São Francisco de Assis

  • Francisco, Homo totus Evangelicus
    Francisco entrou na intimidade do Evangelho e percebeu-o puro e sem retoques. Por isso, a Igreja o chamará de Homo totus Evangelicus, quer dizer, que “se evangelizou” na totalidade do ser e na radicalidade das exigências. E mostrou, ao mesmo tempo, que o Evangelho, no seu todo, é algo possível de ser traduzido em vida. O próprio Papa Inocêndo III, observara que a norma de vida da primitiva da comunidade era por demais árdua para compor um programa de vida, mas a tempo foi advertido que não poderia declará-la impossível, pois declararia impossível o Evangelho de Cristo. Para Francisco, a afirmação do Papa significava a impossibilidade de seguir os passos de Nosso Senhor Jesus Cristo, pois vinham eles retraçados, concretamente, nas páginas do Evangelho. Esta concreteza com que percebia o Evangelho fazia Francisco recorrer a ele com a simplicidade e a confiança de quem recorre a um “diretor espiritual”. Com naturalidade, colocava os livros dos Evangelhos à sua frente e os abria, a esmo, encontrando exatamente a Palavra que lhe servia de resposta. Não argumentava, não discutia, não duvidava. Deus acabara de lhe falar. E feliz partia para executar as ordens que acabara de ler. Assim fala Celano, na vida I (n° 92-93): que abrindo o Evangelho, pôs-se de joelhos e pediu a Deus que lhe revelasse qual a sua vontade. “Levantando-se, fez o sinal da cruz, tomou o livro do altar e o abriu com reverência e temor. A primeira coisa que deparou, ao abrir o livro, foi a paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo, no ponto em que anunciava as tribulações pelas quais haveria de passar. Mas, para que ninguém pudesse suspeitar de que isso tivesse acontecido por acaso, abriu o livro mais duas vezes e o resultado foi o mesmo. Compreendeu, então, aquele homem cheio do espírito de Deus, que deveria entrar no reino de Deus depois de passar por muitas tribulações, muitas angústias e muitas lutas…”.   Este artigo faz parte da série do site Franciscanos para o Mês da Bíblia: O Evangelho pautou a vida de São Francisco de Assis. Fonte: Franciscanos. Autor Original: Frei Hugo Baggio (extraído do livro “São Francisco Vida e Ideal, da Editora Vozes).
  • Francisco, para onde queres nos levar?
    O cardeal argentino Jorge Bergoglio ao aceder ao serviço de pastor da Igreja universal, escolheu ser chamado de Francisco, Papa Francisco. Ele mesmo explica as razões de sua escolha. Antes de começar a escrever o texto da sua Carta encíclica sobre o cuidado da casa comum, Laudato Si’, afirma “Tomei o nome de Francisco por guia e inspiração, no momento da minha eleição para Bispo de Roma. Acho que Francisco é o exemplo por excelência do cuidado pelo que é frágil e por uma ecologia integral, vivida com alegria e autenticidade. É o santo padroeiro de todos os que estudam e trabalham no campo da ecologia, amado também por muitos que não são cristãos. Manifestou uma atenção particular pela criação de Deus e pelos mais pobres e abandonados. Amava e era amado por sua alegria, a sua dedicação generosa, o seu coração universal. Era um místico e um peregrino que vivia com simplicidade e em uma maravilhosa harmonia com Deus, com os outro, com a natureza e consigo mesmo. Nele se nota até que ponto são inseparáveis a preocupação pela natureza, a justiça para com os pobres, o empenhamento na sociedade e a paz interior” (n.10).   Borbulham anseios e fervilham perguntas na mente e no coração de um rapaz e de uma moça de ontem, de hoje e de sempre. Somos todos colocados diante do mistério da vida, do empreendimento da existência. Há questões que atravessam nosso espírito. Que bom que assim o seja. Somos seres livres e construímos nosso caminho. Quem sou eu? De onde em venho? Para onde vou? O que posso fazer desses dias que são os meus? Por que essa ânsia de comunhão, homem, mulher, de comunhão com tantos outros? Por que tudo isso? E esse meu irrequieto coração! Nunca está satisfeito. Que projeto esboçar para meu amanhã? Quem vai me dar sua mão? A quem eu daria minha vida? O que me faz viver? Jovens? Esboços do amanhã? Inventores do novo? Correm de um lado para o outro, antenados, sempre antenados. Frequentam as baladas da noite. Alguns gostam de escalar montanhas, nadar em rios límpidos, aspirar o ar puro dos canteiros de flores. Há os que são tatuados, usam brincos e piercings. Alguns voltam para casa, nas madrugadas, sem terem quebrado uma certa harmonia do coração. Não se deixam contaminar. Parece que são imunizados. Enquanto o sono não chega pensam nos caminhos que poderiam percorrer, em estradas que parecem abertas, em sonhos que podem transformar-se em realidade. O que eles vivem com os outros nessas noites vazias não pode ser vida. Há perguntas. Questões que pululam. O que posso fazer de minha vida? O que poderá me fazer viver? Como poderei ser uma pessoa significativa? O cortês e reto Francisco de Pietro Bernardone também tinha perguntas que lhe atravessam a mente. Há uma oração atribuída ao Poverello que se situa nesses momentos abençoados de busca, “Grande e magnífico Deus, iluminai as trevas de minha alma, dai-me uma fé íntegra, uma esperança firme e uma caridade perfeita. Concedei, meu Deus, que eu vos conheça muito para poder agir de acordo com a vossa santíssima vontade”. Os jovens de coração reto trazem em seu interior esta pergunta: Senhor, o que queres de mim? Pessoas de coração reto e espírito generoso são candidatas a viver uma vida de maior dedicação ao Evangelho que, na prática, se chama Jesus vivo e presente em nosso meio. Francisco era um jovem, como tantos outros jovens. Não era alguém vulgar. “Nada seria mais falso do que imaginar o jovem Bernardone como um libertino vulgar. Não o imaginamos nem corrompido nem corruptor, e se teve fraquezas não na forma de vilanias. O provável é que tenha colhido os frutos que se punham ao seu alcance, sem jactância e escândalo para os outros, sem envilecer a ninguém nem envilecer-se a si próprio. Os que o conheceram mais de perto atestam que ele sempre se referia às mulheres com respeito e que em sua presença houvesse alguma conversa licenciosa, fazia-se de surdo e não respondia” (Omer Englebert, Vida de São Francisco de Assis, p.43). Um rapaz reto, de bons princípios, consciente de suas qualidades, cortês… aspirando as estrelas. Ainda Omer Englebert: “É claro que Francisco não limitava suas ambições a medir panos na casa paterna e a festejar em companhia de amigos galanteadores, que se alimentavam às suas custas” (Idem, ibidem). Na medida em que vai caminhando e deixando as perguntas amadurecerem e sentindo a proximidade do Mistério se faz uma iluminação. “Tudo o que se pode dizer é que Francisco agora é um homem que encontrou o amor e que se sente iluminado pelo alto. E como tal agirá doravante, consentindo em passar de visionário aos olhos dos cegos que andam nas trevas e cumprindo atos tidos como loucos por parte dos que nunca amaram. Pode-se acrescentar que nele sobreviverão, no que têm de melhor, seus entusiasmos e ambições juvenis. Como um artista que não muda de estilo ao mudar de inspiração, ele não perderá a originalidade nem tampouco sua nobreza. Ele tinha sonhado ser cavaleiro e cavaleiro permanecerá até a morte” (Englebert, op cit., p. 51). Aos poucos, ele vai deixando o Altíssimo e o Cristo invadirem sua vida. Será alguém revestido de grande e bela simplicidade. Compreenderá que será preciso amar o irmão com amor de mãe. Na convivência recusará sobrepor-se a quem quer que seja. Haverá de trabalhar, e muito, mas nunca perderá o espírito da santa oração. Será um andarilho, estará sempre a caminho, nunca instalado, nunca acabado, mas com imensa saudade do eremitério. Ao longo de toda sua vida estará sempre “limpando as gavetas”, ou seja desapropriando-se de tudo, tornando-se uma pessoa profundamente livre. Haverá de extasiar-se diante de uma flor que abre, da água fresca e mesmo no momento que a seu encontro vem a irmã morte. Sem pretensões soberbas, com seu jeito de viver reformou a Igreja. Nele o sonho de Deus se tornou realidade. Georges Duby, na sua obra Le temps des cathédrales afirma “De parceria com Cristo, Francisco foi o grande herói da história cristã. Pode-se afirmar, sem exagero, que o que hoje resta do cristianismo vivo provém diretamente dele”.   Omer Englebert diz que Francisco encontrou o amor. Por isso, encanta a todos. Os jovens que sentem necessidade de buscar as estrelas, que não se contentam com uma vida medíocre, que não querem ser católicos sem mais, sentem necessidade de amar. Querem gastar o tempo de suas vidas com os outros, saindo à sua procura, fazendo experiência de uma profunda doação de suas vidas. Francisco encontrou o amor feito carne, feito presépio, feito cruz, feito pão, feito irmão. Chorando dirá que o amor precisa ser amado. Ao longo de seu viver estabelecerá uma comunhão de vida com o Senhor marcada por um intenso querer bem. Por meio dele quererá que o Cristo pobre e crucificado seja amado.   Via: Franciscanos. Autor: Frei Almir Guimarães (OFM).
