São Francisco

  • A Mensagem Central da Bíblia
    Qual é, em poucas palavras, a mensagem central da Bíblia? A resposta não é fácil, pois depende da vivência. Se você gosta de uma pessoa e alguém lhe pergunta, “Qual é, em poucas palavras, a mensagem desta pessoa para você?”, aí não é fácil responder. O resumo da pessoa amada é o seu nome! Basta você ouvir, lembrar ou pronunciar o nome, e este lhe traz à memória tudo o que a pessoa amada significa para você. Não é assim? Pois bem, o resumo da Bíblia, a sua mensagem central, é o Nome de Deus! O Nome de Deus é Javé, cujo sentido Ele mesmo revelou e explicou ao povo (cf. Ex 3,14). Javé significa Emanuel, isto é, Deus conosco. Deus presente no meio do seu povo para libertá-lo.Deus quer ser Javé para nós, quer ser presença libertadora no meio de nós! E Ele deu provas bem concretas de que esta é a Sua vontade. A primeira prova foi a libertação do Egito. A última prova está sendo, até hoje, a ressurreição de Jesus, chamado Emanuel (cf. Mt 1,23). Pela ressurreição de Jesus, Deus venceu as forças da morte e abriu para nós o caminho da vida. Por tudo isso é difícil resumir em poucas palavras aquilo que o Nome de Deus evocava na mente, no coração e na memória do povo por Ele libertado. Só mesmo o povo que vive e celebra a presença libertadora de Deus no seu meio, pode avaliá-lo. Na nossa Bíblia, o Nome Javé foi traduzido por Senhor. É a palavra que mais ocorre na Bíblia. Milhares de vezes! Pois o próprio Deus falou, “Este é o meu Nome para sempre! Sob este Nome quero ser invocado, de geração em geração!” (Ex 3,15). Faz um bem tão grande você ouvir, lembrar ou pronunciar o nome da pessoa amada. Aquilo ajuda tanto na vida! Dá força e coragem, consola e orienta, corrige e confirma. Um Nome assim não pode ser usado em vão! Seria uma blasfêmia usar o Nome de Deus para justificar a opressão do povo, pois Javé significa Deus libertador! O Nome Javé é o centro de tudo. Tantas vezes Deus o afirma: “Eu quero ser Javé para vocês, e vocês devem ser o meu povo!” Ser o povo de Javé significa: ser um povo onde não há opressão como no Egito; onde o irmão não explora o irmão; onde reinam a justiça, o direito, a verdade e a lei dos dez mandamentos; onde o amor a Deus é igual ao amor ao próximo. Esta é a mensagem central da Bíblia. É o apelo que o Nome de Deus faz a todos aqueles que querem pertencer ao seu povo.       Este artigo é o quarto da série do site Franciscanos para o Mês da Bíblia: O Evangelho pautou a vida de São Francisco de Assis. Fonte: Franciscanos. Texto da “Bíblia Sagrada”, da Editora Vozes.
  • Impressão das chagas de nosso Pai Seráfico São Francisco
    Em 17 de setembro, a família franciscana em todo o mundo celebra a a festa da impressão das Chagas, também chamada de Estigmas de São Francisco de Assis. Em 1224, no Monte Alveme, Francisco recebe os estigmas da paixão do Senhor. Deus o apresenta ao mundo como exemplo de vida cristã, como convite a seguir o Evangelho. Francisco tinha Cristo no coração, nos membros e nos lábios, e Jesus o imprimiu o último selo também em seus membros. A impressão das chagas, em seu corpo, não foi senão a coroação de toda uma vida. Desde o início de sua conversão, ele se deslumbrava ao contemplar o Cristo de São Damião, tão humano, tão despojado, tão pobre e crucificado. Por isso, este Cristo ocupa o lugar central de toda sua vida, “Não quero gloriar-me a não ser na cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo” (Gal 6,14). Foi ante este Cristo, que compungido rezou “Iluminai as trevas de meu espírito, concedei-me uma fé íntegra, uma esperança firme e um amor perfeito” (OrCr). E continua “Nele está todo perdão, toda graça e toda glória, de todos os penitentes e justos” (RegNB 30).   