse, “Bem-vinda, minha irmã morte!” (2Cel 217,7). Francisco preparou ritualmente sua morte, fez da sua morte uma celebração, um rito de passagem. Por estar plenamente na vida e na totalidade da existência integrou a morte não como um absurdo, mas como parte natural do ciclo da vida. Francisco de Assis é uma afirmação da vida por isso pode encarar a morte como um processo da curva biológica que traça a linha do nascer, crescer, envelhecer, morrer no momento oportuno ou prematuramente. Francisco preocupou-se com a vida e não com a doença e morte. Morre cantando a vida e sua essência. Ao celebrar a morte, ele a encarou de frente como aquela que lhe estendia a mão para concretizar o grande sonho humano: a imortalidade! Ele sabe que não está perdendo nada da vida porque encontrou e ganhou a vida plena que estava dentro de si mesmo. Fez do Amor seu projeto de vida, amar a Deus, amar a humanidade, a fraternidade, amar todos os seres. Esta confraternização universal do Amor não conhece a morte e o morrer. Tudo fez parte de sua vida, inclusive a finitude. Ele pode dizer como Santa Terezinha, “Eu não morro… entro na vida!”. Ele pode dizer como Gabriel Marcel, “Amar é dizer: tu não morrerás jamais!”. Francisco de Assis sente, pensa, sente e age com a certeza de que a morte não é um fim, mas a grande oferenda, a entrega, a restituição de si mesmo para Deus. Conquistou a esperança dos justos, que é imortalizar-se e andar para sempre no florido e fecundo caminho do Paraíso. A força vital que emana de Francisco de Assis o fez dar boas-vindas à Irmã Morte.   Clique aqui e leia o artigo "Quando algum dos nossos termina a caminhada…".  Este é o sétimo artigo da Série “A Morte na Mística Franciscana”, um especial do site Franciscanos para o dia dos finados. Acesse os outros artigos clicando aqui. Fonte: Franciscanos. Autor: Frei Vitório Mazzuco (OFM).
  • Ser irmãos e irmãs na sabedoria e na luz
    A palavra LEIGO foi criada pela concepção eclesiástica para diferenciar de CLÉRIGO. No mundo medieval, clericus era aquele que tinha o privilégio de ser letrado e ter algum acesso ao conhecimento. O leigo era o que ficava fora do conhecimento dado aos nobres, monges e sacerdotes. A força do Franciscanismo surge resgatando a compreensão de leigo integrando-o no acesso ao saber e à pregação, sobretudo no encontro com o Evangelho. Para o franciscanismo, o que é evangelizar? Evangelizar é tornar nova a humanidade e ao beber na força do espírito comum inspirada pelo Evangelho. O franciscanismo usou e usa mais a palavra IRMÃO E IRMÃ. O laicato franciscano instaura a Irmandade Fraterna e a Fraternidade de Irmãos e Irmãos. Fraternidade é estar junto dos que amam de um modo forte e igual. É a comunidade dos que amam o belo e bom, o justo, a paz e o bem. O que caracteriza este laicato irmanado? O franciscanismo é gerado da mente, do coração e das práticas de um RESTAURADOR que deseja dar uma contribuição original na reconstrução da humanidade, da sociedade, da Igreja e do mundo. O laicato para nós é o estar no mundo como protagonistas do Reino de Deus. É uma escolha para transformar e escolher sempre o melhor para instaurar a vontade de Jesus: “Venha o teu Reino!” (Mt 6,10) para fazer valer a convocação do Evangelho: “Buscai primeiro o Reino de Deus e a sua justiça e todas as coisas (os bens necessários para a vida) serão dados em acréscimo”. (Mt 6,33 e Lc 11,14). Isto determina um novo modo de ser e de estar na vida, isto é, estar no reino da Graça. É na história humana que se edifica o Reino, que desde os tempos bíblicos concretiza anseios de abundância e plenitude, de saúde física e espiritual, de prosperidade, de paz e alegria, de convivência harmoniosa na fraternidade em oposição ao mal, ao medo e a fatalidade (Is 35, 5-6). Jesus cumpre os projetos do Reino: “Ide contar a João o que ouvis e vedes: os cegos