  • Impressão das chagas de nosso Pai Seráfico São Francisco
    Em 17 de setembro, a família franciscana em todo o mundo celebra a a festa da impressão das Chagas, também chamada de Estigmas de São Francisco de Assis. Em 1224, no Monte Alveme, Francisco recebe os estigmas da paixão do Senhor. Deus o apresenta ao mundo como exemplo de vida cristã, como convite a seguir o Evangelho. Francisco tinha Cristo no coração, nos membros e nos lábios, e Jesus o imprimiu o último selo também em seus membros. A impressão das chagas, em seu corpo, não foi senão a coroação de toda uma vida. Desde o início de sua conversão, ele se deslumbrava ao contemplar o Cristo de São Damião, tão humano, tão despojado, tão pobre e crucificado. Por isso, este Cristo ocupa o lugar central de toda sua vida, “Não quero gloriar-me a não ser na cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo” (Gal 6,14). Foi ante este Cristo, que compungido rezou “Iluminai as trevas de meu espírito, concedei-me uma fé íntegra, uma esperança firme e um amor perfeito” (OrCr). E continua “Nele está todo perdão, toda graça e toda glória, de todos os penitentes e justos” (RegNB 30).   As chagas São Francisco, dois anos antes de receber a visita da Irmã Morte, iniciou, num lugar elevado e solitário chamado Monte Alverne, um jejum de 40 dias, em honra do arcanjo São Miguel, infundiu-se nele a suavidade de elevada contemplação, e, inflamado em desejo das coisas celestes, começou a perceber dons vindos do alto. Certa manhã, nas proximidades da festa da Exaltação da santa Cruz, rezando na encosta do monte, viu uma espécie de serafim, tendo seis asas brilhantes e flamejantes, do alto dos céus. Com voo célere pelo ar, chegando perto do homem de Deus, apareceu não só alado, mas crucificado. Ao ver isto, admirou-se e, enquanto sentia enorme alegria diante de Cristo que lhe aparecia, atravessava-lhe a alma como uma espada de dor compassiva. A visão desapareceu e inflamou-o interiormente por seráfico ardor, marcou-lhe a carne externamente com uma efígie do Crucifixo, como se à força antecedente de liquefazer do fogo se seguisse a impressão de um sigilo. Logo, nas mãos e nos pés começaram a aparecer-lhe os sinais dos cravos, as cabeças dos quais apareceram na parte inferior das mãos e na superior dos pés e suas pontas estavam em sentido contrário. Também o lado direito, como se fosse transpassado por uma lança, apresentava rubra cicatriz que frequentemente vertia o sangue sagrado.   O significado Um erro comum é o de ver São Francisco como uma figura acabada, pronta, sem olhar para a caminhada que ele fez até chegar à semelhança perfeita (configuração) com o Cristo. O que ocorreu no Monte Alverne é o cume de toda uma vida, de uma busca incessante de Francisco em “seguir as pegadas de Jesus Cristo”. Francisco lançou-se numa aventura, sem tréguas, na qual deu tudo de si: a vontade, a inteligência e o amor. As chagas significam que Deus é Senhor de sua vida. Deus encontrou nele a plena abertura e a máxima liberdade para sua presença. O segundo significado das chagas é o de que Deus não é alienação para o ser humano, ao contrário, é sua plena realização e salvação. Colocando-se como centro da própria vida é que o homem se aliena e se destrói; torna-se absurdo para si mesmo no fechamento do seu ‘ego’. O homem só encontra sua verdadeira identidade, sua própria consistência e o sentido de sua existência em Deus. E Francisco fez esta descoberta: Jesus Cristo foi crucificado em razão de seu amor pela humanidade – “amou-os até o fim” –, e ele percorre este mesmo caminho. O terceiro significado: as chagas expressam que a vivência concreta do amor deixa marcas. A exemplo de Cristo, Francisco quis suportar/carregar e amar os irmãos para além do bem e do mal (amor incondicional). Essa atitude o levou a respeitar e acolher o ‘negativo’ dos outros mantendo a fraternidade apesar das divisões. Esse acolher e integrar o negativo da vida é a única forma de vencer o ‘diabólico’, rompendo com o farisaísmo e a autosuficiência, aniquilando o mal na própria carne. Só assim, o homem é, de fato, livre, porque não apenas suporta, mas ama e abraça o negativo que está em si e nos outros. O quarto significado: seguir o Cristo implica em morrer um pouco a cada dia: “Quem quiser ser meu discípulo, tome a sua cruz a cada dia e me siga” (Lc 9,23). Não vivemos num mundo que queremos, mas naquele que nos é imposto. Não fazemos tudo o que desejamos, mas aquilo que é possível e permitido. Somos chamados a viver alegremente mesmo com aquilo que nos incomoda, vencendo-se a si mesmo e integrando o ‘negativo’, de modo que ele seja superado. Nós seremos nós mesmos na mesma medida em que formos capazes de assumir nossa cruz. As chagas de São Francisco são as chagas de Cristo, e elas nos desafiam: ninguém pode conservar-se neutro, sem resposta diante da vida.   Saudação do Ministro Provincial Prot. 091/2018                                                                          Brasília, 17 de setembro de 2018   Saudação do Ministro Provincial por ocasião da Festa da Impressão dos Sagrados Estigmas de Pai São Francisco   “Ó São Francisco, estigmatizado do Monte Alverne, o mundo tem saudades de ti como imagem de Jesus Crucificado. Tem necessidade do teu coração aberto para Deus e para o homem, dos teus pés descalços e feridos, das tuas mãos traspassadas e implorantes.”. S. Joao Paulo II. Queridos confrades, pré-noviços, postulantes, Irmãs Clarissas e Fraternidades da OFS, amigos(as) de São Francisco, Paz e bem! No dia 17 de setembro de 1224, após a Festa da Santa Cruz, durante a Quaresma de São Miguel, o Seráfico Pai foi marcado com a Chagas do Filho de Deus, Nosso Senhor Jesus Cristo, como nos recorda São Boaventura: “Francisco era um fiel servidor de Cristo. Dois anos antes de sua morte, havendo iniciado um retiro de Quaresma em honra de São Miguel num monte muito alto chamado Alverne, sentiu com maior abundância do que nunca a suavidade da contemplação celeste... em seus extremos de amor, quis ser crucificado, orava certa manhã numa das partes do monte... quando ele viu descer do alto do céu, um serafim de seis asas flamejantes... Logo começaram a aparecer em suas mãos e pés as marcas dos cravos. Via-se a cabeça desses cravos na palma da mão e no dorso dos pés; a ponta saía do outro lado.” (LM 6) Juntamente com este “singular”  testemunho de S. Boaventura, recordamos de nossa Casa Filial dos Estigmas do Pai Seráfico São Francisco de Goiânia. Aí, estão presentes nossos confrades, Frei Roberto Cândido, Frei Herton, Frei Carlos e Frei Francisco. HáA exatos dois anos da chegada de nossa família franciscana conventual em Goiânia, esta é a festa patronal desta fraternidade, que corajosamente leva adiante a evangelização do povo simples e pobre da periferia. Ali se revelam para nós frades menores conventuais, as chagas da humanidade ferida pela exclusão, pela tristeza e pelo abandono, e na Paróquia de N. S. da Libertação onde os frades servem a Igreja, as chagas de Jesus em Francisco, tornam-se consolo e segurança na fé, crescimento na fraternidade e partilha cristã.  Por esta e outras tantas virtudes impressas por Jesus Cristo em São Francisco, os sagrados estigmas tornam-se para nós modelo e ápice de uma vida de penitência, de coragem e de dedicação ao Evangelho. Parabéns aos confrades de Goiânia.! Agradeço a Deus todo poderoso e a São Francisco, nosso Pai intercessor, por toda a nossa Ordem e Província, cada frade singularmente, cada noviço, pré-noviço, postulantes, Clarissas por nós assistidas e fraternidades da OFS.  Que as Chagas do Seráfico Pai sejam para nós, caminho de chegada e enamoramento eterno por Jesus, doação que hoje só podemos exercer pelo serviço e pela vocação de irmãos menores. Essa é a continuação da vida de penitência que S. Francisco nos deixou. Conquistemos esse espaço no seio da Igreja e da sociedade!     Frei Marcelo Veronez, OFMConv. Ministro Provincial   Fontes: Frades Franciscanos, Franciscanos (aqui e aqui) e OFS.   Faça abaixo o download do PDF da Saudação do Ministro Provincial em ocasião da Festa dos Estigmas do Seráfico Pai de 2018. 