As chagas São Francisco, dois anos antes de receber a visita da Irmã Morte, iniciou, num lugar elevado e solitário chamado Monte Alverne, um jejum de 40 dias, em honra do arcanjo São Miguel, infundiu-se nele a suavidade de elevada contemplação, e, inflamado em desejo das coisas celestes, começou a perceber dons vindos do alto. Certa manhã, nas proximidades da festa da Exaltação da santa Cruz, rezando na encosta do monte, viu uma espécie de serafim, tendo seis asas brilhantes e flamejantes, do alto dos céus. Com voo célere pelo ar, chegando perto do homem de Deus, apareceu não só alado, mas crucificado. Ao ver isto, admirou-se e, enquanto sentia enorme alegria diante de Cristo que lhe aparecia, atravessava-lhe a alma como uma espada de dor compassiva. A visão desapareceu e inflamou-o interiormente por seráfico ardor, marcou-lhe a carne externamente com uma efígie do Crucifixo, como se à força antecedente de liquefazer do fogo se seguisse a impressão de um sigilo. Logo, nas mãos e nos pés começaram a aparecer-lhe os sinais dos cravos, as cabeças dos quais apareceram na parte inferior das mãos e na superior dos pés e suas pontas estavam em sentido contrário. Também o lado direito, como se fosse transpassado por uma lança, apresentava rubra cicatriz que frequentemente vertia o sangue sagrado.   O significado Um erro comum é o de ver São Francisco como uma figura acabada, pronta, sem olhar para a caminhada que ele fez até chegar à semelhança perfeita (configuração) com o Cristo. O que ocorreu no Monte Alverne é o cume de toda uma vida, de uma busca incessante de Francisco em “seguir as pegadas de Jesus Cristo”. Francisco lançou-se numa aventura, sem tréguas, na qual deu tudo de si: a vontade, a inteligência e o amor. As chagas significam que Deus é Senhor de sua vida. Deus encontrou nele a plena abertura e a máxima liberdade para sua presença. O segundo significado das chagas é o de que Deus não é alienação para o ser humano, ao contrário, é sua plena realização e salvação. Colocando-se como centro da própria vida é que o homem se aliena e se destrói; torna-se absurdo para si mesmo no fechamento do seu ‘ego’. O homem só encontra sua verdadeira identidade, sua própria consistência e o sentido de sua existência em Deus. E Francisco fez esta descoberta: Jesus Cristo foi crucificado em razão de seu amor pela humanidade – “amou-os até o fim” –, e ele percorre este mesmo caminho. O terceiro significado: as chagas expressam que a vivência concreta do amor deixa marcas. A exemplo de Cristo, Francisco quis suportar/carregar e amar os irmãos para além do bem e do mal (amor incondicional). Essa atitude o levou a respeitar e acolher o ‘negativo’ dos outros mantendo a fraternidade apesar das divisões. Esse acolher e integrar o negativo da vida é a única forma de vencer o ‘diabólico’, rompendo com o farisaísmo e a autosuficiência, aniquilando o mal na própria carne. Só assim, o homem é, de fato, livre, porque não apenas suporta, mas ama e abraça o negativo que está em si e nos outros. O quarto significado: seguir o Cristo implica em morrer um pouco a cada dia: “Quem quiser ser meu discípulo, tome a sua cruz a cada dia e me siga” (Lc 9,23). Não vivemos num mundo que queremos, mas naquele que nos é imposto. Não fazemos tudo o que desejamos, mas aquilo que é possível e permitido. Somos chamados a viver alegremente mesmo com aquilo que nos incomoda, vencendo-se a si mesmo e integrando o ‘negativo’, de modo que ele seja superado. Nós seremos nós mesmos na mesma medida em que formos capazes de assumir nossa cruz. As chagas de São Francisco são as chagas de Cristo, e elas nos desafiam: ninguém pode conservar-se neutro, sem resposta diante da vida.   Saudação do Ministro Provincial Prot. 091/2018                                                                          Brasília, 17 de setembro de 2018   Saudação do Ministro Provincial por ocasião da Festa da Impressão dos Sagrados Estigmas de Pai São Francisco   “Ó São Francisco, estigmatizado do Monte Alverne, o mundo tem saudades de ti como imagem de Jesus Crucificado. Tem necessidade do teu coração aberto para Deus e para o homem, dos teus pés descalços e feridos, das tuas mãos traspassadas e implorantes.”