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São Francisco de Assis e o Natal do Senhor

São Francisco de Assis e o Natal do Senhor

"Os pastores foram às pressas a Belém e encontraram Maria e José, e o recém-nascido deitado na manjedoura” (Jo 1,16)

ㅤㅤPara São Francisco de Assis, o Natal do Senhor não foi apenas uma celebração litúrgica entre outras no calendário cristão, mas o coração pulsante da fé, o momento em que Deus se revela na totalidade de seu amor, humildade e proximidade com a humanidade. A profunda relação de Francisco com o Natal traduz-se em uma espiritualidade que convida os fiéis a olharem não apenas para um evento histórico, mas para um mistério contínuo de encarnação e transformação interior. Para São Francisco, era questão de celebrar “a memória daquele Menino que nasceu em Belém e ver de algum modo com os olhos corporais os apuros e necessidades da infância dele” (1Cel 84, 8).

ㅤㅤA encarnação do Verbo, o Filho de Deus assumindo a condição humana, mudou o destino da existência humana. Para Francisco, crer nesse mistério era reconhecer que toda criatura, toda realidade cotidiana e cada forma de vida tem dignidade e valor porque Deus quis fazer-se carne, nascendo na fragilidade de um Menino entre Maria e José. Essa compreensão está na base de sua extraordinária intuição de recriar o presépio em Greccio, no Natal de 1223 (cf. 1Cel 84-87).

ㅤㅤPara Francisco, o presépio não era um mero símbolo estático, mas um ato de fé que convida à contemplação transformadora. Ao compor manualmente a cena do Natal, o ser humano é chamado a reconhecer que o mistério divino se encontra na simplicidade da vida humana, o Deus que se faz pobre está presente em nós, nas nossas relações, nos nossos gestos de amor e no cotidiano dos nossos dias. O mundo inteiro torna-se presépio quando o coração se abre para reconhecer a presença divina nas criaturas simples e humildes.

ㅤㅤEssa espiritualidade natalina franciscana tem uma dimensão teológica profunda: a celebração da Encarnação é inseparável da Eucaristia. Francisco via no altar da missa uma continuação do presépio, um lugar onde o Deus que se fez menino se faz presente aos seus no sacramento do Corpo e Sangue de Cristo. Assim, o Natal e a Eucaristia se unem para revelar o mistério central da fé cristã e convidar os fiéis a uma vida de humildade, fraternidade e solidariedade.

“Pasme o homem todo, estremeça o mundo inteiro e exulte o céu, quando sobre o altar, nas mãos do sacerdote, está o Cristo, o Filho de Deus vivo. Ó humildade sublime! Ó sublimidade humilde! O Senhor do universo, Deus e Filho de Deus, humilha-se a ponto de se esconder, para nossa salvação, sob a humilde aparência de pão. Vede, irmãos, a humildade de Deus e derramai diante dele os vossos corações!” (CtOrd, 26–29)

ㅤㅤCelebrar o Natal à luz de São Francisco é, portanto, mais do que recordar um evento remoto. É acolher o mistério de um Deus que se aproxima, que se compadece e que convida cada pessoa a mudar de olhar, a reconhecer o sagrado no simples e a viver a encarnação permanente do amor divino na própria vida. Francisco nos mostra que o Natal nos chama a ser portadores dessa mesma ternura e luz, irradiando a presença de Cristo nas nossas comunidades, famílias e no mundo inteiro.

ㅤㅤO sentido profundo do Natal sempre esteve associado à alegria e à vida nova. O papa São Leão Magno afirmou na vigília natalina: “Alegremo-nos. Não pode haver tristeza no dia em que nasce a vida”, recordando que o nascimento de Cristo dissipa o medo da morte e inaugura a esperança da eternidade. Esse mesmo espírito marcou a vivência de São Francisco de Assis, que, diante do presépio, ficou “contrito de piedade e transbordante de admirável alegria” (1Cel 85,10), contemplando no mistério da Eucaristia o nascimento do Menino Deus.

ㅤㅤO Pobrezinho de Assis desejava que a festa natalina fosse vivida com generosidade concreta. Certa vez afirmou que, se falasse com o imperador, suplicaria por um decreto para que não capturassem aves e que os pobres fossem alimentados com fartura, dispensando o jejum, e que até os animais recebessem comida com abundância, sinal de que o mistério da Encarnação enobrece toda a criação. Para ele, o Filho de Deus, ao assumir a condição humana, dignifica o mundo criado e o conduz ao Pai.

Queria que, nesse dia, os pobres e famintos fossem saciados pelos ricos, e que aos bois e aos burros fossem concedidos ração e feno mais do que de costume. (...) Se eu pudesse falar com o imperador, pediria que se fizesse uma lei geral para que todos aqueles que podem, atirem pelas ruas trigo e grãos, a fim de que, no dia de tão grande solenidade, os pássaros tenham fartura, principalmente as irmãs cotovias. (2Cel 200)

ㅤㅤCelebrar o Natal, à luz da espiritualidade franciscana, não permite indiferença. Mais do que recordar um fato, implica reconhecer a própria pobreza humana e, ao mesmo tempo, a presença do sagrado na vida cotidiana. Em tempos de fragilidade social e sanitária, o Natal se torna verdadeiro quando a luz da caridade se traduz em gestos concretos de cuidado, solidariedade e esperança, capazes de afastar a tristeza e afirmar a vida.

 

Fontes: CFFB, Franciscanos.org, Franciscanos Amazônia, Capuchinhos.org, Fontes Bibliográficas Franciscanas.