  • Inspirado Pela Cruz
    A oração de Francisco de Assis diante do Crucifixo não começa com “Ai de mim” ou alguma triste miséria do coração. Em vez disso, concentra-se na glória e sublime beleza de Deus: altíssimo e glorioso Deus. Apenas dizendo as palavras com um espírito de louvor, meu coração se torna mais leve. Sinto-me como se estivesse envolvido na gloriosa presença de Deus! A oração começa – como toda boa oração deve começar – com palavras de adoração. A adoração tem um jeito de tirar-me da minha autorreferencialidade e ansiedade. A própria adoração ajuda a iluminar a escuridão do meu coração. Agrada-me que Francisco use a palavra coração em vez de mente quando ora, “ilumine as trevas do meu coração”. A palavra mente leva-me muito à minha cabeça. E esse não é o verdadeiro São Francisco. “Coração” é muito São Francisco. O coração sugere as complexidades do amor humano e o mistério do anseio mais íntimo de alguém – com todas as suas alegrias e tristezas.   A visão do amor ardente de Cristo Francisco, naturalmente, tinha um coração muito sintonizado com o mistério do amor transbordante de Deus. Uma vez, enquanto rezava em um lugar solitário, Francisco teve uma visão de Cristo olhando para ele da cruz com um amor tão intenso e ardente que “sua alma se derreteu”, segundo seu biógrafo, São Boaventura. Só podemos acreditar que, após este evento de derreter a alma, cada vez que Francisco orou diante de um crucifixo, ele experimentou um derramamento similar do incrível amor de Deus. E quando Francisco pede em sua oração, “Dai-me uma fé reta”, essa fé, de alguma forma, implicaria essa mesma visão transformadora do coração do amor transbordante de Deus, um amor pelo qual Deus nada retém de nós! Esse é o tipo de fé correta que Francisco – assim como você e eu – solicitamos nesta oração. E essa fé reta, que é o cerne glorioso da autorrevelação de Deus, não ilumina a escuridão de nossos corações? Em seguida, São Francisco pede na oração por “esperança certa” que deriva da “fé reta”. E onde há um lugar melhor para encontrar essa esperança segura do que na ressurreição de Jesus? Os discípulos literalmente testemunharam a esperança certa quando o Cristo Ressuscitado apareceu para eles naquele primeiro domingo de Páscoa. Eu penso especialmente no apóstolo Tomé. O Ressuscitado iluminou de tal maneira o coração obscurecido pela dúvida deste apóstolo que Tomé, em adoração, proclamou sem hesitação “Meu Senhor e meu Deus!” (cf. Jo 20,28). Isso possibilita que São Francisco responda ao amor de Deus com o mesmo tipo de generosidade total. Francisco ainda pede a Cristo “sensibilidade e conhecimento, a fim de que eu cumpra o vosso santo e veraz mandamento”. Esse “mandamento” é realmente o plano glorioso de Deus para que todos os filhos de Deus perseverem no amor de Cristo e um dia ressuscite com Cristo no abraço amoroso de Deus.   A Cruz de São Damião Documentos franciscanos do século XIII indicam que o crucifixo diante do qual São Francisco rezava essa oração não era outro senão o famoso crucifixo na pequena capela de São Damião, perto de Assis. Este amado crucifixo, conhecido pelos seguidores de São Francisco em todo o mundo, é conhecido como a Cruz de São Damião. O corpo de Cristo, tal como pintado nesta cruz, não é sangrento ou torcido em angústia. Em vez disso, seu corpo é bastante luminoso, como se já estivesse ressuscitado, irradiando a plenitude de Deus. Em vez de uma coroa de espinhos, esta imagem de Cristo tem uma auréola gloriosa. Seu corpo, com os braços estendidos, parece estar subindo para o céu. Em resumo, a imagem sugere claramente o Jesus ressuscitado. Se, de fato, era essa a imagem de Cristo sobre a qual São Francisco estava olhando quando esta oração surgiu em seu coração, faz sentido que Francisco se dirigisse a Jesus como “Altíssimo e glorioso Deus!” Óh, glorioso Deus do amor transbordante, ilumine as trevas do meu coração!   Oração de Francisco Antes do Crucifixo Altíssimo, glorioso Deus, iluminai as trevas do meu coração, dai-me uma fé reta, uma esperança certa e uma caridade perfeita; sensibilidade e conhecimento, Senhor, a fim de que eu cumpra o vosso santo e veraz mandamento. Amém.     Este artigo é o primeiro de uma série do site Franciscanos sobre “A Cruz na Mística Franciscana”. Via: Franciscanos. Autor: Frei Jack Wintz.
  • Irmão e Irmã: o encontro de Francisco com uma mulher feita de amor
    Agosto nos traz sempre de novo a figura de uma mulher de Assis, Clara, companheira de Francisco e que será relembrada, segundo o calendário franciscano, no dia 11 deste mês. Eis algumas reflexões sobre ele e ela e aquilo que eles continuam a nos dizer. Com toda certeza, Francisco e Clara, da cidade de Assis não podem ser separados. Os dois nasceram para um mundo novo a partir de uma comum inspiração: ambos arrebatados por Cristo pequeno, amoroso, bondade. Christian Bobin, fecundo escritor francês, poeta em cada linha que escreve, foi vigorosamente aplaudido com o seu “Le Très Bas”, uma ode de amor a Francisco de Assis. Traduzimos uma página da peça estelar de Bobin em que escreve sobre os laços que uniam Francisco e Clara. Em sua imitação ingênua e quase obcecada das Escrituras, Francisco de Assis não podia evitar este encontro com uma mulher feita de amor, sua irmã, seu dublê. Nada dizer a respeito dela senão que os dois se completam como duas colunas que sustentam os arcos de uma abóboda, passando de um para o outro todos os matizes do amor, todas as cores do sonho. A respeito dela pouco se pode acrescentar além do que se diz com essa simples palavra Clara. Seu nome revela o que ela é e o que dela emana: Clara. Clareira, caminho claro, clarividente, relâmpago, limpidez. Todas estas palavras impregnam seu nome, todas essas luzes dela proveem; mocinha de dezesseis anos que os pais se preocupam em dar-lhe casamento, mocinha igual aquelas que encontramos em tantas canções francesas, pássaro rebelde que não quer aprender a música que lhe ensinam, pardal que prefere saltitar pelos caminhos batidos pela chuva, do que se colocar sob as folhas de uma única árvore, de “alta linhagem”. Que queres fazer mais tarde? Muitas vezes fazemos esta pergunta a crianças que não sabem o que quer dizer “mais tarde”, que conhecem apenas o presente e no presente a presença maravilhosa do todo. Com quem você quer se casar mais tarde? pergunta-se àquela cuja beleza inquieta e preocupa. Que o casamento venha, pois, ser um coroamento de uma tal beleza. Mas aquele que ela deseja desposar não está presente e nem estará. Não está perto nem alhures. Está na alturas e no mais baixo, longe e perto… ele é e não é. Como nas histórias das antigas cantigas, a moça deixa a casa dos pais no meio da noite, passa por um porta camuflada, atravancada por pedaços de lenha, afasta galho por galho com suas mãos, sai correndo sob a noite estrelada até aquele havia projetado o rapto, o rei do coração, o príncipe da fuga, Francisco Assis. Eles amam do mesmo amor, são feitos para se entenderem, ébrios do mesmo vinho. Ela troca sua veste cintilante por uma indumentária de gente simples, feita de lã e ei-los anos a fio separados e juntos, ele prendendo nas redes de sua voz os pássaros do céus, os animais dos campos e os homens das cidades e ela atraindo para as redes de Deus moças cada vez mais numerosas, cada vez mais bonitas.   Dois caçadores clandestinos. Dois nômades nas invisíveis propriedades de Deus. Separados como antigamente acontecia nas escolas. Os meninos de um lado e as meninas do outro. Ela, do lado das meninas; ele, do lado dos meninos. Separados nas aparências e nos lugares. Reunidos pelos intermináveis diálogos das almas, por esse encantamento de ter encontrado um interlocutor privilegiado, aquele ou aquela que compreende tudo, mesmo os silêncios, mesmo o que não se saberia dizer para si mesmo no silêncio, o irmão, a irmã sem os quais o tempo passado na terra não seria mais do que tempo, nada de outra coisa. A legenda que sempre diz a verdade para além das provas históricas, que está no sangue das almas, diz que um dia em que Francisco visitava Clara e suas irmãs em seu convento, irrompeu um incêndio, visto de vários lugares da redondeza. A população de Assis que acorreu para apagá-lo, não viu chama alguma, fogo nenhum, apenas Francisco e Clara em torno de uma frugalíssima refeição e uma imensa claridade entre os dois, que não arrefecia.   Santa Clara e São Francisco, dois irmãos que decidiram seguir juntos a radicalidade do batismo.   Ele morrerá antes dela. Isso não tem a menor importância. O amor desde sua vinda, desde seu primeiro frêmito, aboliu os antigos decretos do tempo, suprimiu as distinções de antes e de depois mantendo apenas o hoje eterno dos vivos, o hoje amoroso do amor.   Fontes: Franciscanos via Christian Bobin, “Le Très-Bas”, Gallimard, p. 101-104. Autor: Frei Almir Guimarães.
  • Já estão programados em Juruá, o Novenário e a Solenidade de São Francisco
    De 25 de setembro a 04 de outubro, será celebrado na Paróquia Nossa Senhora de Fátima, em Juruá (AM), o Novenário e a Solenidade de São Francisco de Assis. A celebração terá como tema “Como São Francisco queremos viver nossa missão de batizados”. A novena será iniciada na terça-feira, 25, a partir das 18h com uma passeata partindo da Comunidade de São Francisco. As Santas Missas serão celebradas às 19h (com exceção do domingo, 30, que acontece a partir das 19h30) e, logo após, terá o Arraial que acontecerá todos os dias, com barraquinhas de comidas típicas e brincadeiras. No dia 03 de outubro, será dado o início ao trânsito de São Francisco. E no dia seguinte, o último da solenidade, será realizada a Bênção dos Animais às 09h, em que os fiéis e as fiéis poderão levar seus bichinhos de estimação para serem abençoados. Às 10h, será celebrada a Santa Missa na Comunidade São Francisco, acompanhada da realização de batismos. Mais tarde, às 18h, acontecerá a procissão que tem como ponto de partida a Igreja Matriz, com a celebração da Eucaristia em seguida. A solenidade será encerrada com o Arraial.   Ajude a Missão:  Fundo Missionário ou Missão Kolbe Banco do Brasil Agência: 0452-9 Conta Corrente: 35820-7 CNPJ: 02501906/0001-15   Leia mais sobre a Missão Amazônia aqui. 