. S. Joao Paulo II. Queridos confrades, pré-noviços, postulantes, Irmãs Clarissas e Fraternidades da OFS, amigos(as) de São Francisco, Paz e bem! No dia 17 de setembro de 1224, após a Festa da Santa Cruz, durante a Quaresma de São Miguel, o Seráfico Pai foi marcado com a Chagas do Filho de Deus, Nosso Senhor Jesus Cristo, como nos recorda São Boaventura: “Francisco era um fiel servidor de Cristo. Dois anos antes de sua morte, havendo iniciado um retiro de Quaresma em honra de São Miguel num monte muito alto chamado Alverne, sentiu com maior abundância do que nunca a suavidade da contemplação celeste... em seus extremos de amor, quis ser crucificado, orava certa manhã numa das partes do monte... quando ele viu descer do alto do céu, um serafim de seis asas flamejantes... Logo começaram a aparecer em suas mãos e pés as marcas dos cravos. Via-se a cabeça desses cravos na palma da mão e no dorso dos pés; a ponta saía do outro lado.” (LM 6) Juntamente com este “singular”  testemunho de S. Boaventura, recordamos de nossa Casa Filial dos Estigmas do Pai Seráfico São Francisco de Goiânia. Aí, estão presentes nossos confrades, Frei Roberto Cândido, Frei Herton, Frei Carlos e Frei Francisco. HáA exatos dois anos da chegada de nossa família franciscana conventual em Goiânia, esta é a festa patronal desta fraternidade, que corajosamente leva adiante a evangelização do povo simples e pobre da periferia. Ali se revelam para nós frades menores conventuais, as chagas da humanidade ferida pela exclusão, pela tristeza e pelo abandono, e na Paróquia de N. S. da Libertação onde os frades servem a Igreja, as chagas de Jesus em Francisco, tornam-se consolo e segurança na fé, crescimento na fraternidade e partilha cristã.  Por esta e outras tantas virtudes impressas por Jesus Cristo em São Francisco, os sagrados estigmas tornam-se para nós modelo e ápice de uma vida de penitência, de coragem e de dedicação ao Evangelho. Parabéns aos confrades de Goiânia.! Agradeço a Deus todo poderoso e a São Francisco, nosso Pai intercessor, por toda a nossa Ordem e Província, cada frade singularmente, cada noviço, pré-noviço, postulantes, Clarissas por nós assistidas e fraternidades da OFS.  Que as Chagas do Seráfico Pai sejam para nós, caminho de chegada e enamoramento eterno por Jesus, doação que hoje só podemos exercer pelo serviço e pela vocação de irmãos menores. Essa é a continuação da vida de penitência que S. Francisco nos deixou. Conquistemos esse espaço no seio da Igreja e da sociedade!     Frei Marcelo Veronez, OFMConv. Ministro Provincial   Fontes: Frades Franciscanos, Franciscanos (aqui e aqui) e OFS.   Faça abaixo o download do PDF da Saudação do Ministro Provincial em ocasião da Festa dos Estigmas do Seráfico Pai de 2018. 
  • Inspirado Pela Cruz
    A oração de Francisco de Assis diante do Crucifixo não começa com “Ai de mim” ou alguma triste miséria do coração. Em vez disso, concentra-se na glória e sublime beleza de Deus: altíssimo e glorioso Deus. Apenas dizendo as palavras com um espírito de louvor, meu coração se torna mais leve. Sinto-me como se estivesse envolvido na gloriosa presença de Deus! A oração começa – como toda boa oração deve começar – com palavras de adoração. A adoração tem um jeito de tirar-me da minha autorreferencialidade e ansiedade. A própria adoração ajuda a iluminar a escuridão do meu coração. Agrada-me que Francisco use a palavra coração em vez de mente quando ora, “ilumine as trevas do meu coração”. A palavra mente leva-me muito à minha cabeça. E esse não é o verdadeiro São Francisco. “Coração” é muito São Francisco. O coração sugere as complexidades do amor humano e o mistério do anseio mais íntimo de alguém – com todas as suas alegrias e tristezas.   A visão do amor ardente de Cristo Francisco, naturalmente, tinha um coração muito sintonizado com o mistério do amor transbordante de Deus. Uma vez, enquanto rezava em um lugar solitário, Francisco teve uma visão de Cristo olhando para ele da cruz com um amor tão intenso e ardente que “sua alma se derreteu”, segundo seu biógrafo, São Boaventura. Só podemos acreditar que, após este evento de derreter a alma, cada vez que Francisco orou diante de um crucifixo, ele experimentou um derramamento similar do incrível amor de Deus. E quando Francisco pede em sua oração, “Dai-me uma fé reta”, essa fé, de alguma forma, implicaria essa mesma visão transformadora do coração do amor transbordante de Deus, um amor pelo qual Deus nada retém de nós! Esse é o tipo de fé correta que Francisco – assim como você e eu – solicitamos nesta oração. E essa fé reta, que é o cerne