“Francisco, homem de Deus, cantava com júbilo e louvores ao Senhor em língua francesa” (LM 5,2).
Celebramos neste dia a Solenidade do Seráfico Pai São Francisco de Assis, a vivência desta data nos ajuda fortalecer a vocação cristã, religiosa dentro de uma perspectiva franciscana. Neste ano, de forma especial, a nossa Ordem e a Família Franciscana celebram o Oitavo Centenário do Cântico das Criaturas, oportunidade que permite recordarmos o amor do Seráfico Pai São Francisco de Assis à criação.
A vida de São Francisco de Assis nos edifica, pois, observamos nele uma profunda espiritualidade que remete à Encarnação, a Paixão e a Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo nos convidando a vivencia dessa espiritualidade. Ele tornou-se o homem evangélico, católico, apostólico, etc a partir de um grande amor a Cristo, a Igreja e a criação. A sua vida foi um precioso jogral que externalizou uma espiritualidade unida à sua realidade, em uma relação harmoniosa que integra a Paixão do Senhor à sua vivência existencial.
Na vida de São Francisco de Assis, encontramos um existencialismo cristão que refletiu as suas limitações humanas e os seus pecados, mas vislumbrou a graça divina, fruto da Paixão e Ressurreição do Senhor, que o preencheu plenamente. Aprendemos, desta forma, que aquele que renuncia a si mesmo encontra-se com o Sumo Bem, na vivência dos méritos da Ressurreição, já nesta vida: “mudou o os afetos do coração humano, reprimiu com seu
poder a presunçosa malícia dos demônios, apagou a veracidade das chamas” (LM 6,11).
A juventude de São Francisco de Assis foi marcada pelo desejo de uma ascendência social, aos moldes dos apetites temporais da época, ressaltados por Tomás de Celano: “superou os jovens de sua idade nas frivolidades e se apresentava generosamente como um incitador para o mal” (1Cel 1,2). O jovem Francisco refletia em si um vazio existencial, no qual as inclinações impunham suas regras sobre ele: “até o vigésimo quinto ano de sua idade perdeu-se e consumiu-se miseravelmente o seu tempo” (1Cel 2). Esta realidade formou a sua personalidade e o seu caráter, levando-o a buscar títulos de nobreza, desejando ser cavaleiro, visando um status e, consequentemente, ele assumiu uma guerra que lhe ocasionou sofrimento, derrota e prisão: “no tempo em que houve a guerra entre Perugia e Assis, Francisco foi capturado... e encarcerado em Perugia” (LTC 4,1). Os desejos do jovem Francisco lhe impuseram exigências, causando-lhe tribulações e conflitos, pois ainda não compreendia bem os desígnios do Senhor: “ignorava até então o projeto de Deus, distraído pela vontade do Pai para as coisas exteriores e submerso nas coisas inferiores” (LM 2,1). A realidade de dúvidas e de medo fez brotar em Francisco uma introspecção, uma comoção interior, que por sua vez o conduziu a repensar a sua conduta, buscando um sentido para si mesmo, e pouco a pouco o Altíssimo iluminou o seu coração.
A conduta evangélica do Seráfico Pai São Francisco de Assis revelou uma experiência profunda de um homem movido pela fé: “era inundado por indizível alegria até então não experimentada por ele; inflamando-se totalmente desta alegria” (1Cel 10,7). Um homem marcado por mudanças interiores, realizando colóquios constantes com Senhor, por diversas formas como: momentos de silêncio, de contemplação, de oração e louvores: “Francisco, homem de Deus, cantava com júbilo e louvores ao Senhor em língua francesa” (LM 5,2). Os traços de São Francisco de Assis revelavam em grande intensidade um homem reconciliado, que buscava o sagrado com atitudes que lhe traziam paz e comunhão com Deus e com os irmãos. São Francisco foi respondendo às realidades conflitivas de sua sociedade, assumindo a vida de modo semelhante àqueles que viviam à margem da sociedade da época, optando por ser chamado de menor: “O humilde Francisco decidiu que eles se chamariam Frades Menores” (Lm 1,2). Ele buscou ser menor, associando-se aos pobres e aos leprosos, representando uma das classes de sua sociedade: “sentou-se alegremente entre os pobres e considerando-se como um deles, come avidamente com eles” (2Cel 8,3), e aos leprosos: “transferiu-se para junto dos leprosos e permanecia com eles, servindo com diligência” (LM 6, 3). A conversão de São Francisco de Assis foi cheia de significado, suscitando em seu pai reações diversas, pois este era ávido e ambicioso, e sentia-se lesado pelo filho. Pedro de Bernadone exigiu a restituição dos seus bens diante do Bispo: “o furor exasperado do pai... levouo a presença do bispo da cidade para que renunciando nas mãos dele a todos os bens, restituísse tudo” (1Cel 14, 4). São Francisco não temeu assumir a sua vocação, pois declarou em público o seu propósito vocacional, abandonando-se em Deus: “entrando no quarto do bispo, despiu-se de todas as suas vestes e colocando o dinheiro sob elas... restituo-lhe o dinheiro, pelo qual estava perturbado... querendo agora dizer pai nosso, que estais nos céus” (LTC 20, 2-3). Observemos que cena inusitada esta do Bispo que acolhe o jovem Francisco cobrindo a sua nudez, o que revela a Igreja como Mãe, que recebe seus filhos e oferece a eles a graça de Cristo: “o bispo, considerando a coragem do homem de Deus e admirando o seu fervor, acolhe-o entre seus braços, e cobrindo-o com seu manto” (LTC 20, 8). Assumindo publicamente a sua vocação, São Francisco de Assis renuncia aos bens, professa a sua consagração, confia
plenamente e dedica-se ao Senhor por meio do trabalho de construir as igrejas em ruínas.