  • Morte e Vida de São Francisco de Assis
    Todo debilitado, com voz fraca, sumida, entoa Francisco o Salmo 142: Você mea ad Dominum clamavi (“Com minha voz clamei ao Senhor…”). O Salmo vai sendo entoado pouco a pouco, e ao chegar ao versículo Educ de custodia animam meam (“Arranca do cárcere minha alma, pra que vá cantar teu nome, pois me esperam os justos e tu me darás o galardão”). Faz-se grande e profundo silêncio. Acabara de morrer, cantando, Francisco de Assis. Quem é este que transfigura o trauma da morte em expressão de liberdade tão suprema? Desaparece o sinistro da morte. E Francisco vai ao seu encontro como quem vai abraçar e saudar uma irmã muito querida. Ano de 1226. Francisco se acha muito debilitado. Seu estômago não aceita mais alimento algum. Chega a vomitar sangue. Admiram-se todos como um corpo tão enfraquecido, já tão morto, ainda não tenha desfalecido. Transportado de Sena para Assis, Francisco ainda encontra forças para exortar os que acorrem a ele. E aos irmãos diz: “Meus irmãos, comecemos a servir ao Senhor, porque até agora bem pouco fizemos”. Ao chegar a Assis, um médico se apresenta e constata que nada mais resta a fazer. Ao que Francisco exclama: “Bem-vinda sejas, irmã minha, a morte!” E convida aos irmãos Ângelo e Leão para cantarem o Cântico do Irmão Sol, ao qual Francisco Acrescenta a última estrofe em louvor a Deus pela morte corporal. Cria-se uma atmosfera tão jovial e alegre que o Ministro Geral da Ordem, Frei Elias, interpela Francisco para que pare com toda aquela atmosfera, vista como “cantoria”, para que enfim ele morra “convenientemente”, pois poderia escandalizar os moradores de Assis. “Com tudo o que sofro, me sinto tão perto de Deus que não posso senão cantar!” – respondeu-lhe Francisco. Aproximando-se a hora derradeira, Francisco deseja ser levado para a capelinha de Nossa Senhora dos Anjos, na Porciúncula, onde tudo havia começado. Lá, num gesto de despojamento, de identificação com o Cristo crucificado e de integração com o Pai, pede que o deixem, nu, sobre a terra e diz aos frades: “Fiz o que tinha que fazer. Que Cristo vos ensine o que cabe a vós”. Despede-se de todos os irmãos; abençoa-os; lembra-lhes que “o Santo Evangelho é mais importante que todas as demais instituições”. Ainda deseja que Irmã Jacoba lhe traga alguns daqueles deliciosos biscoitos. Anima o seu médico, dizendo-lhe: Irmão médico, dize com coragem que a minha morte está próxima. Para mim, ela é a porta para a vida!” E, então, canta o Salmo 142. Francisco parte cantando, cortês, hospitaleiro e reconciliado com a morte. O canto de Francisco está baseado em uma percepção realista da morte: “Nenhum homem pode escapar da morte”. Mas como pode ser irmã aquela que engole a vida, que decepa aquela pulsão arraigada em cada um de nós, fundada em um “desejo” que busca triunfar sobre a morte e viver eternamente? Francisco acolhe fraternalmente a morte. Nele realiza-se, de forma maravilhosa, o encontro entre a vida e a morte, em um processo de integração da morte. Francisco acolhe a vida assim como ela é, ou seja, em sua exigência de eternidade e em sua mortalidade. Tanto a vida como a morte são um processo que perdura ao longo de toda a vida. A morte faz parte da vida. Como e despertar e o adormecer, assim é a morte para o ser humano. Ela não rouba a vida; dá a esse tipo de vida a possibilidade de outro tipo de vida, eterna e imortal, em Deus. A morte não é então negação total da vida, não é nossa inimiga, mas é passagem para o modo de vida em Deus, novo e definitivo, imortal e pleno. Francisco capta esta realidade e abriga a morte dentro da vida. Acolhe toda limitação e mostra-se tolerante com a pequenez humana, a sua e a dos outros. A grandeza espiritual e religiosa de Francisco no saudar e cantar a morte significa que já está para além da própria morte; ela, digna hóspede não lhe é problema; ao contrário, ela é a condição de viver eternamente, de triunfar de modo absoluto, de vencer todo embotamento do pecado que a transforma em tragédia. Francisco soube mergulhar na fonte de toda a vida. “Enquanto Deus é Deus, enquanto Ele é o vivente e a Fonte de toda a vida, eu não morrerei, ainda que corporalmente morra!” (L. Boff).   Morte, drama sagrado, não uma tragédia. Morte, bem-vinda, não uma inimiga. Morte, uma irmã, não uma ladra. Morte, abertura para a plena liberdade, presença do Reino de Deus, utopia do justos. “Deus enxugará as lágrimas dos seus olhos, e a morte não existirá mais, nem haverá mais luto, nem pranto, nem fadiga, porque tudo isso já passou” (Ap 21,4).   “Louvado sejas, meu Senhor, pela nossa irmã, a morte corporal, da qual nenhum vivente pode escapar” (São Francisco, Cântico do Irmão Sol).   Este é o terceiro artigo da Série “A Morte na Mística Franciscana”, um especial do site Franciscanos para o dia dos finados. Acesse os outros artigos clicando aqui. Fonte: Franciscanos. Autor: Frei Nilo Agostini.
  • Novena e Solenidade de São Francisco na Paróquia Santo Antônio do Menino Deus
    A comunidade da Paróquia Santo Antônio do Menino Deus, que fica no bairro Jardim Cidade Universitária, em João Pessoa (PB), já está com a programação da Novena e da Solenidade de São Francisco toda planejada. As celebrações serão realizadas entre os dias 25 de setembro e 04 de outubro e tem como um de seus objetivos, apresentar a pessoa de São Francisco de Assis e o seu carisma, já que esta é a primeira vez em que os fiéis desta paróquia, que antes estava sob a administração da diocese, participam das solenidades franciscanas. Por esta razão, a comunidade está muito envolvida e feliz com a preparação.   A novena, que será iniciada no dia 25 deste mês, será celebrada sempre às 19h30. Em 03 de outubro, as Santas Missas serão celebradas às 07h e às 19h30, posteriormente à realização do Trânsito de São Francisco (que também será feita pela primeira vez na Paróquia). Atualmente, uma equipe de pedreiros está trabalhando na reforma do presbítero da igreja para que tudo esteja pronto até a novena. No último dia, 04 de outubro, a comunidade paroquial poderá levar os bichinhos de estimação para a Bênção dos Animais às 9h. A Eucaristia das 19h30 será presidida pelo Vigário Geral da Arquidiocese da Paraíba, Luís Junior. Na ocasião, serão realizadas também a instituição de novos Ministros Extraordinários da Sagrada Comunhão.    Leia mais sobre a Paróquia Santo Antônio do Menino Deus clicando aqui.  
  • O Evangelho como ponto de partida
    Francisco parte do Evangelho para reconstruir a vida e parte da vida para confrontar-se com o Evangelho. Esta opção e escolha não seria apenas viver o Evangelho e acolhê-lo em sua vida, mas também anunciá-lo aos seus irmãos. Novamente, em seu Testamento, Francisco escreve: “E depois que o Senhor me deu irmãos, o Senhor mesmo me revelou que eu devia viver segundo a forma do Santo Evangelho” (Test 4,14).Francisco tinha clareza quanto à sua missão: o primeiro movimento é acolher a palavra de Deus, embeber-se dela, aprofundá-la na vida, confrontar-se com ela, para ser luz no caminhar e vigor no viver. E depois, levá-la e transmiti-la ao povo de Deus. E assim, seu dinamismo missionário impele-o a ir ao encontro de todos os homens. Diante do envio e da missão, ele sente a paixão que tem pelo anúncio da Boa Nova.Ele sente a vocação missionária a que Deus o chamou e sente-se feliz e realizado em ser o bom samaritano a difundir esta mensagem, não só aos leprosos, mas à humanidade toda.   Este artigo é o terceiro da série do site Franciscanos para o Mês da Bíblia: O Evangelho pautou a vida de São Francisco de Assis. Fonte: Franciscano. Autor: Frei Atílio Abati. Extraído do livro “Francisco, um encanto de Vida”, Editora Vozes.
