Durante os três dias que antecedem a solenidade de São Francisco de Assis, publicaremos a Série "Vocação Franciscana", um conjunto de artigos destacando o carisma da Ordem no Chamado, na Compreensão e na Vivência do Pai Seráfico. Este o segundo texto da série (confira o primeiro assunto clicando aqui). Para cada um dos temas, um religioso irá fazer uma explanação do ponto de vista religioso. Ao final do texto, confira a Importância da Cruz no Amor Fraternal dos Franciscanos pelo Frei Luís Ventura (OFMConv).
A Cruz de São Damião e Amor em São Francisco
Francisco perguntou “Senhor, o que quereis que eu faça?” e Deus o respondeu “Volta a Assis e ali te será dito”. Mas essa resposta não chegou assim tão fácil. O jovem de Assis teve de viver um longo período de sabatina em que não achava mais a si mesmo nas antigas felicidades do século. Teve que passar dias se perguntando que rumo tomar e, ainda assim, não encontrou o findar de seus questionamentos. Inquieto, viajou na esperança de descobrir como servir ao Senhor e não mais ao servo. De esperança passou a experiência. Viveu a pobreza e tornou doce o que antes era amargo à sua alma e ao seu corpo. E, mesmo assim, não lhe fora respondido.
Um dia, rezando na Capela de São Damião, que estava em péssimo estado devido ao abandono, aconteceu algo diferente. O Povorelo estava de joelhos aos pés do Crucificado quando uma voz lhe disse “Francisco, vai e reconstrói a minha Igreja que está em ruínas”. E, não compreendendo ainda o real significado deste chamado, ele saiu e, indo até a sua casa, tomou alguns caros pertences e os vendeu por um preço bem menor nas ruas da cidade. Pegou o dinheiro da venda e deu ao sacerdote da capela e se ofereceu para ajudar com as próprias mãos na reconstrução do local.
A atitude causou a fúria de seu pai, Pedro Bernardone. Ora, não bastavam os desfalques frequentes na loja de Bernardone que ele fazia ao entregar gratuitamente mercadorias e alimentação para os necessitados, agora estava a envergonhar a sua família? Seu pai o levou para casa, bateu nele e o acorrentou pelos pés, prendendo-o num cubículo embaixo da escada. Lá, ficou por alguns dias até que sua mãe, Dona Pica, movida por grande piedade, o soltou.
Liberto, Francisco voltou para a capela e passou a pedir esmolas para reconstruir a igreja enquanto se escondia de seu pai. O Povorelo tinha grande amor pela Cruz de São Damião, o Cristo que não estava machucado pelos castigos do calvário, o único sangue presente n’Ele, provinha de suas chagas. Os olhos bem abertos e a expressão amorosa deixavam bem claro que aquele momento não representava a derrota, mas sim a vitória de Jesus sobre a morte e o sinal de que Ele salvou a todos naquele momento, como dizia São Paulo, quando afirmava que Cristo cancelou “o documento escrito contra nós, cujas prescrições nos condenavam. Aboliu-o definitivamente, ao encravá-lo na Cruz” (Cl 2,14). Foi ali, aos pés daquele Cristo humanizado onde havia sido convidado por Deus a reerguer a Sua Igreja, mas o tempo d’Ele é diferente do nosso e é necessário que reflitamos muito para podermos compreender.
Sem mais alternativas, Bernardone decidiu recorrer ao Bispo em julgamento contra o próprio filho. O palco da audiência foi a própria Praça Comunal de Assis, onde o seu pai, mais uma vez quis leva-lo para casa dando a opção de retornar ou renunciar à sua herança, mas o jovem respondeu “As roupas que levo pertencem também a meu pai, tenho que devolvê-las". Assim, ele começou a tirar os seus trajes. Um a um e, estando nu, disse “Até agora tu tens sido meu pai na terra, mas agora poderei dizer: ‘Pai nosso, que estais nos céus”. O Bispo, então, o acolheu, envolvendo-o com seu manto e, daquele momento em diante, Francisco se afastou de todos e dedicou-se ao serviço dos pobres e doentes, mas, principalmente, à reconstrução diversas igrejas da região.
Já se perguntava “o que mais Deus haveria de querer de mim?” enquanto terminava a restauração da última igreja daquela localidade, a Capelinha de Santa Maria dos Anjos, a Porciúncula tão cara ao Pai Seráfico. Certo dia, ouviu durante a Santa Missa o evangelho de Cristo instruindo aos apóstolos sobre o medo de serem missionários pelo mundo, “sem túnicas, sem bastão, sem sandálias, sem provisões, sem dinheiro no bolso …” (Lc 9,3). Essa palavra tocou de tal forma o jovem de Assis que, finalmente, ascendeu-se nele a luz do seu chamado, “É isso que quero! É isso que desejo de todo o coração!” e, pouco depois, passou a vivenciar a sua obra: o seguimento puro do evangelho. A hora de São Francisco no tempo de Deus finalmente havia chegado. Precisou escutar o Senhor para entender que estava sendo chamado e necessitou de vivência para compreender a sua Missão. Em seu coração não restavam mais dúvidas, mas transbordava em Amor. O Amor que Cristo ensinou aos apóstolos e que agora o preenchia. O Amor que estava presente na Cruz de São Damião e que agora ele experimentaria por si, pelos irmãos e por toda a criação. Assim, aos poucos, muitos se foram se apaixonando por sua forma de vida e decidiam-se por acompanha-lo e, a estes e estas (como Santa e Clara e suas irmãs em Amor) sempre dizia “Nossa regra de vida é viver o Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo”.
Fonte: Canção Nova, Cruz Terra Santa e Franciscanos.
Confira a série Vocação Franciscana clicando aqui.