glorioso da autorrevelação de Deus, não ilumina a escuridão de nossos corações? Em seguida, São Francisco pede na oração por “esperança certa” que deriva da “fé reta”. E onde há um lugar melhor para encontrar essa esperança segura do que na ressurreição de Jesus? Os discípulos literalmente testemunharam a esperança certa quando o Cristo Ressuscitado apareceu para eles naquele primeiro domingo de Páscoa. Eu penso especialmente no apóstolo Tomé. O Ressuscitado iluminou de tal maneira o coração obscurecido pela dúvida deste apóstolo que Tomé, em adoração, proclamou sem hesitação “Meu Senhor e meu Deus!” (cf. Jo 20,28). Isso possibilita que São Francisco responda ao amor de Deus com o mesmo tipo de generosidade total. Francisco ainda pede a Cristo “sensibilidade e conhecimento, a fim de que eu cumpra o vosso santo e veraz mandamento”. Esse “mandamento” é realmente o plano glorioso de Deus para que todos os filhos de Deus perseverem no amor de Cristo e um dia ressuscite com Cristo no abraço amoroso de Deus.   A Cruz de São Damião Documentos franciscanos do século XIII indicam que o crucifixo diante do qual São Francisco rezava essa oração não era outro senão o famoso crucifixo na pequena capela de São Damião, perto de Assis. Este amado crucifixo, conhecido pelos seguidores de São Francisco em todo o mundo, é conhecido como a Cruz de São Damião. O corpo de Cristo, tal como pintado nesta cruz, não é sangrento ou torcido em angústia. Em vez disso, seu corpo é bastante luminoso, como se já estivesse ressuscitado, irradiando a plenitude de Deus. Em vez de uma coroa de espinhos, esta imagem de Cristo tem uma auréola gloriosa. Seu corpo, com os braços estendidos, parece estar subindo para o céu. Em resumo, a imagem sugere claramente o Jesus ressuscitado. Se, de fato, era essa a imagem de Cristo sobre a qual São Francisco estava olhando quando esta oração surgiu em seu coração, faz sentido que Francisco se dirigisse a Jesus como “Altíssimo e glorioso Deus!” Óh, glorioso Deus do amor transbordante, ilumine as trevas do meu coração!   Oração de Francisco Antes do Crucifixo Altíssimo, glorioso Deus, iluminai as trevas do meu coração, dai-me uma fé reta, uma esperança certa e uma caridade perfeita; sensibilidade e conhecimento, Senhor, a fim de que eu cumpra o vosso santo e veraz mandamento. Amém.     Este artigo é o primeiro de uma série do site Franciscanos sobre “A Cruz na Mística Franciscana”. Via: Franciscanos. Autor: Frei Jack Wintz.
  • Irmão e Irmã: o encontro de Francisco com uma mulher feita de amor
    Agosto nos traz sempre de novo a figura de uma mulher de Assis, Clara, companheira de Francisco e que será relembrada, segundo o calendário franciscano, no dia 11 deste mês. Eis algumas reflexões sobre ele e ela e aquilo que eles continuam a nos dizer. Com toda certeza, Francisco e Clara, da cidade de Assis não podem ser separados. Os dois nasceram para um mundo novo a partir de uma comum inspiração: ambos arrebatados por Cristo pequeno, amoroso, bondade. Christian Bobin, fecundo escritor francês, poeta em cada linha que escreve, foi vigorosamente aplaudido com o seu “Le Très Bas”, uma ode de amor a Francisco de Assis. Traduzimos uma página da peça estelar de Bobin em que escreve sobre os laços que uniam Francisco e Clara. Em sua imitação ingênua e quase obcecada das Escrituras, Francisco de Assis não podia evitar este encontro com uma mulher feita de amor, sua irmã, seu dublê. Nada dizer a respeito dela senão que os dois se completam como duas colunas que sustentam os arcos de uma abóboda, passando de um para o outro todos os matizes do amor, todas as cores do sonho. A respeito dela pouco se pode acrescentar além do que se diz com essa simples palavra Clara. Seu nome revela o que ela é e o que dela emana: Clara. Clareira, caminho claro, clarividente, relâmpago, limpidez. Todas estas palavras impregnam seu nome, todas essas luzes dela proveem; mocinha de dezesseis anos que os pais se preocupam em dar-lhe casamento, mocinha igual aquelas que encontramos em tantas canções francesas, pássaro rebelde que não quer aprender a música que lhe ensinam, pardal que prefere saltitar pelos caminhos batidos pela chuva, do