  • O filósofo franciscano conventual, Orlando Todisco, fala sobre o caminho da felicidade em São Boaventura
    É inútil esconder isso. Há um desejo nunca preenchido de felicidade dentro de nós. Os homens e mulheres de todos os tempos chegaram a um acordo sobre essa necessidade urgente que ora ou outra ressurge com certa pontualidade. Nenhuma alegria material pode satisfazê-la. Não é por acaso que até mesmo uma alma profunda como a de Giacomo Leopardi se perguntasse: "O que é felicidade? E se a felicidade não existisse, o que seria a vida?” Uma questão essencial que hoje, muitas vezes, é banalizada ou incompreendida na era digital. Precisamos de um olhar que foque mais nos céus, já que este questionamento diz respeito também ao próprio destino da nossa existência: sentir-se que está sob os cuidados de Nosso Pai é diferente da perspectiva de ser fruto do acaso e acabar no nada. Este é o caminho também percorrido por Orlando Todisco (OFMConv) em um volume filosófico e pensativo: seja bom para o mundo. A arte de ser feliz segundo São Boaventura (Porziuncola, páginas 230, euro 18). Professor e autor de numerosos ensaios sobre a metafísica medieval, Todisco propõe uma alternativa que vai contra a corrente, inspirado nas lições de um grande místico e doutor da Igreja, um dos primeiros seguidores de Francisco de Assis. Aquele Giovanni Fidanza, nascido em Bagnoregio (Viterbo) em 1217, a quem ainda criança a cura Poverello teria previsto "boa sorte" (donde Bonaventura). Antonio Giuliano, do jornal italiano Avvenire, conversou com o filósofo Todisco, autor do ensaio sobre o São Boaventura: "Reconhecer como tudo é um dom que nos impulsiona a compartilhar a vida, a experimentar nossa alegria na do outro". Segue a entrevista: Qual é a distinção entre felicidade de acordo com São Boaventura e aquela que compreendida hoje? R: Se para Boaventura a felicidade é uma maneira mais ou menos estável de viver no mundo, hoje ela é a sucessão de eventos favoráveis que acontecem e desaparecem com grande velocidade; mais do que saber viver é o súbito aparecimento de emoções percebidas em seu imediatismo. Isso ocorre porque as pessoas, atualmente, vêem as coisas de forma possessiva, quase como se viessem ao mundo para assumir e se afirmar: Como surgiu essa aparência distorcida? Perdemos a concepção de que o mundo é um dom e somos chamados a embelezá-lo e não a sermos saqueadores dele. Boaventura nos coloca diante de uma alternativa: o fascínio de ser como um presente, ser acolhido e vivido ou a reivindicação de ser um direito. No entanto, ninguém vem ao mundo sozinho. Isto implica, em primeiro lugar, o reconhecimento de que o outro vem antes de mim, isto é (Deus, o indivíduo, a comunidade) que me chamou gratuitamente ao ser. O egoísmo, como um mal-entendido da primazia do outro, é a idolatria da mentira. A consciência de sentir-se amado gera a felicidade que não é assim se não for compartilhada. R: Não só não consegue alcançar a si mesmo, como também não se pode viver sem o apoio do outro. O medo do próprio fracasso acompanha toda a aventura. Mas não é um motivo de humilhação porque o outro que me ama me quer como criador e não apenas como um sujeito qualquer. O poder do dom está em suscitar no recipiente o desejo de dar de volta de acordo com a lógica do dom, sendo assim, um sistema circular. Todos os filósofos procuraram a felicidade. Mas qual é o limite deles de acordo com São Boaventura? R: O que importa para os filósofos é o conhecimento. Já Boaventura, observando que Deus não é, mas dá a si mesmo, a expressão suprema da lógica altruísta: externando o crescimento que evita a idolatria do conhecimento e compartilha a vida. Dessa forma, acaba por distribuir a sua própria felicidade na felicidade do outro porque, caso contrário, seria apenas uma máscara, mais ou menos disfarçada, de seu próprio egoísmo. Quem são homens "oblativos" no concreto? “R: O oblativo (que se oferece voluntariamente) é aquele que amadurece o pensamento de ‘‘ser como direito” para “ser como presente". E isso não é a inspiração dos missionários e das famílias onde todos são senhor e servo, com um voluntariado imenso? O que mais se evidencia no franciscanismo de São Boaventura? R: Sentindo os perigos da primazia da razão e, portanto, da filosofia - este é o sentido da desconfiança de São Francisco para o conhecimento - que teria aumentado nosso poder, mas empobrecido o nosso horizonte, São Boaventura abriu outro caminho, afirmando que as coisas são o trabalho da benevolência de Deus. O cenário da filosofia ocidental é muito diferente, segundo o qual o mundo é como uma esfinge a ser interrogada, uma ameaça a ser derrotada ou uma mina de recursos a serem explorados. Este é o coração da proposta de Boaventura: o amor voluntário, a alma da aliança entre Deus e o homem criado ao mundo como um presente, para ser acolhido e guardado. Boaventura, Ministro Geral da Ordem Franciscana por 17 anos, é também o autor da primeira biografia oficial sobre São Francisco. Mas hoje ele é acusado de trair a imagem histórica do Poverello (do italiano “pobrezinho”, forma como São Francisco é conhecido). R: É verdade que no Capítulo Geral de Paris em 1266 ele removeu todos os escritos relacionados a São Francisco. Mas o fez com o objetivo expresso de impedir a consolidação da imagem do santo teorizado por Gioacchino da Fiore como se fosse um político revolucionário, um manifestante e uma ordem eclesial subversiva, social ou institucionalmente. Boaventura reescreveu a biografia de Francisco, mas sem trair suas características essenciais. O Legend Maggiore é um trabalho político condizente com um teólogo que ama, acima de tudo, a comunhão da família franciscana com a hierarquia, com o clero e a autoridade acadêmica. "Para São Boaventura, o destino final do homem é amar a Deus, encontrar-se e unir-se com o Seu e o Nosso Amor. Isto é para ele a definição mais apropriada da nossa felicidade". É o que escreveu o Papa Bento XVI, grande admirador do santo franciscano. R: Uma das razões desse fascínio é a "racionalidade ampliada" de São Boaventura, graças à qual se ultrapassa a separação entre o que é divino e o que é humano, o que é eterno e o que é temporal, próprio de certa epistemologia ocidental. Para o santo, os ramos do conhecimento não podem ser isolados uns dos outros. As grandes questões e os respectivos horizontes de luz surgem apenas quando o conhecimento das disciplinas individuais é combinado. No caso de seu isolamento, inevitavelmente caímos em erro, como aconteceu com os filósofos, Aristóteles e Platão, autores de grandes filosofias, mas sem a consciência de estar longe de outras formas de conhecimento. Também se aplica à teologia, se não for além de si mesma em direção à santidade. O problema da ciência não é apenas teórico.   (Traduzido de: Avvenire. Autor Original: Antonio Giuliano)
  • O profeta e o seu Evangelho
    Francisco teve com o Evangelho uma intimidade difícil de se compreender. Amava o Evangelho, mas ele não teria sido Francisco, se seu amor não tivesse desejado possuir o próprio livro. A magnífica Bíblia da Idade Média, com os maravilhosos textos desenhados em letras elegantes, tinha para ele algo de sagrado. Já foi, de per si, um rito religioso, quando ele, com seus dois companheiros, entrou na pequena igreja de São Nicolau e lá abriu o livro sobre o altar, manifestou-se ali uma forma de respeito que, em nosso tempo, impregnado de obras tipográficas, se tomou impossível: o respeito pela palavra manuscrita. Com isso, adquirem um sentido mais profundo em certas ações aparentemente mágicas. Nas cartas que ditava, não permitia Francisco que se riscasse uma letra, mesmo que fosse um erro de ortografia. Recolhia com o mesmo respeito em qualquer pedacinho de pergaminho que encontrava no chão. Perguntaram-lhe, certa vez, por que tinha tanto cuidado até mesmo com obras de autores pagãos. A resposta tem um quê surpreendente, “Porque nelas se encontram as letras que compõem o glorioso nome do Senhor”. Por umas cinco vezes insiste ele, em suas cartas, em que se devem guardar respeitosamente as palavras do Evangelho, onde quer que sejam encontradas. Francisco sentia o alcance psicológico desse simbolismo. “Devemos cuidar de tudo que encerra Sua Palavra sagrada. Assim ficamos profundamente compenetrados da sublimidade do nosso Criador e de nossa dependência em relação a Ele”, escreverá mais tarde ao Capítulo de seus irmãos. A verdadeira dificuldade de se compreender como Francisco lia a Bíblia, não se encontra na cultura medieval. O que é difícil compreender é o fato raro de a Bíblia ser lida aqui por um homem que era como ela o desejava. Ele não tinha necessidade dum comentário que a suavizasse. Com heróica abertura, Francisco aceitava o texto ao pé da letra, pois este já há muito o havia empolgado. Talvez tenha ele, alguma vez, explicado a Bíblia de uma maneira por demais rigorosa – nunca, porém, branda demais. Devemos perguntar se a concepção de Francisco a respeito da Bíblia ainda vale para nós. Em cada mudança religiosa na história, encontra-se o homem diante da pergunta: que é propriamente autêntico na Bíblia e que é que se conseguiu descobrir com o correr do tempo? E em cada período são sempre os grandes cristãos que, da forma mais pura, reconhecem a autenticidade. Não se requer uma visão genial para se descobrir o que corrigir num texto ou apontar alguns cantos carcomidos numa estrutura eclesiástica antiquada. Quando se trata, porém, de valores eternos, é absolutamente necessária uma visão de fé. Não é tão estranho que um homem como Francisco, que se afastara, por assim dizer, da própria cultura para viver o Evangelho até às últimas consequências – que este Francisco tenha descoberto algo que sobrepuja qualquer cultura. As grandes personalidades não estão à frente de seu tempo, estão acima dele.   Este artigo é o segundo da série do site Franciscanos para o Mês da Bíblia: O Evangelho pautou a vida de São Francisco de Assis. Via: Franciscanos. Extraído do livro “Francisco de Assis, Profeta de Nosso Tempo”, Editora Vozes. Autor: Por N.G. Van Doornik.
  • O que se diz a respeito de Francisco?