A Cruz de São Damião e Amor em São Francisco segundo o Frei Luís Ventura (OFMConv), confira o vídeo:
“Bem-aventurados são os pobres de espírito porque deles é o Reino dos céus” (Mt 5,3)
A pobreza dos consagrados não consiste na privação de alguma coisa e muito menos se identifica com o desprezo de qualquer bem ou criatura. É uma pobreza evangélica cujo sentido último é por causa do Reino dos céus. Pobreza por causa do Reino é compreender de antemão que sua raiz e sua força originária está no Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo. A partir daí, temos a missão de sermos pobres não diante de nossos próprios conceitos e parâmetros, mais diante da pessoa de nosso Senhor Jesus Cristo.
O que é ser pobre segundo o Evangelho de Jesus Cristo?
Todo discípulo é chamado por Jesus a segui-lo mais de perto e estar ao seu lado. Deste chamado e deste seguimento é que surge o desejo e o convite a renunciar todas as coisas pelo Reino de Deus. Isto é, um ‘sim’ dado a Deus nos leva a um ‘não’ às coisas que não são mais necessárias para o discipulado.
Este ‘sim’ dado a Deus leva o consagrado a perceber que uma só coisa lhe é necessária: estar ao lado de Jesus. E ser pobre na vida consagrada é consequência de um encantamento pelo chamado do Senhor. Neste ínterim, ser pobre é proclamar com a própria vida que Deus é o nosso único Senhor e sem o qual nada seríamos. De Deus tudo provém e por Ele fomos criados.
Mas, em que consiste a pobreza de Cristo? E o que é ser pobre como Ele é pobre?
Cristo é todo voltado para o Pai. Sua vontade é a vontade do Pai, de tal modo que, esvazia-se de si mesmo para assumir em sua vida seu plano de amor. Pois, só sendo pobres que somos capazes de sermos livres e de nos doarmos uns aos outros sem reservas, sem preconceitos e sem ‘segundas intenções’. A pobreza de Cristo nos ensina a assumirmos nossa finitude e a reconhecermos que ser divino é ser humano.
No entanto, o que significa assumir nossa finitude? É todo dia ter que levantar, trabalhar, estudar, passear, enfrentar as dificuldades, os problemas e as dores de cada dia com a mesma coragem e confiança de Jesus Cristo na cruz. Isto é, a confiança de Jesus no Pai. O tesouro e a herança de nosso Senhor Jesus Cristo é cumprir a vontade do Pai.
Da pobreza de espírito
“São muitos os que insistem nas orações e nos ofícios e fazem muitas abstinências e aflições em seus corpos. Mas, por causa de uma só palavra que lhes pareça injuriar seus corpos ou por causa de alguma coisa que se lhes tire, ‘escandalizados’, imediatamente se perturbam. Estes não são pobres de espírito. Porque, quem é verdadeiramente pobre de espírito odeia a si mesmo e ama os que lhe ‘batem’ no ‘queixo'” (Adm 14).
Fonte: Custódia Provincial Imaculada Conceição do Brasil.
Neste fim de semana, entre os dias 16 e 18 de novembro, representantes da Vida Religiosa na região amazônica se reuniram em Manaus (AM) para debater assuntos pertinentes aos eventos pré-Sinodais promovidos pela REPAM (Rede Eclesial Pan-amazônica). A ocasião foi mais uma etapa no caminho da escuta rumo ao Sínodo Amazônico para compartilhar o trabalho realizado e os resultados colhidos nos últimos meses nas bases em todos os 6 Regionais da Igreja na Amazônia.
A Vida Religiosa Consagrada (VRC) é uma presença próxima, um testemunho que caminha ao lado das pessoas e dialoga com elas nas fronteiras amazônicas, periferias e centros urbanos. Acompanha a vida dos que mais sofrem e são perseguidos: indígenas (inclusive os mais isolados), ribeirinhos, quilombolas, imigrantes, pobres.
A Irmã Maria Inês Vieira Ribeiro, Presidente da Confederação Brasileira de Religiosos (CRB), em declaração concedida ao Padre Luis Miguel Modino, resume, “a Vida Religiosa espera que o Sínodo olhe concretamente para a situação de vulnerabilidade dos povos da Amazônia e que apoie uma Igreja cada vez comprometida com as causas dos mais vulneráveis entre os vulneráveis”, contou explicou a Religiosa. “Não tem sentido como religiosos e religiosas ficarmos acomodados em nossa zona de conforto”, continuou ela.
Em nome da Vida Religiosa na Amazônia brasileira, Irmã Maria Inês sente a obrigação de voltar à presença nas bases, de chegar às comunidades mais distantes, muitas vezes esquecidas e desatendidas; de escutar e promover o diálogo. Uma Igreja menos administradora e mais missionária, que seja voz dos povos que acompanha, respeite a religiosidade popular e os saberes e espiritualidades dos povos tradicionais.
Carta final e mensagem ao Papa Francisco
Na conclusão do encontro foram emitidos dois documentos: uma carta ao Papa e outra, resumindo o conteúdo do evento. Ao Bispo de Roma, os participantes colocam-se à disposição, “com a nossa oração e o nosso trabalho, a viver na simplicidade e na pobreza”. E na ótica da Encíclica Laudato Si, querem “que o Sínodo para a Amazônia seja uma oportunidade para o mundo conhecer os valores e gritos presentes na Igreja da Amazônia, entender seu dinamismo e receber as contribuições que pode oferecer”. Confira a carta (em espanhoul) clicando aqui.
Fonte: Vatican News. Autora original: Cristiane Murray.
A Ordem dos Frades Menores Conventuais é a Ordem religiosa fundada por São Francisco de Assis.