que se colocar sob as folhas de uma única árvore, de “alta linhagem”. Que queres fazer mais tarde? Muitas vezes fazemos esta pergunta a crianças que não sabem o que quer dizer “mais tarde”, que conhecem apenas o presente e no presente a presença maravilhosa do todo. Com quem você quer se casar mais tarde? pergunta-se àquela cuja beleza inquieta e preocupa. Que o casamento venha, pois, ser um coroamento de uma tal beleza. Mas aquele que ela deseja desposar não está presente e nem estará. Não está perto nem alhures. Está na alturas e no mais baixo, longe e perto… ele é e não é. Como nas histórias das antigas cantigas, a moça deixa a casa dos pais no meio da noite, passa por um porta camuflada, atravancada por pedaços de lenha, afasta galho por galho com suas mãos, sai correndo sob a noite estrelada até aquele havia projetado o rapto, o rei do coração, o príncipe da fuga, Francisco Assis. Eles amam do mesmo amor, são feitos para se entenderem, ébrios do mesmo vinho. Ela troca sua veste cintilante por uma indumentária de gente simples, feita de lã e ei-los anos a fio separados e juntos, ele prendendo nas redes de sua voz os pássaros do céus, os animais dos campos e os homens das cidades e ela atraindo para as redes de Deus moças cada vez mais numerosas, cada vez mais bonitas.   Dois caçadores clandestinos. Dois nômades nas invisíveis propriedades de Deus. Separados como antigamente acontecia nas escolas. Os meninos de um lado e as meninas do outro. Ela, do lado das meninas; ele, do lado dos meninos. Separados nas aparências e nos lugares. Reunidos pelos intermináveis diálogos das almas, por esse encantamento de ter encontrado um interlocutor privilegiado, aquele ou aquela que compreende tudo, mesmo os silêncios, mesmo o que não se saberia dizer para si mesmo no silêncio, o irmão, a irmã sem os quais o tempo passado na terra não seria mais do que tempo, nada de outra coisa. A legenda que sempre diz a verdade para além das provas históricas, que está no sangue das almas, diz que um dia em que Francisco visitava Clara e suas irmãs em seu convento, irrompeu um incêndio, visto de vários lugares da redondeza. A população de Assis que acorreu para apagá-lo, não viu chama alguma, fogo nenhum, apenas Francisco e Clara em torno de uma frugalíssima refeição e uma imensa claridade entre os dois, que não arrefecia.   Santa Clara e São Francisco, dois irmãos que decidiram seguir juntos a radicalidade do batismo.   Ele morrerá antes dela. Isso não tem a menor importância. O amor desde sua vinda, desde seu primeiro frêmito, aboliu os antigos decretos do tempo, suprimiu as distinções de antes e de depois mantendo apenas o hoje eterno dos vivos, o hoje amoroso do amor.   Fontes: Franciscanos via Christian Bobin, “Le Très-Bas”, Gallimard, p. 101-104. Autor: Frei Almir Guimarães.
  • Já estão programados em Juruá, o Novenário e a Solenidade de São Francisco
    De 25 de setembro a 04 de outubro, será celebrado na Paróquia Nossa Senhora de Fátima, em Juruá (AM), o Novenário e a Solenidade de São Francisco de Assis. A celebração terá como tema “Como São Francisco queremos viver nossa missão de batizados”. A novena será iniciada na terça-feira, 25, a partir das 18h com uma passeata partindo da Comunidade de São Francisco. As Santas Missas serão celebradas às 19h (com exceção do domingo, 30, que acontece a partir das 19h30) e, logo após, terá o Arraial que acontecerá todos os dias, com barraquinhas de comidas típicas e brincadeiras. No dia 03 de outubro, será dado o início ao trânsito de São Francisco. E no dia seguinte, o último da solenidade, será realizada a Bênção dos Animais às 09h, em que os fiéis e as fiéis poderão levar seus bichinhos de estimação para serem abençoados. Às 10h, será celebrada a Santa Missa na Comunidade São Francisco, acompanhada da realização de batismos. Mais tarde, às 18h, acontecerá a procissão que tem como ponto de partida a Igreja Matriz, com a celebração da Eucaristia em seguida. A solenidade será encerrada com o Arraial.   Ajude a Missão:  Fundo Missionário ou Missão Kolbe Banco do Brasil Agência: 0452-9 Conta Corrente: 35820-7 CNPJ: 02501906/0001-15   Leia mais sobre a Missão Amazônia aqui. 