    Alguns depoimentos sobre Francisco e aquilo que o fazia viver. Poucos depoimentos que nos ajudam a ir completando o perfil de Francisco. Humanista e humorista: Francisco ao longo de sua vida foi um fenômeno de massa, certamente por seu estilo evangélico, mas também porque era um gênio em termos de comunicação. Captava imediatamente as necessidades e expectativas de quem dele viesse se acercar. Tinha um inato sentido para o espetáculo. Era um artista. Nos tempos de sua juventude cantava pelas ruas e participava das serestas com seus amigos. Depois de sua conversão costumava expressar-se na pregação com movimentos corporais e gestos semelhantes aos dos trovadores e jograis. Se em sua juventude havia sonhado ser cavaleiro, servindo-se da linguagem cavalheiresca da época, depois de sua conversão continuava empregando um vocabulário de palavras e imagens muito diversas da linguagem religiosa habitual. Falava de seus frades como cavaleiros da Távola Redonda, da pobreza como uma noiva. Às vezes pregava com a linguagem de cantigas de amor em voga na época, transformando-as, dando-lhe um sentido religioso.  Conseguiu superar a dicotomia entre sagrado e profano, laical e clerical, linguagem profana e linguagem eclesiástica. Certa vez, ante suas admiradoras do sexo feminino, improvisou uma pregação feita apenas de gestos. Sua conversão ao Evangelho não tirou dele este aspecto jovial e festivo. Ao contrário, chegou mesmo a potenciá-lo. Para ele, Deus era uma festa e dançava quando dele se aproximava ou d’Ele falava.  Sua própria vida era permanentemente uma celebração litúrgica pelos campos e nas cidades.  Para ele, a natureza era o templo visível da divindade onde ele celebrava espontaneamente a liturgia cósmica. Inventou um estilo novo de encarnar o Evangelho unindo intimamente a coerência da mensagem de Jesus com seu jeito jovial e festivo. A santidade com a poesia. O humanismo com o humorismo. A religião com a estética. Conseguiu revestir o cristianismo de alegria.  Seu estilo de vida tão original foi bem captado pelas multidões que sempre sabem descobrir o essencial da vida. (José Antonio Merino, Encarte de Vida Nueva n. 2263) Francisco e o Papa Francisco: Tomei o nome de Francisco por guia e inspiração no momento da minha eleição para bispo de Roma. Acho que Francisco é o exemplo por excelência do cuidado pelo que é frágil e por uma ecologia integral, vivida com alegria e autenticidade. É o santo padroeiro de todos os que estudam e trabalham no campo da ecologia, amado também por muitos que não são cristãos. Manifestou uma atenção particular pela criação de Deus e pelos mais pobres e abandonados. Amava e era amado por sua alegria, a sua dedicação generosa, o seu coração universal. Era um místico e um peregrino que vivia com simplicidade em uma maravilhosa harmonia com Deus, com os outros, com a natureza e com si mesmo. Nele se nota até que ponto são inseparáveis a preocupação pela natureza, a justiça para com os pobres, o empenhamento na sociedade e a paz interior. (Laudato Si’”, 10).   Não era isso que fazia Francisco viver? Em torno dos estigmas: Estigmas, sinais de um desejo de privação de toda posse:  Aquele que tem as mãos estigmatizadas não pode mais assenhorear-se do mundo como antes. Aquele cujos pés estão estigmatizados não pode mais caminhar pela terra como conquistador e dominador. Aquele tem o lado atingido não pode mais ocultar seus dons na caixa torácica, nem mesmo seus ressentimentos e remorsos.  O pássaro da liberdade encontra uma fresta para se lançar livremente por montes e vales. O homem que assim se reconhece, atingido em sua carne, nada tem de próprio, distribui os bens. A natureza é reencontrada em inédito esplendor. A fraternidade originária esconde o ardor divino que o provoca. Estigmas, forma de pregação - Os estigmas constituem uma forma de pregação quando os lábios emudecem.  Os estigmas constituem um foco para a palavra do silêncio, aquela que se submete a todas as criaturas para melhor ser atendida. Os estigmas são os lábios e pálpebras da carne que revelam e contemplam as profundezas no momento em que tudo se cala, onde o ambiente manda que se cale, onde acontece a cegueira e não um mero mal enxergar. Quando o contencioso com os frades se torna mais forte, que o destino da Fraternidade franciscana parece incerto, quando o Evangelho corre o risco de ser uma utopia ou simplesmente um ingênuo sonho, Francisco toma a decisão de subir o Alverne e viver intensa solidão. Finalmente, no silêncio do intercâmbio misterioso, acontece um face a face, a partilha de sofrimento do amigo com o Amigo. Nada podemos dizer. Simplesmente meditar em nosso coração.   Via: Franciscanos. Autor: Frei Almir Guimarães (OFM). Fontes: Bernard  Forthomme, Par excès d’amour. Les stigmates de François d’Assise, Ed. Franciscaines, Paris  2004, p  28-29
  • Paróquia Santo Antônio do Menino Deus celebrou a festa de S. Francisco pela primeira vez
    Na Paróquia Santo Antônio do Menino Deus, em João Pessoa (PB), as celebrações em Ação de Graças ao Seráfico Pai foram iniciadas em 25 de Setembro com a Novena de São Francisco de Assis e tiveram como como um de seus objetivos, apresentar a pessoa de Assis e o seu carisma, já que esta é a primeira vez em que os fiéis desta paróquia, que antes estava sob a administração da diocese, participaram das solenidades franciscanas. Assim, toda a comunidade se dedicou bastante para atuar na realização. Na quarta-feira (03), por volta das 19h30, fora celebrada a Santa Missa e, posteriormente, fora realizado o Trânsito de São Francisco de Assis. Um momento de muita emoção que trouxe à reflexão daqueles e daquelas que estavam presentes, a partida deste mundo daquele que morreu em perfeita santidade. Neste dia, todos tiveram a alegre surpresa de receber o Arcebispo da Paraíba, Dom Frei Manoel Delson, que foi vestido com seu hábito franciscano para participar das celebrações.  Ontem (04), a partir das 09h, durante a Solenidade de São Francisco, foram recebidos na Paróquia os animais de estimação da comunidade para a bênção aos animais pela graça do Seráfico Pai. À tarde, os frades do Convento Nossa Senhora Aparecida partilharem um almoço para confraternizar a vida e obra do Pobrezinho de Assis.  À noite, em virtude de data tão importante ao movimento franciscano, foi finalizado o novo presbitério e instalado, o também novo, sistema de som da igreja. Às 19h30, foi celebrada a Santa Missa pelo Vigário Geral da Arquidiocese da Paraíba, Padre Luís Junior. Foram realizados ainda na Missa, a instituição de 18 novos Ministros Extraordinários da Sagrada Comunhão.   Conheça mais sobre São Francisco aqui.  Leia sobre o significado de alguns momentos de sua vida na série Vocação Franciscana, clique aqui.  Veja a Saudação do Ministro Provincial por ocasião da Festa de São Francisco de Assis aqui. 
  • Paróquias e Santuários da Província se preparam para celebrar o Seráfico Pai São Francisco
    *Notícia a ser atualizada conforme surgirem novos dados*     Para celebrar a Festa do Seráfico Pai São Francisco, muitas Paróquias de nossa Província estarão, entre os dias 25 de setembro e 04 de outubro, celebrando Novenários. O exemplo de seguimento na imitação de Cristo são modelos de vida para todos os cristãos e cristãs. Seu legado (veja aqui a sua biografia) perdura até hoje na Igreja e na minoridade das famílias franciscanas. Confira abaixo como foi a realização da solenidade nas igrejas franciscanas!    Amazonas Juruá:   Na Paróquia Nossa Senhora de Fátima, a comunidade celebrará São Francisco durante o tempo do Sínodo Pan-Amazônia, de 25 de setembro a 04 de outubro. Em todas às noites, após a Novena, terão festas sociais com barraquinhas de comidas típicas, bingo, cabelo da vovó, boca do palhaço e pescaria.   No dia 03 de outubro, às 18h, será celebrado o Transitus de São Francisco. Já no dia do Seráfico Pai, 04 de outubro, será realizada uma Procissão às 08h e, logo em seguida, a Santa Missa. No mesmo dia, acontecerá também a Bênção dos Animais às 15h, o batismo às 18h e o último dia do arraial com um bingão.     Distrito Federal Brasília: No Santuário São Francisco de Assis, será celebrado nas vésperas, 03, o já tradicional Transitus de São Francisco, que é encenado pelos frades da Casa de Formação de Pós-Noviciado “São Francisco de Assis”. Logo após, será celebrada a Santa Missa. No dia seguinte, será realizada a Bênção dos Animais nos mesmos horários das Missas de domingo (07h, 08h, 10h, 12h15, 17h e 19h). Goiás: Águas Lindas:   A comunidade da Paróquia São Maximiliano Kolbe irá celebrar o Seráfico Pai São Francisco em um tríduo. Começando no dia 01/10, o tríduo será concluído no dia 04, a data em que a Igreja celebra o Pobrezinho. Os frades se revezarão na condução das celebrações que serão iniciadas às 19h com uma Adoração, seguida da Santa Missa. Nos dias 05 e 10 de outubro serão realizadas festas sociais, conforme é informado na imagem acima.     Cidade Ocidental: No Convento e Santuário Jardim da Imaculada os fiéis poderão se preparar para o dia de São Francisco em uma Novena celebrada entre os dias 25 de setembro a 04 de outubro. Tendo como pregador o Frei Casimiro Cieslik (OFMConv.), o novenário acontecerá sempre às 20h (com exceção do dia 28, que será às 07h).     Já na Paróquia Santo Antônio de Pádua, a novena está sendo celebrada desde a terça-feira e será concluída no dia 02/10. Nas vésperas, 03, haverá a encenação do Transitus de São Francisco e, no dia da Festa do Seráfico Pai, será celebrada a Missa Solene. Toda a programação está marcada para ser iniciada às 19h todos os dias.     Novo Gama     Na Paróquia Nossa Senhora Imaculada Conceição, para celebrar o Seráfico Pai, as pastorais da comunidade se organizarão para realizar o Transitus de São Francisco. A encenação ocorrerá logo após a celebração da Santa Missa, às 19h.     Paraíba: João Pessoa: A comunidade da Paróquia Nossa Senhora Aparecida celebrará nas vésperas o Transitus de São Francisco às 19h na Igreja Matriz. No dia seguinte, no mesmo horário, será realizada a Operata de São Francisco. Ainda na capital paraibana, os fiéis também poderão celebrar às 19h30 a novena de São Francisco na Paróquia Santo Antônio do Menino Deus. Iniciando no dia 25 de setembro e sendo concluído no dia 04 de outubro, a cada dia do Novenário, os fiéis de duas pastorais irão ser os responsáveis pelas orações (como pode ser conferido na imagem abaixo).   A cada noite, um tema será objeto de reflexão (veja todos os detalhes no documento disponibilizado para download ao final do texto). Nas vésperas, os jovens da Paróquia realizarão o Transitus, presidido pelo Arcebispo da Paraíba, Dom Frei Manoel Delson (OFMCap) e, seguindo acontecerá o Musical Opereta de São Francisco. Ao fim da Santa Missa no dia do Seráfico Pai, 04 de outubro, acontecerá uma Festa Social com pratos partilhados e música ao vivo.
  • Que história é esta de chamar a morte de irmã?