recuperam a vista, os coxos andam, os leprosos são purificados e os surdos ouvem, os mortos ressuscitam e os pobres são evangelizados. E bem-aventurado aquele que não se escandalizar por causa de mim” (Mt 11,2-6). ‘Cumpriu-se o tempo e o Reino de Deus está próximo. Arrependei-vos e crede no Evangelho” (Mc 1,15). Francisco de Assis, ao abraçar o Evangelho, abraça para todas as três Ordens o projeto de Jesus. Irmão e Irmãos não são coadjuvantes ou espectadores, mas protagonistas do Reino. “Vós sois o sal da terra. Ora se o sal perde o seu sabor, com que salgaremos? Vós sois a luz do mundo. Não se pode esconder uma cidade situada sobre o monte” (Mt 5,13 a 16 e Lc 14,34). Quem são os Irmãos e Irmãs na Sabedoria e na Luz?  São anunciadores do Evangelho cuja Palavra os habita e atravessa seu ser e explode em suas práticas. São os concretizadores do Reino de Deus no mundo. Ser sal e luz é ter um modo de interferir para que o mundo, a história, a eclesiologia e a sociedade melhorem. É sermos arautos das Bem-Aventuranças: olhar para frente e caminhar, colocar a mão no arado, sair da estagnação, ir de cabeça erguida, construir nova humanidade resgatada de tanta miséria, e uma vontade atuante de mudar e criar uma Fraternidade saudável. Ser sal é ser sabor, mistura, tempero, gosto, conservar não para ficar no mesmo, mas conservar para purificar e não deixar apodrecer. É dar um gosto novo a vida total da humanidade. Gosto de amor, gosto de Deus, gosto de convivência. O sal não se esconde no cantinho da travessa, mas se mistura, é quase que insubstituível. Ser sal é ser fonte de sabor e significado. Ser luz é não se esconder, não diminuir o brilho do pessoal e do comum. Luz que não brilha não cumpre a tarefa pela qual existe. É ser cada dia aquele que volta às fontes iniciáticas do batismo. Batizado quer dizer iluminado. Chama acesa no Círio Pascal, das mãos apadrinhadas para ser passada de mão em mão. O Evangelho diz que não se esconde a cidade que brilha sobre o monte. É fazer brilhar a civilização dos cidadãos do Reino. Se falta luz no centro, brilhe lá, se falta luz no bairro, brilhe lá. Não deixe que o poder, a mídia e o mercado decida quem deve brilhar ou ficar apagado. A metáfora da luz é forte no AT e no NT. “Põe-te em pé, resplandece, porque a tua luz é chegada, a glória de Deus raia sobre ti. As nações caminharão sobre ti” (Is 60,1-3). Ser sal e luz é brilhar no gosto das boas obras. Ser sal e luz onde está a família, a rua, a cidade, o trabalho, a ação cultural, a comunicação, os movimentos coletivos, a defesa das pessoas. Defender a pessoa é defender a humanidade. Francisco de Assis foi um homem leigo que viveu de pessoa em pessoa para atingir toda a humanidade com seu jeito fraterno. (Cf pg 124-125 do Documento da CNBB, ( “Sujeitos Eclesiais – sal da terra e luz do mundo”). Não podemos viver das glórias de uma obra que nossos Irmãos e Irmãs construíram no passado. Somos a animação cristã e franciscana da sociedade civil. “O que naquele tempo de despertar religioso deu ao movimento de Francisco particular força reformadora, é o seu caráter leigo. Francisco e seus irmãos podiam ter sido atraídos para dentro da cerca clerical; o povo, porém, não tomou conhecimento disso. O que o povo via, eram pregadores paupérrimos, cuja palavra pouco tinha que ver com a elegante teologia jurídica da época” (Cf Van Doornik, pg 141). Somos um pacífico mundo fraterno de pessoas que vivem e espalham uma convicção e uma vitalidade espiritual. Não sabemos ser sozinhos, mas em Fraternidade, o centro espiritual e social da vida franciscana e cristã. Da fonte de Amor que jorrava do coração de Francisco de Assis e de todos os que estavam com ele, fez o Amor ser concreto. Do coração ao leproso, do leproso aos mendicantes, dos mendicantes aos primeiros seguidores e seguidoras, dos primeiros companheiros ao Papa, ao Sultão, aos ladrões (Fior 26), a Jacoba, a Clara.  