  • O Evangelho como ponto de partida
    Francisco parte do Evangelho para reconstruir a vida e parte da vida para confrontar-se com o Evangelho. Esta opção e escolha não seria apenas viver o Evangelho e acolhê-lo em sua vida, mas também anunciá-lo aos seus irmãos. Novamente, em seu Testamento, Francisco escreve: “E depois que o Senhor me deu irmãos, o Senhor mesmo me revelou que eu devia viver segundo a forma do Santo Evangelho” (Test 4,14).Francisco tinha clareza quanto à sua missão: o primeiro movimento é acolher a palavra de Deus, embeber-se dela, aprofundá-la na vida, confrontar-se com ela, para ser luz no caminhar e vigor no viver. E depois, levá-la e transmiti-la ao povo de Deus. E assim, seu dinamismo missionário impele-o a ir ao encontro de todos os homens. Diante do envio e da missão, ele sente a paixão que tem pelo anúncio da Boa Nova.Ele sente a vocação missionária a que Deus o chamou e sente-se feliz e realizado em ser o bom samaritano a difundir esta mensagem, não só aos leprosos, mas à humanidade toda.   Este artigo é o terceiro da série do site Franciscanos para o Mês da Bíblia: O Evangelho pautou a vida de São Francisco de Assis. Fonte: Franciscano. Autor: Frei Atílio Abati. Extraído do livro “Francisco, um encanto de Vida”, Editora Vozes.
  • O que se diz a respeito de Francisco?
    Alguns depoimentos sobre Francisco e aquilo que o fazia viver. Poucos depoimentos que nos ajudam a ir completando o perfil de Francisco. Humanista e humorista: Francisco ao longo de sua vida foi um fenômeno de massa, certamente por seu estilo evangélico, mas também porque era um gênio em termos de comunicação. Captava imediatamente as necessidades e expectativas de quem dele viesse se acercar. Tinha um inato sentido para o espetáculo. Era um artista. Nos tempos de sua juventude cantava pelas ruas e participava das serestas com seus amigos. Depois de sua conversão costumava expressar-se na pregação com movimentos corporais e gestos semelhantes aos dos trovadores e jograis. Se em sua juventude havia sonhado ser cavaleiro, servindo-se da linguagem cavalheiresca da época, depois de sua conversão continuava empregando um vocabulário de palavras e imagens muito diversas da linguagem religiosa habitual. Falava de seus frades como cavaleiros da Távola Redonda, da pobreza como uma noiva. Às vezes pregava com a linguagem de cantigas de amor em voga na época, transformando-as, dando-lhe um sentido religioso.  Conseguiu superar a dicotomia entre sagrado e profano, laical e clerical, linguagem profana e linguagem eclesiástica. Certa vez, ante suas admiradoras do sexo feminino, improvisou uma pregação feita apenas de gestos. Sua conversão ao Evangelho não tirou dele este aspecto jovial e festivo. Ao contrário, chegou mesmo a potenciá-lo. Para ele, Deus era uma festa e dançava quando dele se aproximava ou d’Ele falava.  Sua própria vida era permanentemente uma celebração litúrgica pelos campos e nas cidades.  Para ele, a natureza era o templo visível da divindade onde ele celebrava espontaneamente a liturgia cósmica. Inventou um estilo novo de encarnar o Evangelho unindo intimamente a coerência da mensagem de Jesus com seu jeito jovial e festivo. A santidade com a poesia. O humanismo com o humorismo. A religião com a estética. Conseguiu revestir o cristianismo de alegria.  Seu estilo de vida tão original foi bem captado pelas multidões que sempre sabem descobrir o essencial da vida. (José Antonio Merino, Encarte de Vida Nueva n. 2263) Francisco e o Papa Francisco: Tomei o nome de Francisco por guia e inspiração no momento da minha eleição para bispo de Roma. Acho que Francisco é o exemplo por excelência do cuidado pelo que é frágil e por uma ecologia integral, vivida com alegria e autenticidade. É o santo padroeiro de todos os que estudam e trabalham no campo da ecologia, amado também por muitos que não são cristãos. Manifestou uma atenção particular pela criação de Deus e pelos mais pobres e abandonados. Amava e era amado por sua alegria, a sua dedicação generosa, o seu coração universal. Era um místico e um peregrino que vivia com simplicidade em uma maravilhosa harmonia com Deus, com os outros, com a natureza e com si mesmo. Nele se nota até que ponto são inseparáveis a preocupação pela natureza, a justiça para com os pobres, o empenhamento na sociedade e a paz interior. (Laudato Si’”, 10).   