    No Cântico das Criaturas existe o famoso verso de Francisco de Assis, “Louvado sejas, meu Senhor, pela Irmã nossa, a morte corporal, da qual nenhum homem vivente pode escapar”; ou como relata Tomás de Celano, “Convidava também todas as criaturas ao louvor de Deus e, por meio das palavras que outrora compusera, ele próprio exortava ao amor de Deus. Exortava ao louvor até a própria morte, terrível e odiosa para todos, indo alegre ao encontro dela, convidava-a a sua hospitalidade; disse, “Bem-vinda, minha irmã morte!” (2Cel 217,7). Francisco preparou ritualmente sua morte, fez da sua morte uma celebração, um rito de passagem. Por estar plenamente na vida e na totalidade da existência integrou a morte não como um absurdo, mas como parte natural do ciclo da vida. Francisco de Assis é uma afirmação da vida por isso pode encarar a morte como um processo da curva biológica que traça a linha do nascer, crescer, envelhecer, morrer no momento oportuno ou prematuramente. Francisco preocupou-se com a vida e não com a doença e morte. Morre cantando a vida e sua essência. Ao celebrar a morte, ele a encarou de frente como aquela que lhe estendia a mão para concretizar o grande sonho humano: a imortalidade! Ele sabe que não está perdendo nada da vida porque encontrou e ganhou a vida plena que estava dentro de si mesmo. Fez do Amor seu projeto de vida, amar a Deus, amar a humanidade, a fraternidade, amar todos os seres. Esta confraternização universal do Amor não conhece a morte e o morrer. Tudo fez parte de sua vida, inclusive a finitude. Ele pode dizer como Santa Terezinha, “Eu não morro… entro na vida!”. Ele pode dizer como Gabriel Marcel, “Amar é dizer: tu não morrerás jamais!”. Francisco de Assis sente, pensa, sente e age com a certeza de que a morte não é um fim, mas a grande oferenda, a entrega, a restituição de si mesmo para Deus. Conquistou a esperança dos justos, que é imortalizar-se e andar para sempre no florido e fecundo caminho do Paraíso. A força vital que emana de Francisco de Assis o fez dar boas-vindas à Irmã Morte.   Clique aqui e leia o artigo "Quando algum dos nossos termina a caminhada…".  Este é o sétimo artigo da Série “A Morte na Mística Franciscana”, um especial do site Franciscanos para o dia dos finados. Acesse os outros artigos clicando aqui. Fonte: Franciscanos. Autor: Frei Vitório Mazzuco (OFM).
  • Santa Clara de Assis: fundadora da 2ª Ordem e amiga pessoal de Francisco
    Santa Clara foi a fundadora da Ordem das Clarissas e amiga pessoal de São Francisco de Assis.    Contemporânea de São Francisco e fundadora da Ordem das Clarissas, Santa Clara nasceu em 1193. Vinda de uma família rica, ela decidiu abdicar de seus bens e sua nobreza para viver na humildade. Seus pais planejavam casá-la com algum nobre, no entanto, Clara, ainda com 18 anos de idade, em um gesto de muita coragem e inspirada no profundo desejo de seguir a Cristo, deixou a casa paterna e, na companhia de uma amiga, Bona di Guelfuccio, uniu-se, secretamente, aos franciscanos na Porciúncula. O pai de Santa Clara, revoltado com a fuga da filha, envia um tio chamado Monaldo para resgatar a filha viva ou morta. Monaldo consegue alcançar Santa Inês, que sofre agressões e é arrastada pelo tio montanha abaixo. Nesse momento, ela chama pela irmã Clara, que começa a rezar impiedosamente pela irmã e um milagre se instaura: Santa Inês fica tão pesada que torna impossível o ato de arrastá-la no chão e mesmo assim, Monaldo não se dá por vencido e tenta agredi-la com um golpe, mas imediatamente sente a mão se contrair. Sem saber mais como agir, ele desiste de levar Santa Inês e foge. Era a tarde do Domingo de Ramos do ano de 1211, quando, em um gesto tão significativo quanto histórico, Francisco cortou os cabelos de Clara e vestiu o hábito penitencial. A partir de então, tornou-se humilde e pobre, uma virgem esposa de Cristo e a Ele totalmente consagrada. Sobretudo no início de sua experiência religiosa, Clara teve em Francisco de Assis não só um mestre a quem seguir os ensinamentos, mas também um amigo fraterno. A amizade entre estes dois santos constitui um aspecto muito belo e importante. Efetivamente, quando duas almas puras e inflamadas do mesmo amor por Deus se encontram, há na amizade recíproca um forte estímulo para percorrer o caminho da perfeição. A amizade é um dos sentimentos humanos mais nobres e elevados que a Graça divina purifica e transfigura (leia aqui um artigo sobre a amizade entre os santos).    Após ter transcorrido um período de alguns meses em outras comunidades monásticas, resistindo às pressões de seus familiares que no início não aprovavam sua escolha, Clara se estabeleceu com suas primeiras companheiras na igreja de São Damião, onde os frades menores tinham preparado um pequeno convento para elas. Lá, Clara, juntamente com outras mulheres, deu início à Ordem, contemplativa e feminina, da Família Franciscana, as Clarissas, da qual se tornou mãe e modelo, principalmente no longo tempo de enfermidade, período em que permaneceu em paz e totalmente resignada à vontade divina. Em uma das quatro cartas que Clara enviou a Santa Inês de Praga, filha do rei da Bohemia e que queria seguir seus passos, ela fala de Cristo, seu amado esposo, com expressões nupciais, que podem surpreender, mas que comovem: “Amando-o, és casta, tocando-o, serás mais pura, deixando-se possuir por ele, és virgem. Seu poder é mais forte, sua generosidade, mais elevada, seu aspecto, mais belo, o amor mais suave e toda graça. Agora tu estás acolhida em seu abraço, que ornou teu peito com pedras preciosas… e te coroou com uma coroa de ouro gravada com o selo da santidade” (Lettera prima: FF, 2862). Um bispo flamengo, Santiago de Vitry, que estava em visita à Itália, que afirma ter encontrado um grande número de homens e mulheres, de toda classe social e descreve como estes viviam nos primeiros anos do franciscanismo, “deixando tudo por Cristo, escapavam ao mundo. Chamavam-se frades menores e irmãs menores e são tidos em grande consideração pelo senhor Papa e pelos cardeais. As mulheres moram juntas em diferentes abrigos não distantes das cidades. Não recebem nada e vivem do trabalho de suas mãos. E lhes dói e preocupa profundamente que sejam honradas mais do que gostariam, por clérigos e leigos” (Carta de outubro de 1216: FF, 2205.2207). Santiago de Vitry tinha captado com perspicácia um traço característico da espiritualidade franciscana, a que Clara foi muito sensível: a radicalidade da pobreza associada à confiança total na Providência divina. Por este motivo, ela atuou com grande determinação, obtendo do Papa Gregório IX ou, provavelmente, já do Papa Inocêncio III, o chamado Privilegium Paupertatis (cfr FF, 3279). Em base a este, Clara e suas companheiras de São Damião não podiam possuir nenhuma propriedade material. Tratava-se de uma exceção verdadeiramente extraordinária em relação ao direito canônico vigente. As autoridades eclesiásticas daquele tempo o concederam apreciando os frutos de santidade evangélica que reconheciam na forma de viver de Clara e de suas irmãs. Isso demonstra também que nos séculos medievais, o papel das mulheres não era secundário, mas extremamente relevante. A propósito disso, é oportuno recordar que Clara foi a primeira mulher da história da Igreja que compôs uma Regra escrita, submetida à aprovação do Papa, para que o carisma de Francisco de Assis se conservasse em todas as comunidades femininas que iam se estabelecendo em grande número já em seus tempos, e que desejavam se inspirar no exemplo de Francisco e Clara. Em 1198, ocorreu uma invasão moura à Assis e em meio a muita pobreza e necessidade aconteceu um fato que consagrou Santa Clara para sempre na história. Eles tentaram invadir o convento e Santa Clara, mesmo acamada e doente, fez questão de ir até o portão de entrada. Ali, em lágrimas, ela conseguiu pegar o ostensório com o Santíssimo Sacramento e proferir as seguintes palavras, “Senhor, guardai Vós estas vossas servas, porque eu não as posso guardar”. Ouviu-se então uma voz suave dizendo, “Eu te defenderei para sempre”. Imediatamente os mouros são tomadas por um medo descomunal e fogem, deixando o convento intacto e a salvo. Nesse mosteiro, viveu durante mais de quarenta anos, até sua morte, ocorrida em 1253. Foi canonizada por Alexandre IV no dia 15 de agosto de 1265.   Confira logo abaixo um vídeo da Irmã Elka Santos (Irmãs Franciscanas da Sagrada Família) falando sobre o importância do carisma clareano para todas as ordens franciscanas! Fontes: Canção Nova, Franciscanos e Nossa Sagrada Família.  Leia mais sobre outros Santos e Santas Franciscanas clicando aqui.