Francisco foi sal e luz e deixou isto brilhando em seus olhos reveladores de uma íntima vida pessoal e coletiva com Deus e seus sonhos. “Presta atenção, ó homem, à grande excelência em que te colocou o Senhor Deus, porque te criou e te formou à imagem do seu dileto Filho segundo o corpo e à sua semelhança segundo o espírito” (Adm 5). Francisco de Assis não criou obra assistencial para leprosos, mas deu abraço no leproso. Francisco de Assis nunca deu esmola sem dar-se a si mesmo junto com a esmola. Francisco de Assis não vê uma obra boa a ser cumprida, mas uma criatura a ser percebida e ajudada. Francisco de Assis não foi alguém preso a dor, mas sofreu os sofrimentos de Jesus Cristo e de todos os que sofrem. Francisco de Assis não amou uma humanidade abstrata, mas pessoa concreta do pobre. “E assim, a excessiva afeição da caridade o elevava às realidades divinas de modo que a afetuosa benignidade dele se estendia aos companheiros da natureza da graça. Pois que a piedade do coração o tornara irmão das outras criaturas, não se deve admirar se a caridade de Cristo o tornava mais irmão dos que estão marcados com a imagem do Criador e remidos pelo sangue do Autor. Não se julgava amigo de Cristo se não cuidasse das almas que ele remiu. Dizia que nada deve ser colocado à gente da salvação das almas” (LM IX,4). Por causa dele não somos uma ONG, mas uma ORDEM. Ser Frades, Clarissas e Seculares, e não esquecer que a OFS é o maior movimento leigo do mundo. E estas Ordens em três grandes famílias carregam a missão de misturar-se no mundo e acender no mundo o amor humanizado de Deus. Somos uma força de sal e luz, e a nossa ação nos tempos atuais deve ser incisiva e em perfeita coerência com a Regra que abraçamos e com a visão franciscana da vida. Devemos recuperar com muita força o conteúdo e a dinâmica orientativa do preceito do Amor e o apelo de cada página do Evangelho. Temos que recuperar qualquer barreira que divide (Cf Lm VIII). Em mundo de crises mostrar a nossa presença de discernimento e de lucidez crítica. “O zelo pela salvação do irmão, o qual precedia da fornalha da caridade como espada afiada e flamejante, traspassava o íntimo de Francisco. Chorava com tanta ternura de comiseração, cada dia, como uma mãe, e as dava à luz. Daí, o empenho que tinha na oração, a corrida à pregação, o excesso em dar exemplo, pelo fato de que não se julgava amigo de Cristo, se não cuidasse das almas que ele remiu” (Lm VIII). Para crise política: estar do lado da democracia inspirada em valores cristãos e estar nos espaços autênticos de participação. Nunca dizer sim a regimes de coerção de forças golpistas e ditatoriais, isto vai contra nossos princípios franciscanos e cristãos. Para a crise econômica: mostrar a contradição que existe em concentrar poder econômico a poucos. A Pobreza abre o ter para todos. Para a crise social: mostrar o que aprendemos em nossa Formação. Para a crise cultural: mostrar os valores que acreditamos e que tem herança de oito séculos sem deixar de ser atual. Somos Ordens antigas com mentalidade sempre nova. Para a crise religiosa mostrar que temos uma Espiritualidade original e forte. Para a crise jurídica: mostrar o Evangelho. E para todos os momentos viver esta proposta: “Tinha grande desejo de que tanto ele como os seus irmãos transbordassem em tais obras pelas quais Deus fosse louvado e dizia-lhes: “Assim como proclamais a paz com a boca, assim também a tenhais nos vossos corações. Ninguém por meio de vós seja provocado à ira ou ao escândalo, mas todos sejam provocados pela vossa mansidão à paz, à benignidade e à concórdia. Pois para isso fomos chamados, para cuidar dos feridos, enfaixar os que têm fratura e chamar de volta os que erram" (3Comp 14,58).   Via: Carisma Franciscano. Autor: Frei Vitório Mazzuco (OFM).