Não era isso que fazia Francisco viver? Em torno dos estigmas: Estigmas, sinais de um desejo de privação de toda posse:  Aquele que tem as mãos estigmatizadas não pode mais assenhorear-se do mundo como antes. Aquele cujos pés estão estigmatizados não pode mais caminhar pela terra como conquistador e dominador. Aquele tem o lado atingido não pode mais ocultar seus dons na caixa torácica, nem mesmo seus ressentimentos e remorsos.  O pássaro da liberdade encontra uma fresta para se lançar livremente por montes e vales. O homem que assim se reconhece, atingido em sua carne, nada tem de próprio, distribui os bens. A natureza é reencontrada em inédito esplendor. A fraternidade originária esconde o ardor divino que o provoca. Estigmas, forma de pregação - Os estigmas constituem uma forma de pregação quando os lábios emudecem.  Os estigmas constituem um foco para a palavra do silêncio, aquela que se submete a todas as criaturas para melhor ser atendida. Os estigmas são os lábios e pálpebras da carne que revelam e contemplam as profundezas no momento em que tudo se cala, onde o ambiente manda que se cale, onde acontece a cegueira e não um mero mal enxergar. Quando o contencioso com os frades se torna mais forte, que o destino da Fraternidade franciscana parece incerto, quando o Evangelho corre o risco de ser uma utopia ou simplesmente um ingênuo sonho, Francisco toma a decisão de subir o Alverne e viver intensa solidão. Finalmente, no silêncio do intercâmbio misterioso, acontece um face a face, a partilha de sofrimento do amigo com o Amigo. Nada podemos dizer. Simplesmente meditar em nosso coração.   Via: Franciscanos. Autor: Frei Almir Guimarães (OFM). Fontes: Bernard  Forthomme, Par excès d’amour. Les stigmates de François d’Assise, Ed. Franciscaines, Paris  2004, p  28-29
  • O Sultão e o Santo: exibição no Sacro Convento, em Assis, do filme sobre o encontro São Francisco com Melek-al-Kamel
    Foi um momento especial em Assis, bem no meio da agitada espera da chanceler alemã Angela Merkel (que no dia seguinte receberia a "Lâmpada da Paz" por seu trabalho de conciliação entre os povos, na presença do presidente colombiano e Prêmio Nobel da Paz, Juan Manuel Santos, veja aqui); a exibição do filme "O sultão e o santo" poderia ter passado despercebida ou mesmo sufocada, mas o resultado foi bastante diversificado. Após a introdução e a saudação do Frei Domenico Paoletti, Vigário da comunidade e promotor da exibição, deu a sua palavra ao filme e ao diretor, que contou a intuição realizada em Assis há quarenta anos, olhando para o afresco do encontro entre São Francisco e o Sultão, em 1219. Uma cena que, devido a eventos recentes de violência crônica, veio com a urgência de ser contada como uma contranarrativa ao medo e ao confinamento: o encontro é realmente possível, já aconteceu, só temos que guardar com cuidado a sua herança e continuar a promovê-la com criatividade. Conversando com Frei Silvestro Bejan (CEFID), o diretor compartilhou sua experiência pessoal de encontro e coexistência enquanto escrevia o personagem do filme. O sultão Al-Kamil e São Francisco estavam abertos para reconhecer e acolher o presente um no outro, para mudar as suas mentalidades naquele encontro. A partir daí, "aprendi - disse Kronemer - que a solução mais fácil para enfrentar o diferente é a partir do ódio e da violência. No entanto, é muito mais difícil e mais demorado responder com amor, mas é também verdade que esta é a maneira mais enriquecedora. Isto é o que Jesus ensinou quando disse para dar a outra face”. Foi assim que o diretor (que é muçulmano) reintegrou aos frades e a todos os presentes a uma das páginas mais intensas do Evangelho, sendo aplaudido por todos pelo testemunho e esforço dos franciscanos no mundo para construírem pontes que fomentem a unidade e a paz. O evento foi encerrado com a apresentação da "Lâmpada da Paz" (confira a premiação aqui) ao diretor e aos convidados da Rede Franciscana de Ação, Patrick Carolan e Irmã Marie lucey, como um sinal de reconhecimento de seu compromisso com a paz, que os inclui entre os que eles seguem e espalham o espírito de franciscano.