  • São Francisco e a Bíblia
    Roberto Mela, teólogo italiano, comenta o livro Gilbert Dahan - Sophie Delman – Marcel Durrer, San Francesco e la Bibblia. Letture medievali del testo sacro (São Francisco e a Bíblia. Leituras medievais do texto sagrado, em tradução livre), EDB, Bologna 2018 (or. fr. Paris 2014), pp. 192, em artigo publicado por Settimana News, 22-04-2018. A tradução é de Luisa Rabolini. O volume é a tradução italiana do prestigioso Cahiers Évangile Supplément n. 169, de setembro de 2014.   Comentários Os três estudiosos investigam a presença da abordagem científica no estudo da Bíblia, juntamente com a predicação que, desde o início do movimento franciscano, foi colocado para combater o afrouxamento do clero e a proliferação das correntes heréticas. A especificidade da exegese e da predicação franciscana não reside nos métodos - também comuns aos dominicanos - quanto na recorrência de temas específicos ou atitudes particulares. O primeiro destes é a referência ao fundador (ausente em Antônio de Pádua, será enorme na geração sucessiva: Boaventura, Pierre de Jean Olivi que confere a São Francisco uma função fundamental, uma espécie de representação dos momentos-chave na vida de Jesus), o tema da pobreza e a centralidade de Cristo. Durrer estuda a Bíblia de Francisco e de seus frades (pp. 23-56). Eles recorrem ao texto bíblico para garantir a autenticidade da sua escolha de vida (cf. Regra Bulada). Os escritos de São Francisco são essencialmente compostos por passagens das escrituras. O Antigo Testamento é mencionado 156 vezes, o Novo Testamento 280. Nas fontes franciscanas quatro histórias contam sobre a descoberta do Evangelho por Francisco e os primeiros frades. É preciso ler a Palavra de Deus com o Espírito. Sem Ele, o texto mata, mas sem o texto, o Espírito permaneceria mudo. "Littera" para Francisco indica a Escritura como um todo, "verba" a ciência das palavras, o significante. O espírito da “Littera” seria o significado, o sentido profundo que é a sua implementação prática. Francisco compõe coleções de passagens bíblicas para ter certeza que está se expressando com as palavras certas. O texto dos sinópticos mais comentados na Regra Não Bulada é a regra de ouro. O Evangelho é uma Palavra anunciada, uma anunciação que chega até aos infiéis, mas acima de tudo através do exemplo e da vida. Francisco é influenciado pelas questões de seu tempo: a Trindade, a Eucaristia, a dignidade dos ministros e dos sacramentos, o mundo, a violência da cultura da guerra e assim por diante. Em Ammonizione 1, adota uma posição clara sobre isso. Francisco também foi um poeta: ele compôs salmos e, estando já cego no fim de sua vida, o Cântico do Irmão Sol. Delman estuda os ensinamentos da Bíblia junto aos franciscanos (já em 1220), com regulamentos específicos, no entanto, só nas Constituições de 1260 (pp. 57-70). Dahan analisa as ferramentas utilizadas (pp. 71-84.): dicionários, enciclopédias, manuais, léxicos, correctoria e coleções de distinctiones. Os franciscanos não produzem concordâncias bíblicas, prerrogativa dos dominicanos. Finalmente, em capítulos separados, são estudadas quatro figuras diversas de estudiosos franciscanos: um pregador (Santo Antonio de Pádua), um professor (São Boaventura), um espiritual (Pedro João Olivi) e um estudioso do judaísmo (Nicolau de Lira) (pp. 85-102. 103-128.129-160.161-178). Concluem o volume algumas indicações bibliográficas para o aprofundamento do estudo, o índice de citações, a lista de textos raros e algumas notas bibliográficas sobre a Bíblia nos escritos de São Francisco (em italiano) (pp. 179-190).   Fonte: IHU. 
  • Saudação do Ministro Provincial por ocasião da Festa de São Francisco de Assis
    Hoje, 04 de outubro, a Igreja celebra o Nosso Pai Seráfico, São Francisco de Assis, o fundador da Ordem dos Frades Menores. Seu exemplo de seguimento do evangelho e na imitação de Cristo (confira aqui a sua biografia) são modelos de vida para todos os cristãos e cristãs. Seu legado perdura até hoje na Igreja e na minoridade das famílias franciscanas. Confira a saudação do Ministro Provincial, Frei Marcelo Veronez (OFMConv), por ocasião da Festa do Nosso Pai Seráfico. Faça o download do PDF da carta aqui.    Saudação do Ministro Provincial por ocasião da Festa do Seráfico Pai São Francisco 2018   “in plano subsistere” “Quando perceberdes que cheguei ao fim, do jeito que me vistes despido antes de ontem, assim me colocai no chão, e lá me deixai ficar mesmo depois de morto, pelo tempo que alguém levaria para caminhar uma milha, devagar”. (II Cel. 217, 10)   O Senhor vos dê a Paz! Com essa saudação franciscana quero vos saudar com profunda alegria e dedicação por ocasião da Solenidade do Seráfico Pai São Francisco, para nossa família provincial é tempo de proclamar a linda antífona composta por Frei Jacopone de Todi que diz: “Salve Sancte Pater, Patriae lux, Forma minorum: Virtutis speculum, recti via, Regula morum; Carnis ab exilio, Duc nos ad regna polorum.” As virtudes elencadas na antífona acima, descrevem um homem que no chão da existência, “in plano subsistere”, dedica-se a ser um sinal de humildade, minoridade, e por fim, de fé. Ele deixou uma obra prima que não se perde: Uma espiritualidade rica em gestos e perfeita no seguimento de Jesus Cristo. Sua espiritualidade envolve todas as criaturas. A amplitude de sua espiritualidade se dá, porque ele centrou-se em Jesus Cristo. É a partir do Filho de Deus, que ele faz seu caminho espiritual, o caminho do Espírito. Por detrás da palavra Espírito, subsiste no chão da vida, uma experiência originária que permite a vitalidade de todas as manifestações humanas. Espiritualidade, neste sentido, significa viver o sabor da dinâmica da vida, sua defesa e sua promoção; vivê-la com ternura. Bem diz a Escritura: “escolha a vida e viverás” (Dt 30,19). A espiritualidade franciscana evoca para a acolhida e para a sensibilidade. A espiritualidade franciscana devota uma vida encarnada, não é algo pronto, que cai do céu, produto de uma mágica,  é sempre uma tarefa, um desafio, que perdura a vida inteira. Ela precisa ser aprendida e vivenciada, como atesta o próprio Francisco na primeira Regra que escreveu para os frades: “Irmãos, guardemo-nos todos muito bem para que sob a aparência de algum merecimento, obra ou vantagem, não corrompamos nossa mente e coração e não nos afastemos do Senhor. Mas, na santa caridade, que é Deus, rogo a todos os Irmãos, aos Ministros e aos demais que, removido todo o impedimento e deixados para trás todo o cuidado e solicitude, façam do melhor modo possível para servir, amar, honrar e adorar o Senhor Deus com o coração limpo e a mente pura. Pois é isso que ele procura acima de todas as coisas” (RnB 22, 25-26). Francisco percebeu que a espiritualidade é uma conquista, que parte do aspecto humano, do chão existencial até o silêncio.  Para tal, a espiritualidade franciscana requer um engajamento total da pessoa na real situação em que vive. Esse engajamento cria maior disponibilidade ao Mistério de Deus. Frei Tomás de Celano relata a partir de um horizonte que nos nivela ao plano do vivencial que: “Prometemos grandes coisas, maiores são as que nos foram prometidas. Observemos as primeiras e suspiremos pelas outras. O prazer é breve, o castigo perpétuo, o sofrimento é pequeno, a glória não tem fim. Muitos são os chamados, poucos os escolhidos, todos terão sua retribuição” (2Cel 191, 9). Recordar essa dimensão da espiritualidade de S. Francisco, em sua solenidade, implica dizer a cada um de nós que “in plano subsistere” ou mesmo, que estamos prostrados no chão da realidade, mesmo assim somos animados e convocados pela ação do Espírito, a deixar, antes de tudo, que o tempo da existência faça subsistir, ou mesmo, viver o amor que nos é permitido vivê-lo agora, sem exigências maiores.  É simples: viver o que se pode viver por já subsistir no amor. Isso nos recorda, de certo modo, a experiência da Cruz para S. Francisco. Viver e tomá-la no seguimento de Jesus é subsistir com ele na dor da espera, do silencio e da oração. Portanto, a espiritualidade que Francisco nos propõe considera a cruz sob um outro olhar. Se comumente a cruz é tida como algo insuportável e inatingível, Francisco a considera caminho que leva ao encontro de Deus que se doou absolutamente e gratuitamente. Ele encontra na cruz o significado de entrega e de assumir um bem maior, há nessa condição de humilhação, de solidão e de angustia uma proposta mais clara, isto é, caminho de minoridade e espera em Deus. O que torna a experiência da cruz singular para Francisco é encontrar o amor do próprio Deus e colocar-se à disposição. Ele alega que imitar Jesus Cristo é seu maior desejo: “é isso que eu quero, isso que procuro, é isso que eu desejo fazer com todas as fibras do coração” (1Cel 22). Francisco a entende não como masoquismo, mas como a revelação de um mistério e a exposição originária de uma vida plenamente assumida na clareza de atitudes e na eficácia da inocência: está ali, sem nenhuma defesa, sem nenhuma pretensão além de mostrar a liberdade como doação. É assim que os biógrafos revelam a persistência de Francisco em imitar Jesus em constantes pedidos de sofrer o que Jesus Cristo sofreu. Nas Considerações sobre os Estigmas encontramos um insistente pedido de Francisco que diz: “Óh, Senhor, meu Jesus Cristo, duas graças te peço que me faças antes que eu morra: a primeira é que em vida eu sinta na alma e no corpo, quanto for possível, aquela dor que tu, doce Jesus, suportaste na hora da tua Paixão; a segunda é que eu sinta no meu coração, quanto for possível, aquele excessivo amor do qual tu, Filho de Deus, estavas inflamado para de boa vontade suportar tal Paixão por nós pecadores” (CSE 3, 38). Por fim, celebrando a recordação de nosso Pai Seráfico, vos convido, de especial e singular modo, a subsistir na fé, na dinâmica da Cruz como doação, serviço e humildade. Um termo moderno que nos permite compreender melhor o que teria sido para Francisco “viver na terra”, seria “resignação” que, não significa, de modo algum, aceitação, ou mesmo submissão, mas sim compreensão dos acontecimentos e da cruz que livremente abraçamos, que livremente e publicamente queremos considerar durante nossa vida. Resignar-se é um ato de espiritualidade, que assume a dor de um tempo, para fortalecer a mudança e a conversão de amanhã.   A todos os frades, noviços e postulantes meu sincero desejo e votos de uma serena e bela festa do Seráfico Pai São Francisco.   Frei Marcelo Veronez Ministro Provincial   Publicamos também alguns artigos na série “Vocação Franciscana”, em que falamos sobre os muitos significados da vida de Francisco nos seguintes momentos: O Chamado e a Escuta, a Cruz de São Damião e a Reconstrução da Igreja. Acesse a série aqui. 

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