A reconstrução da Igreja realizada por São Francisco (LTC 13,7), em um primeiro instante, foi vista de forma literal por São Francisco que se dedicou à construção da igreja de São Pedro: “para não ficar de braços cruzados, encetou a reconstrução de outra igreja dedicada a São Pedro” (LM 2,7); São Damião: “fora construída antigamente a igreja de São Damião. Com a graça do Altíssimo, reparou-a cuidadosamente em pouco tempo” (1Cel 8, 18) e Santa Maria dos Anjos: “Francisco era grande devoto de Maria... quando viu a igreja naquele desamparo, começou a morar aí permanentemente a fim de poder restaurá-la” (LM 2, 8). Mas Deus o iluminou concedendo uma profunda compreensão de seu chamado, pois na festa de São Matias, em 24 de fevereiro de 1208, na leitura do Evangelho da Missão, teve a inspiração da mudança do estilo, dedicando-se à evangelização: “começou Francisco a desejar vivamente a prática da perfeição evangélica e a convidar outros a que abraçassem os salutares rigores da penitência” (LM 3,2). Esta clareza de vocação e missão fez o Seráfico Pai São Francisco de Assis assumir o estilo propriamente franciscano, dedicando-se à Palavra e aos irmãos: “muitos começaram a reconhecer a verdade da doutrina que o homem de Deus com simplicidade pregava” (LM 3,3). A dinâmica missionária não só faz São Francisco de Assis abrir-se aos irmãos, levando a Palavra e o apostolado, mas também o leva a acolher novos irmãos para vida comunitária, em uma vida de partilha.
No período de enfermidade de São Francisco de Assis em 1225, devido à impressão das chagas em 1224, sentia-se atribulado e incomodado pelas dores: “Os sofrimentos, porém, não lhe davam sossego e ao permanecer acamado por cinquenta dias ou mais, o bem-aventurado Francisco não podia ver a luz do sol de dia nem ver a luz do fogo a noite”[1]. Mas a luz divina o inspirou, pois recebeu o alívio do Senhor, garantindo que seu sofrimento e as suas dores seriam condições para receber a vida eterna: “exulta, pois tua enfermidade é a garantia do meu reino, e pelo mérito da paciência espera seguro e certo a herança deste mesmo reino” (2Cel 213, 6).
A certeza da salvação, dada pelo Senhor, fez nascer no coração do Seráfico Pai um louvor de gratidão Àquele que é o Sumo Bem, e em uma linguagem simbólica fez nascer o louvor a Deus por toda a criação, o Cântico das Criaturas! Neste cântico ele reconhecia a essência e o valor do Senhor presente na criação: “Deus me deu tal graça que se dignou, na sua misericórdia... vivendo ainda neste mundo, de que participaria do seu reino” (Leg Per 43).
Desta forma, o Cântico das Criaturas se origina de uma interlocução interior de São Francisco de Assis, refletindo a profunda comunhão com Deus e gerando um ato de louvor que é fruto da certeza de sua salvação, o qual o fez ir além de seus limites. Desta forma, o Seráfico Pai exaltava o nome do Senhor, louvando-O pelo sol, pela lua, pelas estrelas, pelo vento, pela água, pela terra, pelos que perdoavam e pela irmã morte.
O Cântico das Criaturas nasceu do coração de São Francisco como ato de louvor a Deus, pela certeza de sua salvação, renovando o coração do Seráfico Pai.O exemplo de São Francisco de Assis priorizou a vida interior e a voz divina em si, tornando-o um novo homem, compreendendo o valor da criação, dos irmãos e da Igreja, visando uma contemplação ampla dos sinais e dos vestígios de Deus em tudo que está a nossa volta.
Portanto, finalizo com os cumprimentos, nesta Solenidade do Seráfico Pai, de que o ideal de São Francisco – que impactou a humanidade no decorrer de séculos – seja a força inspiradora em vosso ideal e vocação cristã, transformando vossas vidas, tornando-os luzes, transformando-os interiormente para serem construtores do Reino de Deus, como fez São Francisco de Assis.
[1] LECLERC, Eloi. Cântico das Criaturas. Tradução de J.B. Michelotto - 3 ed. Petrópolis, RJ: 2025, Vozes, p.11.