  • São Francisco e o Irmão Lobo: quando a diferença não é mais problema
    Certa vez, São Francisco foi visitar a cidade de Gubbio, na Itália. Assim que chegou, Francisco soube que os moradores enfrentavam problemas com um lobo selvagem que estava a atacar diversos animais das criações locais e também até as próprias pessoas. Apavorados, ninguém se atrevia a passar os muros da cidade. O Pai Seráfico, que amava a criação e via o seu Criador em todas as criaturas, tinha por costume, conversar com os animais. Para ajudar os moradores de Gubbio, ele decidiu então falar com o lobo violento. Todos ficaram esperançosos, pois sabiam dos inúmeros feitos do Pobrezinho. Francisco saiu então a procurar pelo animal. Sozinho e com o terço na mão, andou pela floresta até se deparar com canino. Raivoso e com os pelos ouriçados, o lobo estava pronto para atacar. Entretanto, o animal ao perceber que as intenções de Francisco eram outras, se acalmou. Ao encontro do lobo, o Seráfico Pai se aproximou como quem se aproxima de um irmão e então disse: - Irmãozinho lobo, quero somente conversar com você, meu irmão. E, caso você esteja me entendendo, levante, por favor, a sua patinha para mim! O irmão lobo, perante tão grande vibração de amor e carinho, perdeu toda a sua ferocidade. Assim, levantou confiante a pata da frente e calmamente a pôs na mão aberta de Francisco, que novamente lhe dirigiu a palavra com toda a sua graça: - Querido irmão lobo, vou fazer um trato com você! De hoje em diante, vou cuidar de você, meu irmão! A cidade vai lhe dar comida, já que, por culpa das pessoas, a floresta não lhe oferece mais o alimento necessário. Você vai poder entrar em minha casa e vou lhe dar comida. Assim, seremos sempre amigos! Você por sua vez, também será amigo de todas as pessoas desta cidade, pois de agora em diante, terá acolhimento, comida e carinho. Desta forma, não precisará mais matar ou agredir alguém para sobreviver.   Com a promessa de nunca mais lesar nem homem nem animal, foi o lobo com Francisco até a cidade. Os moradores abandonaram a sua raiva a passaram a chama-lo de irmão lobo. Quando o animal morreu de velhice, foi um grande pesar para toda a cidade, já que todos de Gubbio viam o amor divino de Francisco refletido nos olhos do lobo. Cada vez que ele ia até a porta da cidade buscar o seu alimento, era como se os moradores vissem Francisco chegando para oferecer amor e compreensão a todos os homens e mulheres.   Quando a diferença não é mais problema O escritor francês Michel Sauquet¹ reflete sobre o acontecimento: A mensagem é clara. O lobo não é naturalmente mau. Estava com fome e as pessoas não haviam pensado nisso. Compreender o outro que é diferente, que tem suas razões que talvez minha razão ignore. “Francisco não é ingênuo, explica Bernard Forthomme, “É a fome que faz com que o lobo saia da mata e o torna feroz e criminoso. Aliança alguma pode ser concluída sem que a questão de fome e de injustiça tenha sido resolvida”. O que empolgante nesta história é aquilo que passa depois da conclusão do “tratado de paz”. O lobo, designado de “irmão” não é mais reprovado, mas abertamente adotado pela população de Gubbio, não, porém, assimilado. Nada perdeu de seu aspecto de lobo – mas é acolhido e alimentado. Torna-se mesmo “mascote” da cidade onde vive ainda por dois anos antes de morrer para desolação de todos. A diferença não é mais um problema. Chegou mesmo a tornar-se motivo de júbilo, objeto de atenção afetuosa e alegre.   Fontes: Caminho Franciscano, Cultura da Paz e Franciscanos. ¹: Michel Sauquet, Le Passe Murailles, Ed. Franciscaines, Paris, p. 27.